Dez anos se passaram desde que a pandemia ocasionada pelo vírus ALZ-113 reduziu drasticamente a população mundial. A elevada taxa de mortalidade da “gripe símia” fez a civilização humana ruir e lançou o planeta em um cenário pós-apocalíptico. No meio das florestas de Muir Woods, César (Andy Serkis) erigiu uma pequena sociedade, longe do contato humano. Uma utopia símia, uma comunidade onde vivem centenas de macacos das mais variadas espécies, comunicando-se através de linguagem de sinais, em uma existência pacífica e produtiva. Olhos Azuis (Nick Thurston) é o primeiro filho de César e Cornélia (Judy Greer), que está grávida do segundo rebento do casal. Ash (Doc Shaw), filho de Rocket (Terry Notary), é o melhor amigo de Olhos Azuis. Em uma certa manhã, os dois jovens saem para pescar e cruzam o caminho de Carver (Kirk Acevedo), primeiro humano visto pelos macacos em uma década. Carver entra em pânico e atira em Ash. Ele não está sozinho, mas antes que o seu grupo tome qualquer atitude, dezenas de macacos surgem por todos os lados.

O pequeno grupo comandado por Malcom (Jason Clarke) estava na floresta com o objetivo de restaurar a energia elétrica em uma represa, o primeiro passo para tentar restaurar a vida humana como era anteriormente na comunidade de sobreviventes liderados por Dreyfus (Gary Oldman). César ordena que os humanos deixem a floresta e não retornem – e envia Koba (Toby Kebbell) para segui-los. Em uma demonstração de força, leva um exército de macacos para o lar dos sobreviventes e diz não querer a guerra – mas garante que não fugirá de uma caso seja provocado. A dinâmica entre humanos e macacos será relativamente pacífica a princípio – graças aos esforços diplomáticos de Malcom e César –, mas a hostilidade, a insídia e o ódio não tardarão a florescer na relação entre os dois povos.

Com o sucesso crítico e comercial de Planeta dos Macacos: A Origem, a sequência foi anunciada pela 20th Century Fox ainda no final de 2011, recebendo seu título definitivo (O Confronto) em 2012. Problemas de agenda durante a pré-produção impediram que Rupert Wyatt continuasse na direção e Matt Reeves foi escolhido para ser o seu substituto. O roteiro permaneceu nas mãos de Rick Jaffa e Amanda Silver – com o acréscimo de Mark Bomback – e a Weta Digital retornou para os efeitos visuais, indo além no trabalho que já era espetacular no primeiro filme, criando outros animais digitais além dos macacos e lançando a captura de performance a um novo patamar.

É sobre uma linha tênue, bruxuleante, que César precisará equilibrar sua liderança, seus laços familiares e seus desejos, anseios e aspirações em Planeta dos Macacos: O Confronto. Sua liderança está mais do que consolidada entre os macacos e a sua postura nobre impressiona Malcom, seu filho Alexander (Kodi Smit-McPhee) e sua parceira Ellie (Keri Russell). O pacifismo de César precisa considerar todos os ângulos possíveis de todas as ações e um confronto entre as raças não é de seu interesse, mas o ódio entre humanos e macacos não permite tempo hábil para explicações e acertos mútuos – ainda mais quando um próprio símio faz questão de lançar pelos ares um universo erguido sobre relações frágeis e desconfiadas.

O complexo, malicioso e traiçoeiro Koba é o grande antagonista do filme – e a captura de performance de Tobby Kebbell é soberba. O bonobo repleto de cicatrizes – no rosto e no corpo – sofreu por anos a fio em laboratórios e não confia em nenhum ser humano. Ironicamente, se encarrega de construir uma intriga de contornos shakesperianos, emulando as mais sórdidas características humanas e não pensando duas vezes antes de cruzar uma linha de convivência definida como regra fundamental pelos próprios símios: macaco não mata macaco. Koba tenta assassinar César, corrompe Olhos Azuis, e incendeia sua própria vila para provocar uma inevitável guerra entre macacos e humanos.

Tecnicamente impecável, Planeta dos Macacos: O Confronto estabelece um ambiente soturno e mais sombrio que o seu antecessor. A fotografia e a direção de arte compõem uma São Francisco em ruínas que impressiona, com o mundo sendo totalmente retomado pela natureza, vegetação que floresce por todos os lados. O trabalho da Weta Digital dá vários saltos de qualidade e consegue captar as performances de Andy Serkis, de Toby Kebbell e dos demais “atores-macacos” com ainda mais perfeição – em um número maior de tomadas externas e em condições climáticas adversas. Os símios caminham para a construção de um estilo de vida humanizado e isso é perceptível na vocalização mais evoluída, na expressividade de suas faces, capazes de externar uma miríade de emoções e sentimentos sem necessidade de diálogos, e na fisicalidade dos movimentos corporais (com o trabalho de atores coordenado por Terry Notary), que expressam a postura animalesca das criaturas ao mesmo tempo em que começam a indicar os primeiros sinais de uma humanização símia – visível também na imponência com que montam os cavalos.

Matt Reeves demonstra um excelente senso de composição nas cenas de ação, construindo um complexo embate à noite envolvendo macacos montados em cavalos, múltiplos armamentos e até mesmo um tanque de guerra, que não se desencontra na confusão das várias frentes coordenadas por causa do correto posicionamento de câmera e da beleza sutil do fogo e das explosões que cintilam por todo o negrume do cenário. O diretor também se permite partir da sensibilidade da ótima sequência inicial, que em planos silenciosos revela o estilo de vida dos símios e os contornos daquele nascente civilização, para a malignidade da cena em que Koba finge ser um macaco comum para roubar a arma de dois humanos e assassiná-los com extrema frieza instantes depois.

