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Atenção! Não leia esta história sem antes ler as partes anteriores.
Parte 1: Punição.
Parte 2: Pós-Morte.

18NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS

Gêneros: Drama (Tragédia), Suspense.
Contém: Abuso sexual, violência.

Aviso!
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção.

PURIFICAÇÃO

“Então você acha que consegue distinguir o paraíso do inferno? Céus azuis da dor? Você consegue distinguir um campo esverdeado de um trilho de aço gelado? Um sorriso de uma máscara? Você acha que consegue distinguir?” – Pink Floyd.


O majestoso sol reluzia seus feixes de luz com uma exuberância surreal, os belos e coloridos passarinhos que esvoaçavam pelo céu cantavam alegremente, enquanto davam piruetas estranhas, igualmente maravilhosas, aproveitando o grande dom que os humanos jamais teriam. O grandioso sino da minguada paróquia movimentava-se com corpulência, exalando as primeiras badaladas do dia, as ondas sonoras cada vez mais fortes e trêmulas, o metal de sua composição mais antigo que a própria estrutura que o rodeava. A procissão se iniciava como de costume: tal como os pequenos pássaros acima do telhado, as crianças de diferentes idades e sexo utilizavam de uma forma espetacular todas as suas cordas vocais para produzir maravilhas, cantavam com poder e suavidade, tons agudos mesclando-se aos graves, compondo um dos corais mais energéticos do infinito Universo; tuas vozes, de tão belas, eram contempladas a distâncias, por dentro de um solo sagrado, não ficavam devendo em nada para os suprassumos anjos de Deus. Tão doces e inocentes quanto estes, tão suspirantes quanto suas próprias vozes.
ㅤㅤRegidos pelo também padre da construção divina, os garotos e garotas amavam loucamente servir ao Criador de Todas as Coisas, demonstrando seus dons para os frequentadores locais e, claro, ao próprio Deus. Por meio de teus angelicais timbres, exalavam alegria e satisfação. Em teus íntimos, tudo era demasiadamente lindo e a admiração que recebiam tornava aquilo ainda mais especial e cômodo. Não tinham vergonha de demonstrar seus dons, tampouco preguiça ou inveja dos dons alheios — aprenderam desde cedo aquilo que, na teoria, a religião sempre pregou: o amor.
ㅤㅤUma garota em especial chamava todas as atenções para si própria, como a mais talentosa de todos ali presentes; possuía os cabelos vermelhos como fogo ardente, os cachos pesados enaltecendo ainda mais tua beleza rubra, a pele esbranquiçada como uma folha de papel e, espalhados por tua epiderme quase incolor, várias pintinhas escuras eram descritas, igualmente sardas espalhadas pelo teu rosto único, como tua peculiaridade mais notável, tua verdadeira marca registrada. Possuía por volta de nove anos, uma postura de madame, um olhar tão hipnotizante quanto a própria voz. Sempre utilizando-se de seu vestido predileto, tecido tingido a cor-de-creme, igualmente encantador, a garota mais parecia uma versão contemporânea das clássicas princesas da Disney, despertando os olhares até dos menos curiosos.
ㅤㅤSeu pai, de mesma pele branca, com pelos diferencialmente escuros, castanhos envelhecidos, possuía um bigode de respeito. Conservador em demasia, sempre elegante, tal como sua cria, ele vestia-se com roupas sociais notórias, lembrando a todo momento suas vestimentas militares de outrora. Fazia questão de levar sua magnífica princesinha à paróquia todos os domingos, fornecendo à mesma uma fixação sem igual pelo próprio Deus — e, se não fosse pelo desfecho cruel que seguiria os acontecimentos daquela época, diria que o sentimento por parte do suprassumo ser era recíproco. Viraram ferrenhos frequentadores desde a morte da mãe da garota, ex-mulher do provecto militar, no fatídico parto do anjinho de cabelos naturalmente tingidos de carmim. A pequena garota fora julgada excessivamente após sua nascença pelos seus parentes religiosos da árvore genealógica materna; desde a morte de sua mãe, a jovem menina foi vista como a encarnação do próprio Demônio, já que foi a responsável por tirar a vida de sua queria progenitora — uma pessoa considerada por todos como uma santa em forma carnosa, caridosa e internamente pura, amada e idolatrada por multidões. Mas o pai sabia que nada daquilo havia fundamento, nada havia sido culpa dela, era tão inocente quanto àquela que lhe deu a vida.
