Não leia esta história sem antes ler os capítulos anteriores!
Capítulo I: Selvagem como as Trevas.
Capítulo II: Pelas Sombras do Absoluto Mal.


STAR WARS: OBSCURIDADE
Capítulo III – Poderosos Sangues em Conflito


ATENÇÃO! Para o melhor entendimento da narrativa, confira a abertura disponibilizada no vídeo abaixo:


1

ㅤㅤAlegre, o Imperador tornou a sentar-se sobre seu trono magnífico, acompanhando com bastante entusiasmo e satisfação o combate que plenamente iniciara-se, já brutal e sanguinário antes mesmo das primeiras faíscas rugirem junto aos uivos de cansaço. Natas colocara-se firme de um lado, carregando o influente sangue dos Jinn em suas veias pulsantes; legado duradouro que acompanhou muitos dos seus antepassados. Do outro, o maquinário Vader bufava em fúria, os olhos amarelados analisando os contornos da moça por entre os visores avermelhados, ao passo que a mais poderosa das seivas galácticas inflava por cada membro rígido.
ㅤㅤAmbos duelaram minutos a fio, sem o menor espaço de tempo para descansarem, lançando perante suas carnes e armaduras movimentos de tirar o fôlego. A menina, ofegante e concentrada, recheada de ódio e sentimentos vingativos, com o sabre sendo erguido pelas duas mãos — uma tática familiar, caso estejam com boa memória —; o homem de preto à frente, num primeiro momento locomovendo-se apenas na defensiva, portava uma aparência mais convidativa e experiente, com toda a pompa e elegância trevosa, segurando a própria espada uma única maúça.
ㅤㅤO suor escapando pela pele da jovem, aos gritos e tropeços, enquanto a outra criatura parecia não se cansar; podia ser um exercício longevo, que durasse dias ou semanas, meses ou ciclos planetários, para ele não faria tanta diferença. Natas via-se acostumada com a serenidade dos treinamentos Jedi, com as palavras doces e afetuosas, enquanto Vader via-se diariamente numa luta sem fim contra a democracia, um servo fiel ao grande regime ditatorial que permeava o carente cosmo.
ㅤㅤPoderosas linhagens em combate. Juventude contra técnica, tolice contra sapiência. Mas, no fim, algo não muito divergente. Mal contra mal.
ㅤㅤEm um golpe ligeiro, a menina teve sorte em lançar a ponta do sabre em oposição ao capacete do monstro de preto, arrancando uma mediana lasca. Foi finalmente possível contemplar seu olhar cróceo, como se labaredas de um fogo controlado refletissem pelas repartições arredondadas, isto no mesmo espaço em que compartilhava um delineamento à sua pele queimada, grotesca através de cada pequeno poro, adquirida na batalha grandiosa que até então definira o curso de sua trágica vida. As sobrancelhas calvas cerraram-se no interior do aparato, estabelecendo ainda mais o ódio crescente que sentia. Agora, de modo mais agressivo, partiu ao seu encontro, as ranhuras de sabres rubros produzindo faíscas cada vez mais tórridas e horripilantes.
ㅤㅤ— Vamos, minha querida. Acabe com ele! — A voz rouca que nascia das proximidades começou a provocá-la, pressionando de maneira gloriosa o íntimo ignóbil; sabia que, dali, extrairia sua fraqueza.
ㅤㅤTais dizeres nada mais eram do que parte de sua estratégia manipuladora, algo que o atual gladiador sombrio estava há muito acostumado. Um artifício usado por Sideous desde a juventude; a infância difícil, os tempos de República e, agora, o grande Império. Pertencente também aos inúmeros combates de treinamento para o aperfeiçoamento das habilidades do renomado e perdido Skywalker. A maneira que encontrava para desestabilizar os rivais do vigente aprendiz, dando sempre a ele uma ligeira vantagem. Adestraram-se muito desde a formação do regime vigente; mais ainda para mantê-lo em perfeito funcionamento.
ㅤㅤ— Eu vejo o ódio que emana, garota… — continuou, enunciando da poltrona rochosa, aos sorrisos apodrecidos. — O ódio pela figura de meu nobre companheiro. Agora… não perca a oportunidade de ouro que possui. Não desperdice o próprio potencial. Vença-o! Vença-o… e demonstre para mim todos os seus poderes, toda sua Força! Vença-o… e junte-se a mim.
ㅤㅤE, em meio aos golpes ferozes e avassaladores, ela não fez-se de mero capacho; não como o adversário a vida toda fizera. Natas cerrou as pálpebras esbranquiçadas, o cenho franzido, concentrada em abundância apenas no objetivo-mor que tomara para si. Passo a passo, pequenos feitos de cada vez. Naquele instante, um único propósito lhe inspirava; naquele instante, só possuía olhos ao indivíduo à frente. Aos soluços, foi pronunciando, sentindo o ar já rarefeito dentro do próprio tronco.
ㅤㅤ— Eu jamais me unirei a você! — saiu como um belo berro. — Depois que derrotá-lo… que quebrar esse capacete horrendo em mil pedaços e derramar teu sangue sobre este solo… sobre os meus pés… será a sua vez!
ㅤㅤO Imperador esticou uma vez mais os lábios desprovidos de muita carne, aplaudindo com maestria a atitude da jovem menina.
ㅤㅤ— É tudo o que eu mais desejo, minha pequena — levou ambas palmas manuais à frente, atuante numa possível rendição. — É tudo o que eu mais desejo…
ㅤㅤE, então, os audaciosos guerreiros tornaram a travar seu combate épico. Com golpes cada vez mais ferrenhos, passos truncados, demonstrando as exímias habilidades que há anos aquele universo não via. Desde os embates colossais que derrubaram a República… e conceberam o Império. Desde Coruscant e Mustafar, das diversas regiões conhecidas e mapeadas ao sombrio planeta Exegol.
ㅤㅤ— Eu sinto algo… algo que você parece não perceber… — encarou o escárnio do demônio de capa, friamente exposto por um único olho. — Você está velho, Vader. O tempo passa para você mais do que passa para qualquer um de nós. Você… certamente sente as dores de ser muito mais máquina do que homem…
ㅤㅤEle golpeou-a com uma majoritária força, lançando-na metros atrás aos solavancos, até finalmente esfregar as costas acima dos solos empoeirados. Preocupada, ela saltou centímetros ao alto, recompondo-se assim que pôde. Gostou do desafio, assim como apreciava cada pequeno detalhe daquela batalha. E foi percebendo que, ao provocá-lo, deixava a luta ainda mais justa, com a indômita cólera inflamando pelos dois íntimos.
ㅤㅤ— O que acha que acontecerá quando você estiver velho o suficiente para servi-lo? — bufou, abrindo os braços em um tom desafiante. — O que acha que ele fará com você?
ㅤㅤSkywalker aproximou-se, ensandecido e à procura de sangue. Sentindo os midi-chlorians abastecendo-na com louvor, pulsando através das veias como cargas elétricas poderosas, Natas praticou um pequeno impulso com as mãos quando o avizinhamento do inimigo atingiu o diâmetro pessoal da própria aura, segurando o sabre que nadava em meio ao ar à procura de seu pescoço, prestes a cerrá-lo desprovido de um pingo de misericórdia. E, subsequentemente, atingiu-o com a própria lâmina avermelhada, produzindo outro festival de faíscas.
ㅤㅤ— Ele irá descartá-lo! — manteve a linha de raciocínio intacta. — Irá descartá-lo… para arranjar outro idiota para manipular. Outro idiota para suprir o seu lugar ao lado dele!
ㅤㅤViu-o cerrar as sobrancelhas asseadas, ao passo que o punho se comprimia num aperto enérgico perante o cabo metálico da arma. Distraída demais pelas palavras que ela mesmo enunciara, trabalhando os contornos da absurda prepotência que ostentava, não previu o golpe lançado sobre sua mão direita, completamente visceral. O inimigo, agora, não apenas havia rasgado seu punho, mas também jogado o que sobrou do antigo membro, e a espada que empunhava, para longe. O sabre desligou-se automaticamente, enquanto a parte arrancada cuspia tanto sangue quanto o toco encontrado no pulso.
ㅤㅤFoi quando um grito incontrolável de dor e angústia fora deferido, ecoando em meio à grandiloquente ambiência perversa. As almas dos antigos Sith a escutaram, aos suspiros demoníacos, confortavelmente estabelecidas por cada metro quadrado de rocha lascada.
ㅤㅤAquele golpe, aquela perda… significaria muito mais do que um breve revés. Escrutinava o começo de sua estonteante derrota, de sua nunca antes concebida ruína.
ㅤㅤ— Seu… desgraçado! — Profanou contra a figura maquinaria, derramando as primeiras lágrimas em anos.
ㅤㅤLágrimas estas que não representavam tristeza… mas sim decepção. Decepção perante si mesma, pelo alto grau de tolice que a definia.
