Observação: A história possui trilha sonora, escutá-la ou não durante a leitura fica a cargo de cada um.

ㅤㅤTua lâmina afiada cortava o ar com tamanha facilidade, genuinamente sedenta por carne. Os golpes, de exorbitante força, por vezes eram lentos demais para acertar aquela terrível e gigantesca criatura. Tua excelente perspicácia a fazia atentar-se para cada um dos movimentos inesperados do nobre homem, que tentava atingi-la na mais pura covardia. Tua ansiosa morte era contemplada em demasia, dita como o principal e mais importante evento de toda aquela década.
ㅤㅤO ser, de físico surreal, possuía em torno de três metros de altura, uma pele escamosa como a dos répteis, esverdeada; mãos gigantescas e desproporcionais, os dedos pontiagudos, unhas afiadamente enegrecidas por emporcamento; tuas pernas diminutas, sem muita polpa, como suas maúças, desiguais; teu peito inchado, a barriga flácida, de visíveis dimensões, sendo como uma grande barreira para sua rápida locomoção; tua face terrivelmente assustadora, os olhos alaranjados e arregalados, o nariz robusto, assim como seu maxilar, contando com dois sucintos dentes amarelados apontados para fora.
ㅤㅤConhecida majoritariamente como Besta Real, uma raça de demônio das localidades; entidade da noite, que um dia zanzou pelas florestas locais e, hoje, jazia-se cativo para a produção daquele grande duelo. Teu nome, apadrinhado pelos próprios atrozes carcereiros, era Ghreod. O terrível, o gigante, o indomável, o prisioneiro.
ㅤㅤ— Faça-me Rei! — O Príncipe gritava, na tentativa de provar-se para o pai, e para todo o reino que o assistia.
ㅤㅤOs olhos arregalados, a torcida fervorosa. Seja pela morte do indivíduo assustador; da forma mais brutal possível, de preferência. Seja pela derrota do jovem nobre, mostrando-se incapaz de assumir o trono.
ㅤㅤColossais arquibancadas os rodeavam, vastamente lotadas pelas periferias advindas das indigentes vilas. Assim como os mais pobres, os burgueses e insignes, advindos de tal terra, também faziam-se presentes; igualmente seres facultosos de diferentes outras terras, acompanhando toda aquela ordem desordenada de passagem real.
ㅤㅤO Rei de Middleland, já provecto, à beira de sua indesejada e inevitável morte, vislumbrava teu único e esperançoso Príncipe lutar bravamente pela posse da coroa. Caso não obtivesse vitória, outro grande torneiro seria realizado dentro dos próximos meses, dessa vez na presença do irmão do rapaz, pequeno e fraco demais para empunhar a espada e digladiar-se com a grande Besta. Entretanto, a deslealdade e preconceito contra a raça de Ghreod, como sempre, fora mostrando sua verdadeira farsa; ele não teria a menor chance, como bem podem imaginar. Todo o universo conspirava contra sua pessoa, contra seus instintos, contra sua vontade. De todos ali presentes, até mesmo em relação ao Príncipe, seria um dos únicos seres a sair de campo derrotado, seja naquele instante ou depois — o outro, senhoras e senhores, vocês descobrirão logo mais.
ㅤㅤA dignidade do Rei, como todas as pretéritas gerações, sendo provada pelo combate desleal perante a raça dos gigantes marginalizados.
ㅤㅤ— Faça-me Rei, criatura horrenda! — vociferava cada vez mais alto, bufando e, agora, já incrivelmente cansado. — FAÇA-ME REI!
ㅤㅤAs gotas de saliva voando em meio ao ar quente e desolador que os abastecia, o suor de teus longos fios de cabelo dissipando-se ao redor como jatos, a exsudação que acometia tua pele amarelada — em decorrência de uma vasta exposição ao sol, em muitas de sua batalhas campais e treinamento — escorrendo irrefreavelmente. Tua espada, cada vez mais pesada; esta não carregava somente o peso de sua matéria-prima, carregava também o peso da responsabilidade de gerações. Do teu pai, do pai de teu pai, do pai do pai de teu pai, e assim por diante. A lenda dos devastadores de demônios… com seus anos, décadas, séculos de idade. Tua lâmina tão grande quanto o tronco de quem a empunhava, com suas diminutas guardas reais pelos cantos, de metal tão sólido que faltava esmagar a mão do cruel rapaz.
ㅤㅤA seiva avermelhada da criatura ia, de gota em gota, se esvaindo de seu físico medonho, retirando suas forças um pouco de cada vez. Uivava de dor e ódio, entendendo minimamente o que tudo aquilo significava, aquele ritual de passagem. Mesmo sem muita inteligência, sua consciência involuída já se deparara com histórias antigas, lendas, de outras criaturas que foram igualmente capturadas pelos homens perversos daquele reino; contadas pela sua espécie em uma língua não compreendida pelos seus atuais atrozes carcereiros. Retiradas da floresta sem sua permissão, fadadas a duelarem até a morte contra qualquer diminuto e patife ser meramente mortal. Irrelevante como pequenas folhas de outono, do tamanho de suas fedorentas fezes.