ㅤㅤO citado padre da paróquia era superficialmente um cavalheiro único, muito amigo do pai da criança, todas as vezes muito educado e receptivo, sempre utilizando os adjetivos mais bonitos e encantadores para se referir à menina, que, por ser criada com uma educação ímpar, reproduzia da mesma forma o tratamento e sentimento. O viúvo recentemente descobrira um câncer terminal, que corroía-o por dentro, matando-o aos poucos — até os mais otimistas dos médicos não lhe davam mais do que três meses de vida. Pela amizade essencial que nutria com o padre, o ex-militar observava-o e estudava a mais absurda das possibilidades: quando partisse, deixaria sua amada filha sob seus cuidados; os ignorantes e impiedosos familiares da mãe da garota, e os próprios, recusavam-se até mesmo a, impensavelmente, chegar perto da mesma; seus pensamentos tão ultrapassados quanto a própria crença.
ㅤㅤDescobrindo, com o passar do tempo, as reais intenções do antigo militar, o padre, como sempre encantador e altruísta, se propôs a cuidar e zelar pela garota, proporcionando a ela todos os ensinamentos de Deus que fossem necessários, segundo suas próprias palavras, para que se tornasse uma pessoa digna e inspiradora, elevando seu patamar a quase uma divindade terrestre. Prometera ser mais do que seu tutor: ser teu novo Padre.
ㅤㅤOs dias se passaram e, antes mesmo da data previamente descrita, o pai da menina faleceu — junto a ele, a esperança dela por dias melhores. A jovem ruiva devastou-se, foi ao chão completamente enlouquecida e, aos prantos, questionou seu Deus pela primeira vez, indagando a todo momento se o que todos pensavam e descreviam dela era real: a portadora da própria Morte, um Demônio cruel e impiedoso, que se desfazia de todos aqueles que nela depositavam expectativas. O padre, agora já nomeado como o novo guardião da menina, lhe prometera, em decorrência de tal fato e suspeita, dar a ela o que mais necessitava: uma Purificação. Sempre sorridente, aos poucos lhe convenceu que a impuridade de tua alma deveria ser corrigida.
ㅤㅤDiferente do que transparecia na máscara que utilizava sobre sua face, na frente da maioria das pessoas, os desejos do homem de Deus eram muito mais perversos do que qualquer um que o conhecera poderia imaginar; a satisfação a qualquer custo era contemplada com suspiros, a força dos teus músculos braçais nunca antes parecera tão eficiente, os dentes pontiagudos e pouco escurecidos em tempo algum tornaram-se tão visíveis, teu genital órgão jamais antes experimentara uma carne tão fresca. No decorrer do tempo, toda a imagem de mocinho se desfez na mente da pequena criança, para dar lugar àquilo que pensava pertencer a si mesma: muito diferente dela, aquele patife ser que ousava despir-se sobre teu corpo era o verdadeiro Demônio. Ela, em teu íntimo tão doce e pleno, perderia ao longo das passagem tua angelical forma, para todo o sempre.
ㅤㅤAs noites que se seguiram foram tão brutalmente ruins que dariam inveja aos piores dias já retratados pela Bíblia. Os fundos da paróquia, onde o padre e, agora, a garota viviam, tornou-se um ambiente tão sentimentalmente catastrófico que nem mesmo o próprio Inferno conseguiria traspor tamanha maldade. Em todos aqueles instantes, dia após dia, o Demônio aproveitou-se da forma que queria do querido anjo, que nada podia fazer para reverter toda a situação; as manhãs eram mais calmas, o horário principal das missas, as noites e madrugadas simbolizavam o inverso, a escuridão universal representando a verdadeira treva da pequena jovem. Um verdadeiro lobo devorando um inocente cordeiro.
ㅤㅤA personalidade da garota, moldada por caprichos e bondade, com o passar do tempo se esvaiu, dando lugar ao pior tipo de sentimento possível: o ódio. Ódio exponencial, que volumava a cada luar, do qual, um dia, jurou usar contra aquele homem.
ㅤㅤA impotência do ser de cabelos vermelhos era imensurável, o medo de qualquer coisa dita referente ao que acontecia já rendera a ela inúmeros arrepios, que percorriam todo o seu corpo; ela não sabia a quem recorrer, senão a Deus. Foi então que ela o confrontou pela segunda vez, agora pedindo-lhe ajuda. Por mais preces rogadas com os joelhos acometendo o solo, nada acontecia; teu maquiavélico tutor não dispensava o prazer mundano de forma alguma. As atrocidades persistiram, assim como as lágrimas escorrendo pelo rosto nevado da menina. De certa forma, rezava e descobria que, embora fizesse um estrondoso esforço, ninguém era capaz de ouvi-la. Porém, isso não foi o suficiente para que perdesse sua fé — esta jamais seria abalada.