ㅤㅤA menina começou a arrastar-se através do chão, contorcendo cada membro remanescente. No que sucedeu o deferimento do golpe preciso e desestabilizador, Vader caminhou ao seu encontro, como um animal prestes a abocanhar a presa ferida, ostentando serenidade e paciência. Alcançou-a depois de parcas pernadas, rodeando-a numa aura mansa e vagarosa. A fornalha de seu sabre iluminando-a de carmim, refletindo sobre a patética presença da jovem todo seu fracasso.
ㅤㅤ— Então… quer dizer que você quer matar nós dois? — Sidious ergueu o queixo, altivo, sentindo-se grato pela presença em tal ocasião especial. — Quer matar nós dois, e ainda convencê-lo de que é um fantoche antes do seu grande feito? Isto está me lembrando lendas antigas, minha menina. Histórias que já perderam a graça e a credibilidade há muitos séculos.
ㅤㅤEla suspirou avidamente, fechando e abrindo os olhos num frenesi supremo. O peito acumulava mais raiva do que ar, os pulmões inchados empilhando intermináveis bufos de angústia.
ㅤㅤ— Foi pra isso que treinei. Foi para isso que dediquei toda a minha vida — cuspiu na direção do trono, olhando-o de forma desrespeitosa. — Para chegar até este momento e cumprir o meu propósito. Para… fazer aquilo que no passado ninguém teve coragem. E, enfim, impedir esta palhaçada toda.
ㅤㅤOfegante, recebeu a atenção de ambas criaturas trevosas, cautelosas a lhe escutar.
ㅤㅤ— Não no intuito de ruir o Império inteiro. Pouco me importa essa bagunça — encarou o oponente dos sonhos e pesadelos. — Eu queria vocês dois. Eu queria ele.
ㅤㅤA respiração de Skywalker apoderou-se da máxima figura que o delimitava, cada segundo mais imponente e incômoda, escancarando cada nuance da já conquistada vitória.
ㅤㅤ— Cumprir o seu propósito, hum? O seu propósito… — levou uma das mãos na direção do queixo, massageando-o. — Quão irônico isso está sendo, minha pequena. Pelo visto, há outro grande destino a ser concluído aqui. O de morrer nas mãos daquele que matou os seus pais… — pronunciou em tom de deboche, erguendo os sobrecílios. — Oh, que ocorrência nobre, eu devo dizer. O mais engraçado é que… esta certamente seria a personalidade de um verdadeiro Jedi, muito embora você não se considere uma. Porque isso parece ser o que carrega no seu legado. Ser derrotada pelo próprio fracasso.
ㅤㅤNatas arregalou os olhos, inconsolavelmente furiosa. Não havia sido exatamente aquilo que previra, que buscara alcançar.
ㅤㅤ— Minha querida… não há nada sobre você que eu ainda não saiba — ergueu a maúça destra, levitando o sabre largado da garota e trazendo para seu encontro; Sidious buscava levá-lo até a grandiosa coleção que possuía, outro desejo dos intermináveis caprichos. — Seus sentimentos podem enganar pessoas comuns, como enganaram seu tio durante muito, muito tempo. Mas eles jamais me enganariam. Não há nada vivo neste universo capaz de fazer isso.
ㅤㅤEra o Imperador, no fim das contas; e este era um detalhe imenso que jamais deveria ser esquecido ou ignorado. A criatura mais poderosa do cosmo na contemporaneidade, capaz de governar um sistema gigantesco com tamanha proeminência, com soldados e serviçais tão leais quanto cães de estimação, independente de quaisquer circunstâncias que fossem colocados. Teu absurdo continuaria ainda por mais muitos e muitos anos, sem perspectivas de um completo expurgo.
ㅤㅤ— Eu… — gaguejou, a dor latente do punho cerrado abatendo o sistema nervoso sem clemência. — Eu… não hesitaria, nem por um segundo, em matá-lo, sua criatura nojenta. Em matar vocês dois.
ㅤㅤ— Bom, bom… — Palpatine sorriu, suspirando avidamente. — Disso eu também sei. O que significa que, agora, eu e meu glorioso aprendiz ainda temos trabalho a fazer. Vamos, juntos, lhe mostrar o seu verdadeiro destino.
ㅤㅤAs vistas uma vez mais correram para alcançar o companheiro mecânico, igualmente numa brisa de luminescência avermelhada, através da arma ainda ligada enlaçada por uma das mãos, que engolia-o de baixo para cima. Oscilou levemente o crânio, num sinal positivista.
ㅤㅤ— Hesitação é algo que não pode pertencer a nenhum grande Sith. — Vader pronunciou, consoante com os próprios pensamentos, no exato instante que a respiração acelerada começara a detalhar suas futuras ações.
ㅤㅤEle teria que matá-la agora. Matá-la para cumprir outra ordem de capacho, matá-la para convencer ambos de que era realmente capaz de tal tarefa. Não seria como minutos atrás, onde a onda de reflexões que lhe tomou conta o impediu de ferir o espectro Jedi aprisionado. Havia muito mais a se provar naquela ocasião do que parecia.
ㅤㅤ— Você… não percebeu até agora, não é? — as palavras da garota saíram quase como um minguado sussurro. — Qui Gon me falou sobre seu passado, nas muitas vezes que quis conhecer mais sobre o monstro que havia se tornado. Nas muitas vezes que quis aprender sobre meu adversário. Ele me contou coisas que me fizeram entender sua história… mas também que me fizeram questionar, igualmente, sobre sua veracidade e concordância. O que eu não consigo crer é que… eu percebi, mas você ainda não.
ㅤㅤO homem engoliu seco, piscando levemente ao relaxar as sobrancelhas peladas. Estava sendo dominado pela curiosidade, muito embora ainda não fosse apto a questioná-la sobre o que acabara de dizer. Afinal, não era ele quem deveria estar numa posição vitimista em tal circunstância; tampouco deveria externar qualquer tipo de atitude misericordiosa. Mas estaria atento caso ela decidisse continuar, como bem fizera.
ㅤㅤ— Você… era um escravo, Vader. E eu sei o quanto isso te marcou, o quanto lhe ajudou a crescer com ódio e sofrimento — as falas saíram cortantes como uma lâmina de fogo, inclemente, atingindo-o exatamente onde pretendia. — Ódio do mundo, daquilo que não podia controlar. Foi por isso, imagino… que mergulhou tão fundo em sua ânsia por poder.
ㅤㅤPosou-se impaciente, colocando o sabre flamejante rente ao pescoço nevado da adversária. De fato, o tema era capaz de mexer contigo de uma maneira pouco compreendida por muitos.
ㅤㅤ— Você era um escravo, Vader! Era… e continua sendo… — balbuciou, os olhos físicos perante a única escleral que contemplava. — O que aconteceu em Tatooine não foi diferente do que aconteceu com a Ordem Jedi, com as regras que você seguia. Assim como não é diferente do que acontece hoje. Você… foi um escravo da república, com um manto que encobria tal propósito. Serviu a um dogma que nem acreditava. E, agora, está ancorado na criatura mais odiosa que poderia encontrar.
ㅤㅤSeus pensamentos refletiam exatamente a figura presente no trono. A menina lançou-lhe vistas poderosas, enquanto acompanhou-o igualmente observá-la, quieto e calado, envolto nos dizeres tal qual seu aprendiz também estava.
ㅤㅤ— Se me matar… seguirá sendo o servo que sempre foi. O escravo, que sempre precisará de um mestre para guiá-lo. Um mestre para obedecer — e apostou fundo no grande golpe de Minerva, na esperança de que aquilo, de uma forma ou de outra, lhe rendesse o prêmio objetificado. — Todo escravo, Vader… necessita de uma só coisa. Eles não querem ser mestres, porque desta forma estariam novamente ligados a alguém. E sempre haveria um peixe maior, outra pessoa para quem se ajoelhar. Seria inevitável…
ㅤㅤRespirou fundo uma vez mais, o bufo com trejeitos mecânicos soando mais como o suspiro de um fantasma; uma alma penada que permanecia no mundo dos vivos não por sorte, mas sim por maldição. Sua vida devia ter sido ceifada anos atrás, na épica batalha do fogo.
ㅤㅤ— Todo escravo deseja ser livre. Alcançar a liberdade é o que diariamente lutam para fazer — deu seguimento ao argumento, sentindo a labareda da lâmina começar a recuar. — E eu lhe ofereço isso. Lhe ofereço a única liberdade que poderia alcançar no estágio em que chegou. Eu lhe ofereço a morte… uma troca de favores para que ambos estejamos livres de nossas sinas. Basta… permitir que nos ajudemos.
ㅤㅤO Imperador roçou a garganta, emitindo um leve porém sonoro riso. Estava impressionado, para dizer o mínimo. Impressionado com a abundante perspicácia da menina, com a determinação que emanava. Certamente, em uma ocasião bem diferente daquela, poderia ser-lhe de grande valia. Uma adição memorável ao grandioso exército de súditos.
