?


Os ventos frios e calmos atingiam os matos altos do terreno fora da mansão. Grandes galhos das árvores balançavam lentamente, enquanto o céu se fechava e indicava que uma grande tempestade estava por vir. Era final de tarde e o sol se despedia, os poucos raios de luz sombreavam as gigantescas estruturas da grande casa, praticamente vazia. Os móveis estralavam por falta de uso, o chão empoeirado ocupava um vasto espaço. Ali, há muito tempo, uma família feliz vivera; hoje, apenas o órfão repousava, sem companhia alguma. A poltrona em frente à lareira era aquecida pelo fogo que vinham do vão repleto de madeiras em chamas, enquanto inúmeras garrafas de vinho, vazias, cobriam o piso ao redor do estofado; a adega, inimaginavelmente, atualmente se encontrava vazia. O homem observava a brasa com um olhar calmo e vago. O sol agora acabara de se pôr completamente e os ventos aumentavam.
O silêncio que encobria a grande mansão fora quebrado por um grande estrondo, vindo do céu. As janelas com vidro fosco, de sujeira, eram iluminadas pelos relâmpagos exteriores. A corpulenta sala da casa era o único lugar do local que abrigava calor, humano e flamejante. Os olhos castanhos do homem demonstravam, agora, uma coloração amarelada, observando as madeiras quentes e pensando sobre vários acontecimentos de sua vida. Perdera os pais ainda criança, aconselhado por um policial sobre como lidar com a situação e aceitar a partida de seus entes queridos. Foi cuidado pelo então mordomo da família, o qual, durante muito tempo, foi a presença paterna do garoto e, quando o mesmo se tornou um homem, o ajudou em suas ambições, relacionadas às ações heroicas. Hoje, a única companhia daquele, agora, velho homem, eram os retratos dos que já partiram espalhados pela casa; gerações sucessivas de familiares que nunca conheceu, seus pais, seus antigos parceiros e seu velho ajudante, que um dia já lhe chamou de filho. As cruéis lembranças eram capazes de retirar toda e qualquer esperança de dias melhores do coração daquele homem, que hoje já não via o mínimo propósito em viver. Sua cidade estava enfim segura, devido a uma tecnologia criada por si mesmo, fazendo a promessa que um dia efetuou aos seus pais ser cumprida. O povo estava feliz, seguro; mas ele estava triste, sem perspectiva e alguém ao lado. Remoía paixões e aventuras antigas que, como ele sempre imaginava, não deram certo. Eram proibidas, loucas demais para serem verdade. Loucas demais, como os inúmeros insanos que enfrentou ao longo da vida.
O homem solitário hoje era mais velho do que seu pai um dia havia sido. O dinheiro abarrotado em suas contas e as jóias de sua falecida mãe, escondidas nos cofres, já não tinham mais nenhum valor para aquela figura humana. Tua barba era longa, assim como sua experiência. Seus cabelos grisalhos eram secos e descuidados.
A tempestade parecia aumentar cada vez mais e as chamas já não pareciam ter a força de minutos atrás.
A campainha da gigantesca estrutura de concreto foi acionada, de supetão. Quem poderia ser? Nenhuma visita era esperada, nenhuma visita era bem-vinda. O homem se levantou da poltrona com dificuldade e caminhou lentamente para a porta, sem realmente querer. Os passos pesados e vagarosos demonstravam a dificuldade de locomoção daquele corpo; ele realmente estava em seu fim, completamente esgotado. Ao abrir a porta, de maçaneta fria, ninguém se pronunciou; ninguém estava ao menos lá, esperando. Apenas uma encomenda, ao chão, o homem viu: uma pequena caixa preta, com um símbolo de interrogação cravado em verde. Era misteriosa, assim como a pessoa que a deixou ali. O velho cidadão a abriu, sem demonstrar muita curiosidade. Dentro do objeto cúbico havia um pequeno bilhete, de proporções manuais. Ela trazia uma proposta, uma tentadora proposta. “Olá, Bruce. Vamos jogar?”. O homem, de roupão branco, com o bordado dos Wayne em sua veste, olhou instantaneamente para frente, procurando alguma sombra, alguma presença humana. Ele nada viu. Sorriu, subsequentemente. Não tinha absolutamente nada a perder. Só precisava de uma aventura para se distrair. Uma última aventura para se sentir vivo novamente.
— Vamos. — Disse, em um tom de voz mínimo, porém audível.
Bruce fechou a porta com rapidez, porém remoendo uma certa dificuldade, devido às suas dimensões. Caminhou pelo piso empoeirado até a suíte regente da mansão, onde se aproximou do piano e apertou três de suas teclas. Os sons emitidos abriram uma porta secreta, que dava acesso à famosa Batcaverna.
Há muito tempo não descia por aqueles degraus. Há muito tempo não vivera uma de suas loucas aventuras. Há muito tempo não sentia tanto medo de morcegos. O velho Wayne deslocou-se rumo ao subsolo rochoso e escuro, pela primeira vez em anos empolgado para fazer algo. Por mais que o lugar não trouxesse boas lembranças, ele sabia que aquilo era seu verdadeiro lar, parte de quem ele realmente era. A escuridão tomou conta de absolutamente tudo e o eco dos passos era acompanhado pelos barulhos dos mamíferos voadores que ali viviam. O gigantesco super-computador empoeirado iniciou-se automaticamente, como nos velhos tempos, mas o velho Morcego não precisaria dele. Sabia onde tinha que ir, a localização exata.
Trocou de roupa, vestindo seu antigo manto, sujo e desgastado, do Vigilante de Gotham. A barba comprida não deixava o famigerado e temido queixo aparecer. O Morcego era, pela primeira vez, todo negro; todo sem esperança. Trocou passos até a plataforma arredondada, onde seu veículo terrestre se encontrava. O motor do automóvel roncou alto quando o trevoso cavaleiro nele adentrou. Os faróis amarelados e velhos foram acionados e a comporta, que dava de frente para uma imponente e esbelta cachoeira, se abriu. O veículo acelerou e partiu, a tempestade lá fora se alastrava cada vez mais por toda a cidade. Estava apenas começando e terminaria quando o velho Cavaleiro das Trevas não mais respirasse. O grande jogo estava prestes a se iniciar.