ㅤㅤSua jornada ao lado das outras crianças, compondo o coral, perpetuou-se, embora a angelical garota recusasse, certas vezes, a utilizar o seu dom praticamente divino, que servia de entretenimento para todos os frequentadores da pequena paróquia. Com o passar do tempo, parou completamente com suas cantigas e dificilmente falava. Por dentro, entretanto, era capaz de produzir gritos ensurdecedores, tão angustiantes quanto o próprio silêncio de seu exterior. O medo crescente a cada segundo, e indagações ainda mais presentes: seria a morte um melhor e mais saudável caminho?
ㅤㅤComeçando sempre pelas pernas lisas e sedosas da menina, o padre liberava todos os beijos e carícias que pretendia; como doente que era, no fundo, talvez, pensava que a menina também compartilhava o mesmo prazer. A dor da penetração, que sempre encontrava um jeito de acontecer, jamais conseguiria ser mais forte do que a sentida pelo coração — esta, de forma alguma, esvairia junto aos ponteiros do relógio. O sádico homem ainda aprendeu, com a ajuda de suas proezas, a nutrir uma nova adoração: idolatrava tirar certas fotos da jovem ruiva, como marcas de cada Purificação; serviriam, também, como lembranças no futuro, quando a pequena já possuísse pose de mulher feita, e seus caprichos sexuais por jovens moças se perdesse nela.
ㅤㅤE assim foi. Os anos se passaram e todo o ódio crescente no íntimo da menina moldou-a da pior maneira possível. Inevitavelmente tornou-se fria e aprendeu, após muitas dores, a não sentir mais uma afeição pelas coisas — nem mesmo pela própria vida. Foi só então que tomou coragem para fazer o que deveria ter feito desde o primeiro dia: arriscou uma fuga e, por pura sorte, conseguiu. Levou consigo somente as coisas que realmente importavam, seu vestido predileto e uma maleta provecta herdada do pai. Agora, no auge de sua pré-adolescência, finalmente tornou-se capaz de procurar ajuda. Vagando pelas sarjetas, foi achada por uma experiente moça negra, que trajava uma camiseta branca e uma saia longa, e também compartilhava uma veneração pela religiosidade. Aquela senhora levou-a para casa e cuidou de uma forma indescritível de seu emocional durante meses. A jovem nunca sonhara em conhecer uma pessoa tão boa — já não mais acreditava na existência delas — e a provecta dama de pele escura jamais imaginara encontrar aquilo que sempre sonhou ter, e biologicamente não foi capaz de fazê-lo: alguém para chamar de filha.
ㅤㅤA ruiva menina nunca desenvolveu coragem para contar para sua nova mãe o que havia lhe acontecido no decorrer daqueles últimos anos; era uma verdade doída, pessoal demais, aquela atitude que somente os verdadeiros traumatizados conseguiriam entender. A mulher cuidou da garota durante um total de cinco anos, até falecer, proporcionando a ela o que mais pode se chegar perto uma vida normal; a jovem, com ela, por pouco não conseguiu novamente afeiçoar-se pela vida, aquilo que há muito tempo perdera. Mas não poderia de forma alguma, parte de sua missão era dar fim a ela, como um reflexo de toda a crueldade sofrida durante seu passado.
ㅤㅤSua fria e doce vingança foi arquitetada durante um longo e ambicioso tempo, tanto o lado emocional quando o físico teriam que estar em perfeita ordem e equilíbrio, para cumprir aquilo que planejara. E, quando finalmente sentiu-se confiante de que a hora certa havia chegado, ela vestiu-se a caráter, alugou, desenvolveu e agrupou todas as ferramentas e objetos necessários, e esperou. Sempre rezando, conversou uma última vez com Deus, dizendo que o confrontaria pelo terceiro e definitivo momento daqui poucas horas, desta vez pessoalmente.
ㅤㅤTudo terminaria naquela noite, era o grandioso e esperado fim de uma era; o fim de sua era. Pela primeira vez na vida, levou em consideração tudo o que diziam sobre sua pessoa e, finalmente, entendeu todo o significado de sua existência; havia se tornado aquilo que, em teu íntimo, jamais acreditou ser: ela era, como o inescrupuloso padre, um Demônio; aquele que havia, há tempos, deixado de ser um querido anjo.
ㅤㅤEstava na hora da punição!