ㅤㅤ— Suas palavras são… admiráveis, garota. Mas o seu senso de realidade, infelizmente, anda devastado… — enunciou com firmeza, mesmo que parecesse finalmente temeroso, vislumbrando-os com a maior da atenções. — Vader é o homem mais poderoso de toda galáxia. Seu lugar ao meu lado não foi escolhido por acaso. No passado… ele decidiu servir um propósito maior. Uma crença que não é pautada pelo falso sentimento de compartilhamento, mas sim o único e fundamental dilema da individualidade. Você aprendeu a ser uma Jedi, criança… não venha querer deturpar a nossa crença com suas palavras mesquinhas.
ㅤㅤEla retornou as vistas na direção de Vader, sem querer parecer abalada por tais dizeres. Por um breve, porém avassalador, momento, pareceu adquirir feições clementes. Aquilo seria… uma oferta? A chance de uma oportunidade que não poderia ser desperdiçada? As coisas se tornaram confusas para a criatura negra durante uma quantidade considerável de segundos, onde tudo o que a mente olvidara era o silêncio ambiente e os berros interiores. Presenciava ali um dilema; um que certamente jamais parara para combater até então.
ㅤㅤ— Está em suas mãos… — enfim quebrou a quietude, lançando o arremate da argumentação. — Matar-me e contribuir para um regime que sugará suas energias para o resto da vida… ou morrer como um homem livre, parando de experimentar o cárcere por ao menos um breve momento em toda a existência. Está… em suas mãos…
ㅤㅤEle, então, engoliu seco, e outro devastador momento de calmaria apoderou-se da ambiência; na exceção dos assustadores raios cortantes e luminosos que pairavam a poucos metros. O silêncio derradeiro, que contribuiria para sua decisão. Tudo poderia mudar… assim como tudo poderia continuar exatamente da mesma forma. Bastaria um simples desvio de interpretação, uma tolice cegada pelo falso sentimento de sabedoria e experiência.
ㅤㅤNesse momento, Darth Vader voltou a ser Anakin Skywalker… mesmo que por parcos segundos; antes de novamente vestir o manto negro, mergulhando uma vez mais na escuridão que há tempos lhe governava.
ㅤㅤ— Não existe nada maior do que o poder. E poder, garota, é uma coisa que não me falta. Você… fala da morte como algo bom e purificador, mas todas as mortes que experimentei ao longo da minha vida só me trouxeram sofrimento — um grande flash passou pela mente, com pensamentos enlaçados na figura de sua mãe, brutalmente assassinada por selvagens, assim como Padmé, desgostosa da própria existência… e a criança em seu ventre, igualmente defunta, a qual nunca havia conhecido. — Há um grande distúrbio no seu senso de propriedade. E, se você não hesitaria em tirar a nossa vida, criança… — continuou, a voz grave transmitindo todos os contornos assustadores; o eco crescendo em meio às provectas e distantes arquibancadas de pedra dos arredores, ainda vazias de adoradores. — Eu também não hesitarei em tirar a sua.
ㅤㅤAnalisou um última vez sua feição de cólera, largada de joelhos à frente; à mercê de qualquer que fosse sua decisão. Sem pestanejo, e decidido, a criatura ergueu o punho esquerdo, desprovido de qualquer arma física, iniciando a transmissão do ambicioso pulso de Força. Foi, pouco a pouco, esmagando cada um dos seus órgãos frágeis, quebrando cada um dos seus ossos calcificados, horrenda e lentamente exterminando qualquer tipo de contato que tivesse com o mundo dos vivos, da maneira mais dolorosa que fora capaz de conjecturar. A ameaça da menina via-se sendo combatida com aquilo que Vader mais possuía: pelo seu dito poder. Poder nato, indômito e imprevisível, encontrado somente sob a pele do verdadeiro Escolhido.
ㅤㅤNatas pronunciou outro assombroso berro de padecimento, sentindo a dor mais intensa que experimentara em seus poucos anos de existência. Tudo isso sem que, ao menos, tivesse ainda a permissão para morrer. De forma morosa, percebia na paralisia, no aprisionamento, pequenas hemorragias espalhadas, tomando cada vez mais forma em meio ao corpo franzino. O tronco virando muxiba, as células sendo esmagadas de pouco em pouco; como se, durante a ofensiva, o oponente homicida segurasse sua própria alma, numa tortura de segundos que parecia não ter fim.
ㅤㅤ— Está sozinha aqui, minha jovem. Sem pai, sem mãe, sem tio… — enunciou Sidious, com toda sua soberba, produzindo algumas das últimas palavras que a garota escutaria no vitalício ciclo respiratório. — O que sobra pra você?
ㅤㅤE um último suspiro foi percebido, mais uma lágrima cortou sua bochecha. Jamais saberemos se ela representou sua derradeira penosidade… ou seu aguardado alívio. Assim como Vader veria-se algum dia… estava livre. Livre de todo e qualquer sentimento.
ㅤㅤ— Nada, mestre — Skywalker completou, fechando o punho erguido com absurda vontade. — Nada.
ㅤㅤDe uma só vez, as habilidades o permitiram praticar a ordem dada ao poderio midi-chloriano, deixando de comprimir as vontades, agora efetuadas de maneira contrária, explodindo com a maior das brutalidades a infame cabeça da menina. Sujou de sangue o solo vil, tacando alguns ossos de seu crânio despedaçado para os cantos, transformando a pele dos arredores da boca e olhos em partículas tão diminutas e leves que se juntaram ao ar. O que sobrara de seu físico despencou molenga, alojando-se à sujeira iminente da superfície empoeirada, até que se tornasse apenas mais um detalhe da decoração maldita. Um proeminente baque fora escutado, marcando o ponto final da pequena batalha.
ㅤㅤAcompanhando a sujeira repulsiva, bem como a grotesca e corajosa atitude que seu aprendiz optara por punir a coitada, o Imperador não viu outra maneira de expressar o estonteante orgulho, que pouco era capaz de caber no peito disforme, senão esticar majoritariamente os beiços esbranquiçados, mostrando os dentes apodrecidos acompanhados dos contornos faciais deformados. Subsequentemente, encontrou tempo para enfim saudar o companheiro com uma diminuta salva de palmas espaçadas.
ㅤㅤPlac. Houve uma pequena pausa. Plac. E depois outra. Plac.
ㅤㅤ— Bom, bom… — Os ecos cresceram pelas planuras grandiosas, as mãos chocando-se com cada vez mais força.
ㅤㅤE, por último, um efêmero suspiro de conforto precedeu a última palma.
ㅤㅤPlac.
ㅤㅤAntes tarde do que nunca, pôs-se a levantar novamente do trono espinhoso, descendo os degraus com cuidado, para então caminhar vagarosamente na direção do homem-máquina, reflexivo e quieto, banhando a sola das botas negras com a imensa e pastosa possa de sangue que espalhava-se pelo solo rachado. O pescoço aberto da antiga vivente sendo uma cachoeira de seiva para o rio alimentado. Foi aproximando-se, marcando de carmim o chão cor-de-gelo, num caminho claustrofóbico dos novos solados que nele mergulharam.
ㅤㅤ— Muito bom, meu querido amigo — enfim cessou o andado, mantendo um irrefreável contato visual amarelado do único olho descoberto que vislumbrava. — Excelente.
ㅤㅤVader baixou a guarda, desligando rapidamente o sabre chamuscado, sentindo ondas de calor infernal abaterem os contornos das luvas enegrecidas, a coloração do couro sugando ainda mais sua ardência. Movimentou, então, o punho para guardá-lo, depositando-o pendurado num arranjo da cintura.
ㅤㅤ— Isto, meu senhor, foi para provar que… eu não falharei novamente — abaixou a cabeça, adquirindo trejeitos de lealdade e submissão. — Nunca mais. Em circunstância alguma. E nossos inimigos… perecerão sempre da forma mais odiosa possível. Vida longa ao Império.
ㅤㅤSidious repetidamente preencheu os pulmões de ar, meditativo, sentindo estranhamente a presença misteriosa de um espectro perturbado, poderosamente capaz de transformar seu futuro em névoa. Ele ainda não fazia ideia, mas, da mesma maneira que o fiel braço-direito, essa criatura fantasmagórica também possuía o influente sangue Skywalker correndo pelas veias.
ㅤㅤCrescia, naquele exato instante, na fazenda de um sistema distante, ignorante e descrente de sua magnífica glória futura; feitos que seriam responsáveis por transformá-lo em uma lenda. Talvez a maior de todas as pertencentes àquele colossal universo. O homem do porvir que, sozinho, o derrotaria… e colocaria uma pausa em seu dominante regime.
ㅤㅤ— Veremos, minha criança. Veremos… — encostou uma as mãos esqueléticas nas costas do companheiro de preto, enquanto iniciaram uma caminhada em direção ao saguão ao lado. — Eu não pensaria duas vezes caso falhasse. Caso sentisse, talvez, ínfimos pensamentos de traição. Não pensaria duas vezes antes de colocar alguém em seu lugar e exterminá-lo como fez com aquela menina — exprimiu, almejando preenchê-lo de medo. — Não somos desordenados como seus antigos amigos Jedi. Há ordem aqui, há devoção e lealdade. E este sempre há de ser o principal preceito de nossa liderança. De nosso sucesso.