Continua…


Referências:

– Vidas em Jogo, um filme de David Fincher.
– Inspirado pelo suposto roteiro escrito por Ben Affleck e Geoff Johns para o próximo filme do Batman, que foi descartado.
– Baseado nos personagens da DC Comics.
– Batman foi criado por Bob Kane e Bill Finger. Charada foi criado por Bill Finger e Dick Sprang.


Observação: Esta é a primeira parte, de um total de duas, ambientadas na mesma história. Leia a continuação aqui: Mestre dos Enigmas.

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Sobre o Autor

Victor Dourado

Fissurado por quadrinhos, cinema, games e literatura. Estudante de Matemática e autor nas horas vagas. Posso também ser considerado como um antigo explorador espacial, portador do jipe intergaláctico que fez o Percurso de Kessel em menos de 12 parsecs.

  • Herbie: The Love Bug

    MEUDEUSDOCÉUBERGIE!QUE HISTÓRIA F**A!
    Muito bom uso das palavras,Jipeiro. Falando nesse roteiro descartado de The Batman,não curti muito a ideia de ter o Exterminador como vilão principal sem alguém de fundo mexendo os pauzinhos. Por mim,o Exterminador seria usado em Titãs e com inspiração na versão da série animada(que ao meu ver é bem mais interessante que a versão dos quadrinhos. Ele é mais misterioso e calculista). E ele não poderia ser derrotado pelo poder do roteirismo.
    Eu vejo Arkham Origins e me lembro disso:
    https://uploads.disquscdn.com/images/8fd3f0d746c89edd84dcd9ac0200fa6679de172fdf7311570bcbfe7c11ad0d3e.jpg
    https://uploads.disquscdn.com/images/db013b3a58914122cff8ef78544b078bc3afde5728395c8a9b5ebdae381ffb71.jpg
    Personagens como Charada e Silêncio combinam muito mais pra essa proposta. E como o filme do Matt Reeves será noir com um tom de Alfred Hithcock,seria perfeito se fosse um desses como antagonista principal.

    • Muito obrigado, Herbie!
      Eu adoro o Exterminador. Sem dúvidas um dos melhores vilões da DC, mas concordo que ele antagonizando com os Titãs fica muito mais legal. Carga de O Contrato de Judas é grande kkkkk
      Mas tem uma coisa que mencionou nessa primeira imagem… embates entre o morcegão e o Slade são sempre sensacionais. E o Exterminador em Crise de Indentidade >>>> all kkkkkk

      Concordo. Silêncio e Charada cabem melhor nessa proposta.