ㅤㅤA Besta movimentava seus braços, de um lado para o outro, como se estivesse cego, sem maiores atenções visuais; e não era de se impressionar, levando em conta a dificuldade sensorial herdada por outros seres de sua raça — como os fedorentos cães de tal tempo, quando enxergavam, viam tudo em preto e branco. A luz da grande estrela de fogo incidente sobre sua face escamosa, suas pálpebras se fechando, seu bafo sendo sentido pelos míseros buracos de seu nariz. Com o baculejo dos troncos, buscava auferir um golpe pesado perante a ridícula criatura que o cortava, qualquer que fosse. Queria parti-lo ao meio, despedaçá-lo com um só golpe; e o mais assustador era que realmente possuía força e destreza para tal, caso tudo e todos não conspirassem contra sua persona.
ㅤㅤCorrentes prendiam seus pés, o impossibilitando de avançar muito — dando segurança para o Príncipe correr, se proteger em um solo ardente logo atrás, para não se ferir com golpes mais pesados —, bem como uma enorme coleira encobria teu pescoço grosso, segurando tua cabeça, impedindo que o monstro abocanhasse o pequeno moço valente.
ㅤㅤO homem deu passos à frente, já farto pela demora. A torcida, entediada, seu pai possivelmente desambicioso perante sua nobreza, sua coragem, sua capacidade de vitória. Trocando rapidamente a posição dos pés, arriscou um salto, para cortar o pescoço da monstruosidade, de joelhos a se arrastar pelo solo areoso e flamejante em decorrência da forte incidência da estrela seca. E, ainda zanzando com seus longos braços, a criatura finalmente o tocou. Uma de suas gigantescas mãos atingiu a barriga do Príncipe, como um potente soco; enquanto a outra maúça, com suas unhas incrivelmente afiadas, rasgaram parte da carne do seu braço esquerdo, quase arrancando-o. Nem mesmo a pesada e praticamente impenetrável armadura fora capaz de lhe proteger. Era uma ferramenta feita por homens, não por deuses; e, em tal instante, o moço punha-se de frente a um musculoso demônio. Pobre criatura.
ㅤㅤMas a consequência de suas ações, ao final de tudo, acabou sendo inevitável. Era necessário avançar, ferir-se, quase morrer, para enfim conseguir sua almejada vitória. Teu salto lhe deu as condições necessárias para rasgar a garganta do monstro, com um só golpe, fazendo uma linha nojenta que caminharia quase de ponta à ponta, pouco antes de se abrir.
ㅤㅤTodos levantaram de seus assentos, veementemente atônitos com aquela magnífica e aguardada cena. Quando a criatura atingiu o solo, molenga, praticou um barulho colossal, que permeou os céus abertos de praticamente todo reino. Impressionaram os cidadãos de fora da estalagem, que infelizmente não conseguiram acesso graças à lotação; advertiram e preencheram de medo cada um dos demais monstros da floresta, alegando que a época de caçada voltaria, em breve, a acontecer.
ㅤㅤO Príncipe levantou-se, após igualmente cair com a queda da Besta, e, preenchido de força e louvor, levou uma vez mais sua lâmina na direção de tua carne, perfurando o topo do crânio de Ghreod, como um golpe final — mesmo que já não necessitasse mais de ser fatal. Praticou-o pela pose, pela glória. Pelo anseio máximo de superioridade, digno da raça humana, como bem pensavam. Subsequentemente, ainda teve a audácia de retirar uma vez mais a lâmina do bicho, passando seus perfis pelas superficiais escamas, e levantá-la rumo ao céu, com sua ponta levemente tombada.
ㅤㅤE o que se seguiu foi um grito ensurdecedor vindo da arquibancada, assustando todos os pássaros e corvos daquela região, que voaram em disparada rumo a qualquer lugar bem longe. Em breve, porém, seriam os urubus que marcariam presença, para devorar e encher suas lamuriadas barrigas com a bela refeição bestial. O Rei, como todos já de pé, puxou um aplauso, que posteriormente tornar-se-ia colossal e devoto, deflagrando toda a grandeza do potencial do ainda jovem filho. Teu rosto era tomado por um misto de felicidade e tristeza, ansiedade e sofrimento. Era chegada a hora.
ㅤㅤO Príncipe havia conquistado seu direito. E, para isto, o Rei deveria perdê-lo. Enquanto sorria, teu rosto via-se tomado por incontroláveis feições de derrota. Foi quando singelas lágrimas escaparam-lhe, pouco antes de seguirem escorrendo frenéticas em meio ao teu rosto branco, antes de penetrar a crescida e bem-cuidada barba.