ㅤㅤDurante a caminhada prestada pelos movimentos corpóreos de ambos, podíamos facilmente catalogar a respiração asmática assustadora que saía da capacete quebrado, enquanto pensamentos singelos, como os de preocupação e temor, lhe dominavam. Tudo parte de uma reflexão ainda maior sobre o pouco previsto futuro. Pois, por mais que enunciasse tais certezas, não possuía a exata convicção do peso que carregariam nos anos seguintes.
ㅤㅤ— Eu sinto que, em breve… — o Imperador prolongou o discurso, atento aos batimentos cardíacos do estudante. — Em breve enfrentará o maior desafio da sua vida. Apenas não consigo enxergá-lo com nitidez. O futuro… em constante mudança se encontra.
ㅤㅤAlcançando os zeladores Sith das redondezas, o governante ordenou que os lacaios recolhessem os restos mortais da coitada largada aos pés do trono, bem como zelassem pelo asseamento de toda a região. Era um local, por ele, considerado sagrado; e nenhum tipo de sacrilégio seria admitido pelos longos metros quadrados.
ㅤㅤSeguidamente, continuaram mantendo constante a aceleração dos próprios andados, passeando em direção à entrada do palácio, enquanto uma vez mais trocavam poucas palavras.
ㅤㅤ— Eu… confesso que toda essa situação me fez rever alguns conceitos que antes não havia levado em consideração. Tenho… novos planos, meu amigo — disse, atingindo a armadura curiosa com os olhares flavos. — Porém, há algo de mais urgente a se resolver. Nossa arma está… iniciando seus estágios intermediários. Gostaria que acompanhasse de perto a construção. Que pressionasse aqueles homens de alguma forma. Que os apressasse. Você sempre foi muito bom nisso. Às vezes penso que eles lhe respeitam mais do que a mim.
ㅤㅤSorriu, tecendo nuances de divertimento. Mas, em teu íntimo, certamente pensara aquilo que disse por último. Talvez fosse pela maior estatura de seu aprendiz, talvez fosse por sua parca paciência para algumas situações, sua voz alterosa, ou, talvez, fosse pela máxima presença em diversos assuntos imperiais, sempre disposto e disciplinado em presenciar as mais variadas ocorrências, resolvendo os mais aleatórios dos problemas.
ㅤㅤ— Krennic não é muito favorável à minha presença — murmurou, grave e ainda reflexivo; os pensamentos agora o levavam para outra direção. — Talvez fosse melhor encaminhar o almirante Tarkin para essa tarefa. Precisamos reforçar a segurança de sistemas periféricos. Andam produzindo mais resistência que nos anos anteriores, acredito que minha liderança junto aos soldados clones remanescentes seria de grande valia.
ㅤㅤAo homem mais odiado da galáxia, toda a oferenda banhada em horror.
ㅤㅤ— Krennic. Aquele rapaz coloca-se num pedestal que jamais alcançaria. Sei de suas diferenças, meu caro amigo, e também sei que ele não seria muito favorável à sua presença. Mas… desde quando ele possui algum poder de escolha? — retrucou com pompa e serenidade. — Os soldados podem cumprir a tarefa sem você. Nossa arma é mais importante que alvoroços em planetas pouco relevantes. Caso necessário, triplicaremos as tropas para controlar tais situações. Basta autorizar a força letal.
ㅤㅤVader assentiu, desviando as vistas para voltar a fitar o caminho que percorria.
ㅤㅤ— Como desejar… meu senhor. — Emitiu, por fim, deixando que os ruídos produzidos tornassem a ser apenas suspiros asmáticos.
ㅤㅤE perpetuaram a caminhada, alcançando os grandes portões de retirada. Ambos sentiram o vento álgido adentrar pelo elevador de rochas que alçaria um deles rumo aos céus, no engesso localizado ao teto, rodeado de correntes e movido unicamente pelas mesmas forças sobrenaturais que os regiam.
ㅤㅤ— Agora vá, meu amigo… — desviou as atenções, já preparando-se para voltar ao saguão real. — Vá, troque de capacete, e cumpra o que lhe foi ordenado. Eu ficarei aqui, por enquanto. Tenho… coisas a fazer.
ㅤㅤVader manteve-se calado, a capa cortando o ar com a oscilação corporal, esvoaçante pela alta ventania que imergia de cima. Saiu caminhando, sem olhar para trás, enquanto, lá no fundo, os ouvidos eriçados acompanharam o precioso mestre trocar passos na direção contrária. Soltava uma curta gargalhada, aquela característica, demonstrando que o citado planejamento tomara contornos deveras empolgantes. Diferente do que imaginara, tal informação jamais seria compartilhada com sua pessoa, num futuro próximo ou distante.

2

ㅤㅤSidious caminhou moroso rumo um dos cantos mais sombrios da estalagem perversa, deixando que os ecos das almas atormentadas guiassem os próprios pensamentos, sendo a bússola em direção ao norte universalmente predeterminado pela Força; uma manipulação inevitável que ninguém nunca conseguira compreender, de fato. Havia algo de mais ali, ele podia sentir. Algo que fortemente fazia-se presente, com sua inquestionável relevância.
ㅤㅤMal sabia ele ainda, porém a atual reflexão seria responsável por apresentar ao cosmo uma nova maneira de interpretar a famigerada Profecia. Que, anos no futuro, seria melhor detalhada por seres mais estudiosos como algo desconexo de um único e irretocável padrão; diferente do que a maioria acreditava, os sagrados dizeres eram muito mais do que meras palavras adaptadas para uma realidade literal. A própria história provar-se-ia incoercível, mostrando a ciclicidade da predição. Onde até o mais crente dos homens teria os ideais perturbados devido à tamanha prova de poder e possibilidade infinita.
ㅤㅤO universo sempre encontrava uma forma de se reorganizar, tanto do lado maligno quanto do benigno; este era um dos muitos mistérios da Força, e o Imperador sabia disso. A Escuridão se ascendia para que a Luz pudesse vir ao seu encontro. Nos muitos anos de estudo e devoção ao Lado Sombrio, via esta verdade como algo inevitável. A prova da existência perfeita, da díade apresentada desde os grandiosos tempos de Mortis.
ㅤㅤSendo assim, intrinsecamente, sentia cada vez mais forte a presença de um novo Escolhido. Possuidor do legado num corpo onde corria o mesmo sangue do pai; uma poderosa criança que, caso fosse sábio o suficiente para manipular, possivelmente residiria ao seu lado muito em breve.
ㅤㅤEm meio aos maquiavélicos sentimentos, lamentava profundamente a perda da garota que pouco mais cedo conhecera; de uma forma inexplicável, foi abatido por um sentimentalismo que não pensava possuir desde o ventre, na barriga da própria mãe, quando ainda não era dominado pela ânsia avassaladora de maldade. Viu na figura de Natas a solução de um problema que há muito refletira, embora, mesmo com todos os seus conhecimentos, nunca fora capaz de conceber; este era o lado ruim de não ter sentimentos, como bem pôs-se a refletir, além dos atrelados ao puro egocentrismo magnânimo.
ㅤㅤTodos os que buscam poder têm medo de perdê-lo.
ㅤㅤSedento por toda forma de atributos e capacidades, Palpatine não enxergava a possibilidade permanecer à frente do pomposo e idolatrado Império por muitos anos. A idade o abatia ferrenhamente, bem como a patética fragilidade de sua raça humana — ah, como desejara viver um milênio como bem-aventuradas outras raças. Desligado a isto, não detinha mais a mesma confiança que um dia teve em seu lacaio mecânico, mesmo depois de presenciar seu mais novo, e suposto, rito de lealdade; justamente por não conseguir enxergar um modo onde a fraqueza e a impotência não o dominassem, impedindo-o de cumprir outra etapa do porvindouro destino.
ㅤㅤEle sentia. Sim, ele sentia. A criança… Skywalker. A visão nebulosa que minutos antes constatou ganhara agora termos mais palpáveis. E, então, tudo pareceu tão claro…
ㅤㅤVocê já ouviu falar da tragédia de Darth Plagueis, o sábio?
ㅤㅤVader tinha um filho. Um garoto que nascera de modo escondido, pouco antes da mulher que no âmago o carregara falecer, transmitindo a ele próprio sua esgotada existencialidade. De alguma forma, havia perdido a vontade de viver. No sofrido íntimo, o próprio homem que arriscou a vida servindo ao intuito de salvá-la havia a matado.
ㅤㅤNum suspiro ávido, pôde enfim conjecturar a origem do pequeno ser de cabelos louros partilhar da mesma conexão sobrenatural que ele, crescendo em algum lugar remoto da galáxia. Um lugar onde as tropas imperiais não estivessem tão presentes, onde sua vida não fosse ameaçada. Podia sentir, com uma certeza intocável pairando sobre os pensamentos, a pomposa quantidade midi-chlorians que também estampava.