      • Herbie: The Love Bug

        Essa proposta seguindo a vibe de Vidas em Jogo combina MUITO com Titãs. Adoro o Slade da série animada, e acho que ele ficaria muito melhor nos filmes do que a versão normal. Ele é muito mais calculista, misterioso e com motivações, ao meu ver, melhores (não querendo desmerecer o Slade das HQS).
        kkkkkkkkkkkkkkk Que surra que ele deu neles kkkkkk eu até pensei que o Snyder poderia por isso em LJ quando vi aquele storyboard. Imagina? Kkkkkkkkkkkkkk

        • Concordo!!! kkkkk

          kkkkkkkkkk Também pensei. Mas acho que o personagem foi cortado do filme, agora com as regravações. Infelizmente.

  • Aragorn II, King of Gondor

    ….

    Meu amigo, estou absolutamente sem palavras.
    Não sei nem por onde começar.

    Bom, em primeiro lugar, eu devo ter passado uns cinco minutos olhando para o título, intrigado com a interrogação, e isso ONTEM, quando vi nos esboços do site. Agora, quando vi o post aqui, eu tive um leve infarto… rsrs!
    Mano, que narrativa SENSACIONAL! A ambientação estava tão viva, tão clara na minha mente, que eu cheguei a sentir diversos arrepios ao longo do texto. A forma como voce descreveu o Bruce, a mansão, a forma como ele desce para a Batcaverna, com passos lentos, difíceis… a imersão que você proporcionou aqui foi ABSURDA!
    E… mano, como voce escreveu esse texto fantástico, se a notícia sobre a inspiração em ”Vidas em Jogo” saiu ONTEM? Ou eu estou enganado?

    Ela estava apenas começando, e terminaria quando o velho Cavaleiro das Trevas não mais respirasse. Que comecem os jogos.

    Ainda não sei o que dizer… só sentir. ÉPICO!

    https://media.giphy.com/media/aLdiZJmmx4OVW/giphy.gif

    • Kkkkkkkkkk
      Eu ia colocar uma imagem de uma fogueira, pra não dar tanto na cara que era uma história do Batman. Mas vi esse wallpaper cheio de interrogações no google e achei perfeito. Não resisti kkkkkk

      Sentiu arrepios? Estou me sentindo foda!!! Kkkkkkk
      Bem, já tem tempo esse teu comentário, e, sim, eu escrevi o texto um ou dois dias depois de ver a notícia. Estava inspirado kkkkkkk

      Muito obrigado, meu amigo! <3

      • Aragorn II, King of Gondor

        Huahauahauahau… era difícil resistir assim, né?

        Você É foda, seu bosta… hauahauhauaauahaua!!
        Mas é uma máquina de produção mesmo, tá louco… hauhauahauahuaahua!!

        Off: hm… lembra da promessa que eu te fiz sobre os Novos Deuses? Como um bom procrastinador, acabei dando uma adiada, por causa das provas e tal, mas o feriado tá aí, e pode ter certeza que, quando der segunda, já terei lido, se não houver nenhum imprevisto colossal… <3<3

        • Sim kkkkkkkkkkk

          Seu cu.

          Off: Demorei, então vou perguntar… E aí, leu? kkkkkk

          • Aragorn II, King of Gondor

            Kkkkkkkkkkkkk!

            Off: porra, mano, tá foda… kkkkkkkkkkk!
            Tipo, eu tentei ler e tal, fui baixar Novos Deuses lá no DSClub, e meu antivírus SURTOU… então, fui dar uma olhada no HQBR, mas lá só tem Odisseia Cósmica… :/
            Bom, eu pensei em ler em algum site americano então, acho que é tranquilo, creio que consigo entender [mesmo que apele pro Google Tradutor volta e meia… kkkkkkkkkkk!]…

            Tá uma verdadeira ODISSEIA pra ler essa porra… mas eu vou, custe o que custar! 😛

          • Eu tenho eles aqui no computador. Mandei agora pro seu e-mail. Só baixar e ler.
            Hehehehe

          • Aragorn II, King of Gondor

            AEEEEEW! Valeu, mano!

  • Não há palavras para descrever quando esse post é foderoso, excelente, estupendo, etc. etc.
    Muito bom, Sabixão. E que venha os próximos capítulos.

  • Muito bom. A ambientação inicial é espetacular. Vamos ver o que o Charada apronta para esse Batman envelhecido e cansado!

    • Muito obrigado, Rodrigo! Me esforcei bastante pra tudo parecer bem vivo na mente dos leitores. Já chegou a ler a segunda (e última) parte?

  • Justiceiro – O Retorno

    Ficou ótimo Jipeiro, tá muito bom mesmo! gostei das referências ao roteiro do Affleck, e só o “Vamos!” do velho Wayne já mostra que vem coisa boa por aí! Eu não vou negar também que me lembrei do Jigsaw quando o Bruce leu o que estava escrito kkkkk. Já vou indo ler a continuação.

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