EPÍLOGO

ㅤㅤA manhã chegou, tímida, a neve acumulada pela madrugada violenta agora calmamente derretia com os sucintos raios solares. A grande estrela de fogo não mais brilhava como antigamente, embora ainda fosse capaz de dar uma justa iluminação àquele ambiente tão terrivelmente obscuro.
ㅤㅤOs policiais chegaram à cena do crime ainda cedo, chamados por um mendigo que residia-se próximo ao local — tentando se abrigar do frio, achou uma boa ideia passar a noite no galpão abandonado. A cena presente era indescritível, alguns balbuciaram vômitos, outros tontura, alguns outros foram alertados previamente e nem sequer se aproximaram do local. Diante dos olhos arregalados, os legistas tinham pra si um momento único em suas vidas; talvez aquela era, realmente, a coisa mais absurda que já presenciaram em toda a carreira, o tipo de história a ser contada aos colegas de trabalho encarregados de outras ocorrências no citado momento.
ㅤㅤO corpo montado poeticamente, milimetricamente projetado, fazia alusão ao maior dos símbolos religiosos; isto levantava questionamentos infinitos. Pouco longe dali, uma bela moça havia suicidado, construindo mais uma grotesca morte. Os vizinhos locais estranharam o carro ligado na garagem e a porta principal aberta, e a curiosidade os levou ao encontro do corpo, em outra cena completamente horripilante.
ㅤㅤForam localizadas luvas de couro, completamente ensanguentadas, dentro de uma caixa de papelão no banco do passageiro, assim como algumas vestes no interior da residência, igualmente tingidas à seiva rubra. Estas provas, pouco depois, foram suficientes para mostrar às investigações que ambos os casos pertenciam à mesma história.

FIM.

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Sobre o Autor

Victor Dourado

Fissurado por quadrinhos, cinema e literatura. Estudante de Matemática e autor nas horas vagas. Posso também ser considerado como um antigo explorador espacial, portador do jipe intergaláctico que fez o Percurso de Kessel em menos de 12 parsecs.

  • Pingback: Pós-Morte()

  • Dave Mustaine

    Ae, finalmente postou o último capítulo, seu merdão! Os capítulos anteriores já davam a entender que o motivo pelo desejo de vingança da protagonista era por causa de um abuso sexual que sofreu, mas mesmo que isso fosse “previsível”, a “história de origem” ainda foi muito impactante. A jornada dela em direção ao lado negro ficou muito bem contada.

    • Demorou mas saiu!! Kkkkkk
      Obrigado pelas palavras, seu bunda!

      Posso te convidar para ler algo? Uma história da Liga da Justiça que estou desenvolvendo.

      • Dave Mustaine

        Eu vi que tu postou os dois capítulos lá no TME, vou ver se consigo ler amanhã.