ㅤㅤMas… onde?
ㅤㅤTatooine. Sim, Tatooine. Lugar onde o pai nascera, onde fora resgatado, onde fora convertido aos perversos ensinamentos Jedi. Onde sua corrupção começou, mergulhando-se num mar de mentiras e desonestidade. Um escravo, desde os primeiros anos de vida. Unindo-se à laia dos ditos senhores da paz para acostumar-se com os estudos da Força; encontrando o verdadeiro caminho anos depois, em suas próprias palavras. O mestre e o aprendiz, seguindo a estabelecida Regra de Dois. O garoto crescia nas mesmas areias podres que amaldiçoaram seu pai com a dor da perda e da servidão… da mesma forma que, futuramente, esboçaria seu lamentável destino final.
ㅤㅤIsso foi suficiente para levar à face medonha um tremendo sorriso de perspicácia. A resposta para a maior das perguntas estava escancarada logo à frente. Como Vader no passado, agora velho; como a jovem Natas, agora morta; como o pequeno filho de Skywalker, ainda longe de um estonteante poder. Uma criança… uma criança podia ser a chave de tudo.
ㅤㅤDarth Plagueis era um Lorde Sombrio dos Sith, tão poderoso e tão sábio, que conseguia utilizar a Força para influenciar os midi-chlorians para criar… vida.
ㅤㅤEle sabia que, em algum momento do nevoado futuro, a cria de Vader estaria à sua disposição. Ele sentia. E, se fizesse tudo corretamente, substituiria o pai ao seu lado. A decisão de não afetar os acontecimentos tornou-se tão racional quanto as outras estratégias de batalha, os pretéritos métodos de manipulação. O futuro apresentava uma suculenta refeição aos paladares de suas vontades, pois ele o serviria… de alguma maneira, o serviria. E, sabendo disto, não interferiria, temendo uma reação incômoda do próprio destino, um preço grande a se pagar.
ㅤㅤPorém, até lá, observado a fragilidade do aprendiz, não podia arriscar o futuro do grande regime nas mãos de um menino; ainda mais quando esta mesma criatura poderia ser capaz de desvencilhar o pai no caminho que há anos já travava.
ㅤㅤMas algo podia ser feito, em paralelo, suprindo essa alarmante carência. Uma contingência necessária, um caminho sábio a ser percorrido. Uma criança. Um filho. Alguém fácil de manipular, que cresceria com todos os ensinamentos necessários para se firmar como uma forte aliança ao seu lado, uma possível fonte inesgotável de aptidão. Alguém capaz de, no momento certo, ser imbatível para qualquer inimigo. Um novo Palpatine, para dar-lhe a vida quando precisasse, quando a morte o visitasse e requeresse a própria carne.
ㅤㅤO Lado Sombrio é um caminho para várias habilidades que alguns não consideram naturais.
ㅤㅤEnquanto via os sacerdotes enxugarem o sangue, sugou o corpo de Natas para a própria direção. Rasgou sua barriga, desmantelou alguns órgãos que ficavam no caminho, e por fim retirou com o mergulho de poder aquilo que desejava. Um útero… um saudável e poderoso útero. Jogou uma vez mais o resto da composição corpórea para um canto remoto, finalmente deixando que seus súditos cuidassem do restante; não se importaria caso a devorassem, abdicando da lamúria presente em suas barrigas, cumprindo a tarefa de carniceiros; desconhecia os métodos que encontravam para a alimentação. Seu corpo agora era descartável, como os clones um dia foram, como os novos soldados agora eram, os almirantes, os Moffs, como o de Vader e o de si próprio um dia seriam.
ㅤㅤA criatura ajoelhou-se, o peito estufado em ansiedade, a seiva correndo fria por cada membro franzino. Então, ergueu com vontade ambas mãos para o alto, mirando as nuvens carregadas que pairavam acima do solo, banhando-os incansavelmente com retumbantes raios cegantes; os ecos e a luminescência cada vez mais pesarosos e iminentes, tambores visuais de todo o prolífico ritual. Afinal de contas, o que Sidious estava prestes a fazer dependeria de uma insanidade quase irreal, algo que, longe do inimaginável, derivaria de muito esforço e muita vida. Algo que certamente o enfraqueceria, mas que, dependendo do resultado alcançado, valeria a pena; tudo em decorrência dos ensejos que o brilhante futuro conjecturava.
ㅤㅤNão era ignorante, conhecia cautelosamente cada risco, cada consequência das futuras ações. Sabia que a iniciativa prestes a ser efetuada não necessariamente conceberia um sensitivo. Mas estava disposto a arriscar, fosse como fosse. Arriscar a criação de uma cópia de si mesmo, a mais natural de todas elas. Porque, imergindo no distante porvir, não contemplava uma justificativa melhor para alcançar a vida eterna, para manter-se no poder por mais muitos e muitos invernos.
ㅤㅤNaquele instante as falanges se congelaram… e ele finalmente alcançou as nuvens com a própria aura. No céu, formou-se uma tempestade ainda mais vil, mais horrenda e assustadora. E uma grande corrente de ar desceu, como um curto redemoinho de sujeira. Tremeu, sentindo a Força lhe esvair de pouco em pouco para que pudesse efetuar tal tarefa. Para que pudesse criar a desejada vida. Promover o nascimento de sua prole, a única e verdadeiramente capaz de conquistar. Encargo ainda mais difícil seria, para o grande senhor dos Sith, forçar sua concepção de outra forma. Forçar sua concepção de maneira carnal, a qual tantos outros se apropriavam; da qual o próprio aprendiz um dia viu-se refém.
ㅤㅤO ritual continuou por mais longos segundos. O poder correndo para fora do corpo, já habitando um que se formara pela aragem das próprias trevas. O seguimento da própria poderosa linhagem sanguínea. O nascimento de um novo demônio.
ㅤㅤHouve um clarão, contornado pelos ruídos de gritos que rememoraram almas adormecidas ferindo-se no pós-desencarno. E houve em seguida o absoluto silêncio. Ninguém ousou delinear uma onda sonora sequer; ninguém com dominante consciência. Pois, imerso no assustador silêncio, abatido pelos calafrios da escuridão, todos os ouvidos atentos foram despertos por um choro.
ㅤㅤUm choro de perdição, um choro de pecado que se alastraria através de dor e morte.
ㅤㅤSheev brilhou os glaucos olhos amarelados, fitando a prole se oscilar com as costas pregadas no solo arenoso. E, por fim, desabou, esvanecido de maiores forças para sustentar o próprio peso.
ㅤㅤAs curiosas criaturas serviçais atinaram-se para o acontecimento com temor, não tardando a comparecer aos seus arredores corporais, almejando entender a confusão ocorrida. Ao teu encontro, perceberam a algidez inerente lhes tocar os membros que os sobretudos não cobriam, os rostos brilhando parcamente com a luz de algumas descargas elétricas celestiais. Pondo-se ativos e curiosos, entreviram o mestre arrastando-se pelo chão, tentando se levantar. Alguns correram na direção para auxiliá-lo, outros apenas observaram o ambiente à volta, à procura de entender o que viam. O bebê solitário que prontamente rugia sua lamúria inconsolável.
ㅤㅤ— Realizem… — balbuciou o lorde Sith, sugando energias para terminar a frase. — Realizem uma… contagem… midi-chloriana
ㅤㅤOs súditos correram para atender o pedido feito, levando poucos segundos até empunharem os objetos necessários no cômodo ao lado; não questionavam as ordens. Foram em direção à criança despida, cercada não por líquidos naturais maternos, mas sim por fumaça, poeira e esfriamento. Um deles enfiou-lhe uma agulha pontuda, retirando da carne sua seiva avermelhada. A boca da criança esvaneceu outro choro atroz. Tal amostra fora rapidamente levada para um objeto miúdo, portador das características necessárias. O resultado igualmente não tardou para chegar.
ㅤㅤ— Zero, meu senhor… — um encapuzado lhe respondeu, ligeiro, ainda perdido. — Seu sangue está… limpo. A criança não tem acesso.
ㅤㅤOlhavam um para o outro, desconhecendo como tal ser aparecera ali. A resposta não viria tão rapidamente.
ㅤㅤSidious engoliu seco, a mente imparável já começando a castigá-lo. A atual fraqueza vinha devido à transposição de Força, os planos longínquos demorando mais para verem a luz do dia; ou, no caso, o calor da escuridão. Então… todo aquele trabalho havia sido… em vão…?
ㅤㅤ— Devemos… sacrificá-la…? — O serviçal questionou por fim, colocando o intelecto a juntar as peças.
ㅤㅤA Força havia sido traiçoeira com sua pessoa, havia lhe pregado uma peça; uma peça que, ele desconhecia, teria relevância muitos e muitos anos no futuro.