***

ㅤㅤO antiquado castelo erguia-se como um celeiro das almas divinas e penadas. Possuía proporções inimagináveis, que encobriam facilmente a maior de todas as áreas daquelas terras reais. Era cercado por um imenso muro de mesmo material; rochas densas, coladas uma à outra numa amálgama de clínquer e sangue — literalmente sangue; o líquido que se enrijeceria junto ao previamente citado químico. Este muro abrangia, além do castelo, todo o reino, servindo de proteção e controle. Rodeava casas, cabanas, plantações, estábulos, e a própria arena que vez em quando abrigava o espetáculo de gerações. Um grande rio entrava e saía, essencial para todos os costumes, sempre muito bem guardados pelos protetores, pelos agentes reais, em seus dois cantos. Pelos grandes portões de madeira maciça, igualmente afilhados, entrava quem era necessário… e o mesmo valia para as saídas. Os mais empobrecidos cresciam e formavam-se como adoradores da família poderosa, muito embora pouco compreendessem — ainda — o mal que lhes faziam; a exploração neles investida, o descarte sempre considerado em diversas situações.
ㅤㅤMas eles estavam lá. Todos estavam lá. Ou, bem, quase todos. No grande saguão real, bem maior que as previamente usadas arquibancadas. Onde todo o reino podia ter acesso à passagem de bastão, à vestimenta da nova coroa. Onde um ciclo terminaria… e outro começaria em seu lugar.
ㅤㅤO Rei posava-se ajoelhado. Seus antebraços erguidos, os bíceps colados ao tronco. E, acima de seus pulsos firmes, amaciava a espada usada pelo Príncipe. Aquela que cerrou a garganta do monstro, que nadou em sangue podre. Aquela que ainda jazia-se emporcada, demasiadamente fétida e pesada. Mas era o ritual. Sempre havia sido, sempre deveria ser. O velho homem ainda podia se lembrar… se lembrar da vez que encontrou-se no outro lugar, no lugar que seu filho agora detinha. Aquela posição de destaque, de verdadeira e irretirável realeza.
ㅤㅤSeus ouvidos calmos acompanharam os passos do rapaz, sem tempo para refrescar-se em um banho divino, enquanto todos atrás deles calavam-se, feito estátuas de mármore atentas e obedientes. O garoto trajava a mesma armadura de outrora, de pouquíssimos minutos atrás. Caminhava quase aos tropeços, cansado, perene o suficiente para produzir qualquer deslize. Mas, dentro de si, carregava uma válida e desejável confiança, bem como atenção. Sem falar na coragem… coragem para o que precisaria fazer. Para o que tinha de ser feito.
ㅤㅤCessou teu andado, acompanhando com as sobrancelhas encostadas o pai erguer a cabeça, incontrolável em teu choro. Não sabia bem definir se era orgulho… ou medo. Sem delongas, levou a mão direita, a perfeita mão direita, àquela que derrubou o demônio e demonstrou ao mundo teu nobre potencial. Novamente ergueu o objeto pontiagudo, escutando sua lâmina afiada uma vez mais cintilar.
ㅤㅤ— Pai… — Seus lábios rosados soltaram, abrangendo alguns de seus alongados fios capilares.
ㅤㅤO provecto indivíduo fechou teus olhos, pondo-se a respirar profundamente. Enquanto sentiu o filho colocar a ponta da espada no teu ombro direito. E depois no teu ombro esquerdo. E depois retirá-la, cortando o ar para cima de tua orelha.
ㅤㅤ— Faça-me Rei… — Sussurrou, com suas vistas atentas em tua feição melancólica.
ㅤㅤE, então, seu desejo se cumpriu. E ele enfim fez-se, durante o último suspiro emitido pelo progenitor, o mesmo homem que, no passado, dera-lhe o dom da existencialidade.
Seus músculos movimentaram novamente a arma branca, permitindo que ela cantasse através do ambiente, numa única e última canção maldita. Como o monstro, foi a vez do homem tombar, com seu pescoço fatiado, com sua honra cumprida, com sua cabeça sendo jogada ao límpido carpete avermelhado, do qual fora banhado pela mesma pesarosa coloração apavorante.
ㅤㅤO silêncio que o Príncipe produziu não fora respeitado pelos demais, que, agora às palmas, já o parabenizavam pelo reinado. E assim seria… até que o derradeiro dia de teu herdeiro superá-lo chegasse. Quando uma vez mais outro descendente daquela família, outro poderoso e abençoado beneficiário de mesmo sangue, iria reclamar seu direito ao trono.

FIM.

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Sobre o Autor

Victor Dourado

Apaixonado por quadrinhos, cinema e literatura. Estudante de Matemática e autor nas horas vagas. Posso também ser considerado como um antigo explorador espacial, portador do Jipe intergaláctico que fez o Percurso de Kessel em menos de 11 parsecs — chupa, Han Solo!