ㅤㅤMas convenceu-se a pensar… que as coisas não funcionavam daquela maneira; não funcionavam e nunca funcionariam. Pois tal presente que dera a si mesmo não podia ser em vão. Havia algo predeterminado, como sempre o cosmo programara. Desde as antigas lendas do Lado Sombrio que levaram à concepção dos dogmas Sith, passando pela desorganização natural das coisas, culminando agora com a profecia do Escolhido.
ㅤㅤHavia algo. A Força… a preciosa e devocional Força lhe mostrava o caminho, ele tinha certeza. Mesmo que a arrogância fosse indômita o suficiente para que jamais percebesse o óbvio. Que o caminho não levava à sua gloriosa e mastodôntica vitória… mas sim à sua definitiva derrota.
ㅤㅤO Imperador cessou a repentina meditação, depois de respirar a aragem álgida uma vez mais, desprendendo-se dos cenários nos quais já trabalhara. E uma vez mais voltou as vistas amareladas para a cria que acabara de conceber, tecida pelos átomos do que poucos teriam a coragem de fazer.
ㅤㅤ— Não… — murmurou, ainda fraco e vagaroso. — Mantenham-na viva…
ㅤㅤNovamente acessou arquétipos do poder que corria em meio as veias, uma linha sábia que os serviçais despreparados nunca teriam acesso. E algo novamente pareceu convencê-lo daquela decisão; apenas não sabia se era algo correto, que lutava contra os malefícios objetivos, ou algo egocêntrico, uma realidade que perecia ante as próprias vontades.
ㅤㅤ— Eu estou… com um bom pressentimento a respeito disso.


EPÍLOGO

ㅤㅤMeia dúzia de indivíduos trancaram as pálpebras. Suas respirações intensas movimentando os peitos numa crescente ansiedade, ao passo que a ligação espiritual que detinham com a grande Força dominava os contornos de cada veia, cada artéria, reverberando por cada batimento cardíaco dos medianos corações esverdeados. A meditação na qual mergulhavam de corpo e alma conectava-os com a maior das devoções, expostas em convergência na pele e nos ossos de um único ser: o grande e astuto mal, a figura onde uma silhueta de raios cortantes formalizava o mastodôntico poderio que ostentava.
ㅤㅤTal grupo era sensitivo e, juntos… juntos tornavam-se um só. A união atrelada às falanges dispostas umas nas outras, as digitais tocando a carne porosa que ostentavam; o ar pesado que os rodeava faltando congelar as carnes expostas, vis expirações perante anos de pouca misericórdia.
ㅤㅤFoi então que um grandioso baque os dominou, abalroando seus patifes corpos com a força de mil canhões de plasma, na tentativa de quebrar a ampla conexão que os unia. A espera não havia terminado, como alguns mais tolos davam-se ao luxo de acreditar; muito pelo contrário. O embate físico que travaram durante poucos segundos fez com que tivessem determinação suficiente para permanecerem de pé, aguardando as dores mais intensas até que finalmente cessassem com os respectivos falecimentos. Pois, de prontidão, arrumados se encontravam, apenas no aguardo da atroz notícia que a natureza havia de lhes fornecer naquele mesmo dia, muito embora nada fosse contrário à grandiosa orquestra bem planejada.
ㅤㅤO Imperador… estava morto.
ㅤㅤComo pré-estabelecido, não deixariam que sua alma adquirisse algum tempo para descansar. Tinham urgência, mais do que qualquer outra coisa nos instantes que agora já demarcavam o início do fim da grande guerra rebelde. Havia uma missão no pós-vida, que dominaria seus arquétipos, impedindo-o de fracassar. Algo que outrora aprendera com seu sábio-tolo mestre. Pois era finalmente chegada a hora do testamento, a hora em que todos os anos de inventividade lhe fizera alcançar preparado.
ㅤㅤAs criaturas abriram os olhos verticais, desviando as atenções na direção dos largos e cumpridos tubos, que continham as primeiras experiências de clonagem praticadas em tais terras; porvindouras às antiquadas táticas utilizadas pelos Kaminoanos nas distantes e atrozes Guerras Clônicas. Transferiam, no mesmo momento, a mente do falecido Imperador para um dos corpos flutuantes em líquido cróceo, enquanto alguns companheiros, igualmente serviçais de vossa santidade maquiavélica, já trabalhavam em outra leva de cópias corpóreas do mesmo corpo; baseando-se nos muitos estudos feitos ao longo das décadas, nas muitas amostras colhidas de suas já findadas vívidas células. Tal corpo, porém, não era tão duradouro como um natural, e facilmente desgastar-se-ia com o passar dos dias; fazendo-se necessário que dúzias e dúzias de cobaias desfavorecidas de vida fossem concebidas em um curto espaço de tempo.
ㅤㅤHouve um último tremelique antes que os doze corpos despencassem rumo ao chão, os pulsos não tardando a esfriarem. Sacrificaram-se pois… esta era a única coisa que foram ensinados a fazer, tão condenados quanto os remanescentes, eternos servos da criatura que agora renascera. Ignorando os troncos dos próprios irmãos, alguns ajudantes correram em direção ao tubo escolhido, cuja cobaia começara a se revirar sob a flutuação líquida. Sem pestanejo, removeram-no da bacta, colocando seu corpo nu e cercado de plasma sobre o chão gélido. A respiração lamuriante veio logo depois, sugando o ar uma vez mais, agora portando outra existência pelo milagre daqueles que se foram.
ㅤㅤO arquétipo de clonagem se levantou, muito embora esta definição não se estabelecesse como a mais adequada. Os olhos se abriram, esbanjando olheiras ainda mais fundas, vistas mais pálidas, emoções mais vingativas. Os ajudantes foram ligeiros ao cobrirem-no com um pano preto, réplica da tão amada vestimenta; agora queimada e destruída, tal como sua segunda grande arma; em breve, tão desestruturada quanto o próprio Império.
ㅤㅤDiferente do homem que fora um dia — ou melhor… da figura demoníaca —, contemporaneamente via-se relegado a uma mera experiência, uma cópia mal feita de si mesmo. Oh, Sheev… o que o futuro guardara pra você? O que o destino fizera com sua carne, com sua influência, com seu poder? Achou mesmo, em sua infantil concepção egoísta, que jamais precisaria dessa parte do plano de contingência? Que a necessidade não iria clamar sua dívida? Esperto foi por prepara-se, por não dar-se totalmente satisfeito da própria crença.
ㅤㅤO Escolhido se erguera, como bem temia. Lhe matara, como a Profecia pregava; predição esta que passou tantos anos desacreditava por ele, mal interpretada — como um dia fora até para os Jedi. Mas ele havia conseguido, no fim das contas; havia dado um jeito de consertar as coisas, de força-las ao seu devido lugar. A mente diabolicamente genial, como sempre, lhe mostrando o caminho pelo qual seguir; o caminho no qual depositar todas as fichas.
ㅤㅤO Escolhido havia cumprido seu propósito, seu único e verdadeiro propósito. E, como seu velho mestre, encontrara também uma maneira de voltar à vida; numa paz suprema, ensinada pelos próprios companheiros do passado. Diferente do que acontecia com o falecido Imperador, diferente do que seria possível acontecer aos verdadeiros apaixonados pelos caminhos da Força; paixão, ganância, poder. Uma maneira podre, uma maneira desleal. Sheev retornara ao mundo dos vivos logo após a própria morte, mas não da maneira que desejavam os malditos, os indignos e tolos consoantes com meros caprichos espectrais. Pois a Força poderosa era… mas também equivocada. Um preceito inato para os que gostariam de ser poderosos, para os verdadeiros e puros utilizadores.
ㅤㅤSendo possível, por que ater-se à uma diminuta e eterna figura translúcida? O caminho para a imortalidade física parecia-lhe bem mais interessante. Bem mais digno de respeito e temor, capacidade magnânima de atributos.
ㅤㅤO Escolhido o matara, então. Trouxera seu tão bem-quisto equilíbrio para o universo, acabando com o último Sith. E assim, a esperança parecia se erguer novamente, com festas, comemorações, gritos de louvor através dos quatro cantos do cosmo. A Profecia estava cumprida, finalmente. E agora ele estava livre… enfim livre de qualquer amarra imposta pelo destino.
ㅤㅤA Força se ordenara, junto à natureza. Mas o Lado Sombrio… o Lado Sombrio era um caminho para habilidades que muitos não consideravam naturais.
ㅤㅤE assim, o mal se erguia novamente, encontrando espaço nas amarras impostas pelas narrativas do Criador. E aos Sith uma vez mais provaram-se à frente dos Jedi, movidos pela vontade que estes não detinham, pela falta de preguiça que os dominavam, pelo genuíno respeito pelos poderes universais, longe da hipocrisia e da completa falta de preparo. Como no passado, infiltrara-se na política, no senado, sem que fosse visto ou percebido. Agora seria do mesmo modo, uma alma penada caminhando pelos terrenos mortais, louco por uma nova chance de alcançar indômitos feitos, celestiais ordens.
ㅤㅤFoi quando um homem fardado aproximou; diferente de qualquer serviçal presente, este parecia mais altivo, externando uma conexão súdita ainda mais intensa com aquele mestre.
ㅤㅤ— Milorde… sua presença era esperada. Desde que soubemos da notícia… — parecia confiante e esperançoso, mesmo que Exegol não fosse recinto dotado desta emoção. — Juntos, sentimos sua partida. Agora, na nova aurora, uma vez mais juro lealdade.
ㅤㅤE pôs-se de joelhos, verdadeiramente entregue às suas vontades. A criatura clonada murmurou, exprimindo leves tosses. Seu ajudante avizinhou-se veloz, ajudando-o a se erguer com mais estabilidade, ao passo que limpava a própria garganta.
ㅤㅤ— Estamos… posicionando nossas frotas para impedir que a rebelião continue o ataque — demonstrou a conhecimento a respeito de um âmbito geral de acontecimentos. — A galáxia vem acreditando que a destruição de nossa arma nos impedirá de avançarmos. Homens estão, agora, trabalhando em prol de estratégias. Vamos contra-atacar, pegá-los desprevenidos.
ㅤㅤOstentavam poderes destrutivos, de fato, mas nada que parecesse de determinante necessidade aos olhos do Imperador. Ainda fraco, buscou esforços para produzir as primeiras palavras através de seu novo corpo — já incessantemente em decomposição; em minutos, ansiaria por outro. As cordas vocais virgens, mesmo que não dotadas de dificuldades para produzir os anseios.
ㅤㅤ— General Pryde… — revelou-o, contente. — Aprendi algo muito importante ao confiar em Vader durante… todos esses anos.
ㅤㅤEngoliu uma saliva ressecada, de segundo em segundo mais habituado com a contemporânea casa carnosa.
ㅤㅤ— Aprendi que impulso nunca é o melhor caminho — posou-se sábio, mesmo tendo renascido após tantos equívocos. — Mantenha a calma, antes de mais nada. Ataques continuarão pelos próximos meses. Talvez pelos próximos anos. Nossos aliados, nossos servos… são muitos. Mas é hora de descansar, agora. Descansar e pensar num plano melhor, num plano mais elaborado. Sem espaço para novos erros.
ㅤㅤE pensariam, com toda certeza. Pensariam e acabariam concebendo, nos muitos anos seguintes, estratégias que, mesmo aos olhos dos mais descrentes manipuladores, pareceriam infalíveis. Abaixo dos solos gélidos e cortantes de Exegol havia uma nova frota de naves, adormecida e ansiosa pelo despertar. Destroyers que fariam jus ao próprio cognato, aguardando a hora certa para auferir sobre pobres e desprotegidos sistemas suas chamas de destruição e imponência. Hora esta que, coincidentemente, seria marcada pela renascença do próprio Imperador e seu próprio Império; quando o corpo finalmente tornar-se-ia mais confortável, de volta à tão amada forma original.
ㅤㅤ— Senhor… se não dermos novas ordens, nossos aliados ficarão nem um norte. A galáxia anda se unindo com a notícia da explosão de nossa arma — olvidou há pouco o que corria sobre a vitória da rebelião na lua de Endor. — Podemos ficar em desvantagem. Precisamos de um plano.
ㅤㅤ— Não, meu rapaz. Precisamos de tempo — saiu suave, como a respiração. — A galáxia precisará seguir novos rumos a partir de agora. Se reorganizar para que pensem na eternidade de sua vitória. Aqui, longe das regiões conhecidas, teremos tempo e condições para preparamos um retorno triunfal. Precisamos de paciência.
ㅤㅤ— Paciência? Mas, senhor… ainda temos força — insistiu, confuso e visualmente auspicioso. — Se desistirmos agora, o que será da guerra? O que será do Império?
ㅤㅤ— O Império será o que sempre foi, general — respondeu, denotando parcelas de impaciência. — Pessoas pensarão que ele chegou ao fim, que morreu junto ao seu Imperador. E nossas próximas ações devem contribuir para este pensamento.
ㅤㅤEra um exímio mestre das manipulações, conhecia com perfeição e sabedoria maneiras de permanecer com grandes fiéis e adoradores vorazes. Como torná-los, mesmo distante e quieto, cada vez mais seus.
ㅤㅤ— Permita que a galáxia acredite num motivo de paz. Permita que eles acreditem que há novamente equilíbrio. Até que nós possamos, enfim, voltar ao poder. Conquistar novamente o que é nosso por direito… — sorriu, ostentando novos pares de dentes podres e lábios ressecados. — Quando esse dia chegar… toda essa espera e paciência terá valido a pena. Você bem sabe dos anos que levei para conseguir convencer o senado a criar o que tínhamos. Sabe do tempo que levei para me tornar o próprio senado e permitir.
ㅤㅤE, então, homem se calou. Decaindo as vistas, confortando-se com suas palavras.
ㅤㅤ— Agora… seja breve em colocar em prática tudo o que deixei planejado. Permita que as tropas recuem, mas que alguns desinformados paguem o preço com as próprias vidas. É o que dará credibilidade aos nossos anseios — foi suspirando, já andando com normalidade, mesmo que apoiado aos ombros do nobre servo. — Preciso, também, que comecem a Operação Cinzas.
ㅤㅤ— Sim, senhor. — Assentiu, já veementemente conformado.
ㅤㅤE permaneceram andando, vagarosos e quietos, rumo aos aparatos mecânicos que sustentariam com mais pompa seu corpo decrépito; ao passo que novas cobaias sem vida aguardavam na utilização.
ㅤㅤ— E quanto… ao nosso mais novo centro bélico?
ㅤㅤ— Dobramos os esforços imediatamente após a notícia de Endor, senhor, para acelerar seu processo de construção — o tranquilizou, convicto e bem informado. — O Planeta Ilum parece pronto para as experiências.
ㅤㅤ— Bom, bom. — Sentiu um breve desconforto nos arredores do estômago, uma vez mais confiante numa nova mega-arma; esta, por sua vez, muito maior e muito mais poderosa que as duas primeiras.
ㅤㅤApenas deveria, diferente da segunda, aguardar sua completa construção, seus estágios finais de desenvolvimento, antes de mostrá-la ao universo. Mas isto… isto ainda estava muito longe de acontecer.
ㅤㅤO cadáver ambulante alcançou os aparatos, auxiliado pelo general e outros serviçais que se aproximaram. Foi cuidadosamente colocado, as costas conectadas por ganchos que feriam-lhe as costas, alçando o corpo a uma dor que jamais sentiria. Nem mesmo as que abatiam o resto da carne eram capazes de motivá-lo.
ㅤㅤ— Eu tenho algo em mente, Pryde… — sussurrou, imerso em meditações. — Algo que, anos atrás, imaginei ser necessário. Acabo de pensar no garoto. No garoto que deixaram vivo. É hora de o procurarmos. Eu tenho… alguns planos para ele.
ㅤㅤO garoto, é claro. Seu filho… seu único filho. Fruto da experiência de muitos e muitos anos atrás. A criança que crescera mergulhada nas perversidades de Exegol, observada pelas almas dos que se foram, instistentes em perturbá-la. Fugira ainda jovem, renegando a vida de servidão e sofrimento ao lado do exército de serventes ao pai. Uma luz escondida em meio as trevas. Mal sabia, pois, em sua inocência pré-adultícia, que a fuga fora permitida, concedida por um pequeno sentimento de Força que tomou conta do Imperador. Uma emoção pautada pela necessidade, a busca por algo que o futuro lhe reservava.
ㅤㅤ— Ele foi visto em Bespin, milorde — definiu o status com sabedoria e velocidade. — É o que os registros de ontem constam.
ㅤㅤO rapaz, mesmo liberto, parecia não ter seus tão alarmados momentos de paz. Era frequentemente observado pelas tropas imperiais, mesmo agora as remanescentes. O velho Imperador talvez precisasse dele, de sua presença, de qualquer que fosse sua capacidade — ou, de alguma forma, de capacidades ascendentes.
ㅤㅤ— Bom… bom — disse calmo, vendo as mãos já se deteriorando. — Este corpo… em quanto tempo precisarei trocá-lo?
ㅤㅤ— Em… poucas horas, senhor — engoliu seco, temendo desamparo; mas o mestre compreendia, acima de tudo. — Estamos trabalhando em clones que lhe sustentem mais. Os alquimistas terão trabalho para os próximos meses. Não é algo garantido, mas não perderemos a chance da tentativa.
ㅤㅤObservou-o meio sem graça, analisando as feições perversas serem dotadas de aflição. Para ele, jazer-se em tal estado era mais do que inaceitável: era inconcebível. Depois de tanta luta, tolerância, inteligência e estratégias, havia ficado assim. Não era mais que um mero cadáver frágil, com prazo de validade.
ㅤㅤ— Se me permite, senhor… — umedeceu os lábios, apreensivo. — Quais são seus planos para o rapaz?
ㅤㅤE analisou o Imperador desviar as vistas, com leves parcelas de impaciência. A fraqueza o incomodando cada vez mais, bem como o resto de seu atual estado. Maldito Vader. Maldito Skywalker.
ㅤㅤ— Eu não lhe permito.
ㅤㅤPryde abaixou a cabeça tola, em concordância. Imediatamente arrependido após a resposta recebida, percebera o quão ingênuo fora; intrometer-se em assuntos que não lhe diziam respeito não era algo comum à sua pessoa, assim como certamente continuaria a não ser. Assuntos pessoais do Imperador tal estratégia mostrava-se.
ㅤㅤPorém, seus derradeiros planos não envolviam exatamente ele, a cria que concebera com o rito daquele dia miserável; como costumavam acontecer, vez ou outra, seus sentidos perceberam outra névoa tomando conta das predições, cegando o futuro incerto em constante mudança. Algo o aguardava, como bem pôs-se a imaginar; agora… assim como no longínquo dia. Algo que ainda não possuía carne, prestes a se formar, ganhando contornos muitos diferentes do enfraquecido e descartável filho.
ㅤㅤSheev sabia do romance. Oh, sim, ele sabia. Do romance com uma das filhas da serviçal com quem escapara. Completamente entregue àquilo que fazia de todos os homens um bando de criaturas frágeis e perturbadas: o amor. O amor que um dia também corrompera a alma de seu aprendiz, assim como o alucinara nos instantes finais. Um sentimento capaz de prolongar a prole, um sentimento capaz de conceber, como o próprio poder, uma vida. Sim, sim, uma vida. Seria esta emoção digna da ascendência de uma… criança, talvez? Como no passado, uma chave para o futuro. Uma porvindoura criança, provando que a Força, mais uma vez, era de uma natureza inexplicável.
ㅤㅤ— Apenas… traga-o para mim. — Murmurou, ainda imerso em meditação.
ㅤㅤPois, cedo ou tarde, o bom filho à casa tornaria.
ㅤㅤO que Palpatine ironicamente não se atinara, por sua vez, era que… diferente de outrora, suas tropas já não detinham mais uma avassaladora influência, um invejável poderio. Desta forma, era sabido conjecturar que seu plano não seria efetuado de imediato, pois o rapaz fugiria… fugiria esta e muitas outras vezes, junto à amada. Uma vida de eterna correria, de eterno medo, de eterno pesar e sofrimento. Até que, num planeta distante, vissem-se dispostos a gerar exatamente o que o mestre das trevas antevira: um fruto do amor proibido de existência inconstante. Em anos de paz, em anos fora das jurisdições de seus olhares cadavéricos e maquiavélicos, que cada dia mais sonhava com um novo hospedeiro. Um hospedeiro de mesmo sangue, de mesma vitalidade, de mesma capacidade abrigadora.
ㅤㅤO rapaz viveria anos de paz quando as tropas do pai já estivessem se tornado fracas demais para serviços menores, tais como os dessa implacável busca. Leveza que uma vez mais transformar-se-ia em ônus, no instante em que fosse novamente descoberto, novamente forçado a fugir. E fugir, e fugir, e fugir, contemplando enfim o inevitável, aquilo que luxuosamente pôs-se a esquecer: seus pesadelos, sua história, e sua sina. Obrigados a abandonarem o fruto de seu amor num planeta deserto e longínquo, temendo pela sua segurança, bem como de si próprios. Não atendo-se aos detalhes dispostos nesta história maior, aos meus olhos, aos olhos do Criador, aos olhos dos que também a observam. Pois a história se repetia, em outro ciclo que acabara de começar.
ㅤㅤTempos depois, brutalmente assassinados. Um perverso caçador de recompensas cumprindo seus propósitos, contratado a mando do próprio mestre obscuro.
ㅤㅤ— Pryde, meu garoto… antes que se vá, devo lhe questionar sobre algo… — rogou, fraco, vendo o servo andante parar, atento aos dizeres. — Preciso que… coordene uma comunicação direta com Moff Gideon. Devemos conversar sobre tarefas pretendidas. Tarefas estas que, diferente das outras, não podem esperar.
ㅤㅤ— Gideon, senhor? — encucou-se, erguendo uma das sobrancelhas; a rivalidade com este homem o incomodava. — Tem certeza?
ㅤㅤ— Ele é um bom arauto — disse baixinho, convicto da decisão. — Como você.
ㅤㅤ— Tudo bem, milorde. Como quiser… — e assentiu uma vez mais, novamente entregue às suas vontades. — Vida longa ao Império.
ㅤㅤE enfim partiu, andejando com cautela pela ambientação escura e congelante, fazendo tremer poucos músculos do corpo. De acordo com as próprias intenções do mestre, e isto era algo que Pryde então não saberia, o contato com Moff Gideon era deveras importante para um operação urgente. Assim como à caça ao próprio filho, o Imperador gostaria de assegurar a caça a outra criatura. Esta bem menor em tamanho, mas extremamente mais poderosa. Com dons, potencial, e extrema capacidade. Outra criança… outro ser de fácil manipulação. Mas esta… esta era uma história para outro momento, para anos no futuro.
ㅤㅤGideon acabaria se tornando, então, seu mais nobre servo. Digno de nota por suas atitudes, apreço pela lealdade. Um homem capaz de fornecer os serviços sujos e pesados, leves e afiados. Um homem que tornar-se-ia, talvez, tão influente para suas vontades como Vader um dia fora. Apenas esperava… que outra traição não lhe tomasse conta.
ㅤㅤVida longa ao Império.
ㅤㅤObjetivou os pensamentos, imerso repetidamente nas comuns ondas de reflexão. Devia ser um homem preparado. Havia a chance de Gideon falhar. Falhar como outros falharam ao longo do grande regime que permeava o cosmo. E, se fosse este o caso, tinha planos mais audaciosos. Planos que remetiam ao passado já distante, às antigas técnicas Kaminoanas. Planos em relação a uma criatura representada como uma perfeita marionete.
ㅤㅤCaminhou as vistas para regiões vazias do saguão. Regiões estas que, futuramente, abrigariam tubos de ensaio gigantes, novas experiências que cumpririam uma vez mais suas vontades. Snoke.
ㅤㅤMais que um clone, menos que um homem ou máquina. Um porvindouro strandcast. Cujo acesso aos poderes da Força seria concedido pelo uso de um anel. Um utensílio de diamante negro responsável por banhá-lo de autoridade e imponência, persuasão e vontade. Um artefato dedilhado por Sideous há pouco tempo, numa das muitas expedições cósmicas dos leais servos imperiais. Sua experiência magnífica, mas não perfeita. Como ele próprio, o acesso à Força de uma criatura não naturalmente vívida corroeria a consciência, degradaria os moldes de sua silhueta carnosa. Desta forma, outra fabricação acelerada de corpos faria-se presente, recriando as formas que de imagem que lhe eram configuradas.
ㅤㅤAté que o dia chegasse. O dia em que estaria perto de uma nova vida, uma nova hospedeira. Um novo começo. O dia da vingança!
ㅤㅤE, quando Snoke estivesse pronto para entrar em ação, numa suposta falha de Giedon, as coisas poderiam mudar. Ganhar novos escopos, novos significados, novas conjecturas. Pois esta seria sua primeira ordem, iniciando outro ciclo em busca de sua final.
ㅤㅤA partir desse momento, ainda distante num futuro concebido em neblina e cegueira, haveriam surpresas. Seu filho estaria morto dentro de poucos anos, sua neta enfim ganhando notoriedade e atenção após o nascimento e o esconderijo. A constatação sentimental para a exímia aptidão na Força, antes mesmo de seu despertar.
ㅤㅤE seu strandcast em função de marionete distrairia o universo com novos potenciais, com outros leais soldados crentes nas estratégias fracassadas do passado. Com perfeitos guerreiros crentes na religião do Lado Sombrio. Ben Solo e seus Cavaleiros de Ren, deathtroopers, darktroopers, sithtroopers. Ímpetos fortes, aptidões ao poder e à liderança. A cria dos Solo se tornaria o mais poderoso dos cães, na absoluta solidão e tolice a escutá-lo e, enfim, sucumbir às suas vontades, com promessas e elogios.
ㅤㅤO futuro aguardava uma conflituosa, confusa, mas, no fim, emocionante nova jornada. E, embora o Imperador jamais ousasse aceitar, a conclusão uma vez mais pereceria ao lado da luz. Afinal, o amor venceria, o sentimento mais puro atrelado à Força, demonstrando-se maior do que qualquer raiva ou ódio.

CONTINUA EM: STAR WARS – EPISÓDIO VII: O DESPERTAR DA FORÇA.


Inspirado pelos personagens da Lucasfilm/Walt Disney Pictures.
A saga Star Wars é uma criação do diretor, produtor e roteirista George Lucas.

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Sobre o Autor

Victor Dourado

Apaixonado por quadrinhos, cinema e literatura. Estudante de Matemática e autor nas horas vagas. Posso também ser considerado como um antigo explorador espacial, portador do Jipe intergaláctico que fez o Percurso de Kessel em menos de 11 parsecs — chupa, Han Solo!