A partir da lembrança do seu criador e amigo Will, personagem de James Franco em Planeta dos Macacos: A Origem – revivida no respeito que nasce na sua relação com Malcom e no retorno aos escombros do seu primeiro lar em um momento de tristeza e dor –, César percebe que a bondade pode germinar nos humanos do mesmo modo que nos macacos – assim como a maldade. Quanta humanidade os macacos evoluídos herdaram? Ele nunca havia notado o quão humanos os símios eram. Pensar que os macacos eram melhores que os humanos foi o seu erro – e um erro que cobrou um preço alto demais. No fim, César compreende que não há verdades absolutas e imutáveis sobre as duas raças. Com um final pessimista, que deixa o caminho aberto para a sua conclusão em Planeta dos Macacos: A Guerra, nós também pressentimos em Planeta dos Macacos: O Confronto que a sina dos macacos parece ser erguer uma civilização tão viciosa quanto a humana. Na tragédia irônica da evolução, a natureza intrínseca às duas espécies – homo sapiens e simius sapiens – é, no fim das contas, a mesma.

Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes) – EUA, 2014, cor, 130 minutos.
Direção: Matt Reeves. Roteiro: Amanda Silver, Rick Jaffa e Mark Bomback. Música: Michael Giacchino. Cinematografia: Michael Seresin. Efeitos Visuais: Weta Digital. Edição: William Hoy e Stan Salfas. Elenco: Andy Serkis, Toby Kebbell, Jason Clarke, Keri Russell, Kodi Smit-McPhee, Judy Greer, Terry Notary, Karin Konoval, Doc Shaw, Nick Thurston, Scott Lang, Lee Ross, Kirk Acevedo, Jocko Sims e Gary Oldman.

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Sobre o Autor

Rodrigo Oliveira

Católico. Desenvolvedor de eBooks. Um apaixonado por cinema – em especial por western – e literatura. Fã do Surfista Prateado e aficionado pelas obras de Akira Kurosawa, G. K. Chesterton, John Ford, John Wayne e Joseph Ratzinger.

  • Estephano

    Ótimo texto, Rodrigo. Esse é o filme mais frenético da trilogia, tem um terceiro ato em uma escala ainda maior que o dos outros dois filmes. Gosto muito desse também.
    Acho bem interessante as analogias que essa série faz, tanto no comportamento dos personagens como na situação que o planeta se encontra.

    A troca de diretor não fez o nível cair, e ainda mostrou o estilo do novo diretor. O filme claramente é mais voltado para a ação do que o anterior, e a fotografia é mais soturna também. Felizmente o filme tem um nível muito próximo do excelente primeiro filme e consegue fazer um trabalho tecnicamente tão bom quanto.
    Andy Serkis traz novas facetas ao protagonista, é impressionante o que ele fez nessa franquia. O Koba de Toby Kebbel é excelente também, creio que podemos dizer que é o principal antagonista da trilogia.

    • Valeu.

      Pois é. Esse é o mais “ação” dos três. O primeiro eu acho melhor, mas esse não fica muito atrás.

      Nos extras do BD/DVD tem cenas do Toby Kebbell com a roupa cinza, cheia de marcações e etc., e você já vê ali as expressões do Koba finalizado na pós-produção. Trabalho excelente.

  • Rodrigo, a última frase do teu texto me fez ficar um tempinho refletindo aqui. Seria isso verdade, na realidade desse universo de filmes? Eu concluí, assim como você, que sim. Sensacional, meu amigo.

    A diferença de tom entre esse e o primeiro filme é clara. Por mais que os macacos meio que se aliam aos humanos em determinado momento, o ódio entre as duas espécies impossibilita qualquer convivência amigável. Eles se odeiam por que são tão parecidos?

    “Koba tenta assassinar César, corrompe Olhos Azuis, e incendeia sua própria vila para provocar uma inevitável guerra entre macacos e humanos.”
    Eu tive a honra de assistir esse filme no cinema, junto a um amigo meu, e, cara, eu vou ser obrigado a falar aqui… O KOBA É UM FILHO DE UMA PUTA! kkkkkkkkkkkkkkkk
    Entretanto, um excelente “antagonista”! Ah, e eu gostei bastante do Gary Oldman também no filme; mais que do Jason Clarke (sinceramente, nunca gostei muito dele). E, se eu me lembro bem, o James Franco aparece apenas como uma fotografia, não é? Na citada cena onde César revisita sua antiga casa.

    Mais uma análise soberba, meu amigo!

    • Valeu, meu amigo.

      É a pura verdade…rs A natureza símia é a mesma. Ao final, com certeza irão decair do mesmo modo que a humanidade decaiu. E será bem interessante ver isso no cinema.

      Koba é o suprassumo do maquiavélico…rs Vilão miserável. No final ainda tenta se safar apelando pra consciência de César: “macaco não mata macaco”. O James Franco aparece na foto e num vídeo de uma câmera que César pega, uma gravação de A Origem.

      • “macaco não mata macaco”
        Koba apelou… É um filho da puta kkkkkkkkkkkkkkkkkk

    • Estephano

      A forma como eles retratam a relação Macacos/Humanos não é muito diferente de coisas que já aconteceram em outros períodos da história da humanidade.

      No filme o motivo do ódio do humanos para com os macacos é o vírus que foi disseminado no mundo, mas se você pensar por poucos segundos, encontrará dezenas de situações onde a humanidade se odiou por motivos muito mais banais do que extermínio por doença. É um dos motivos de eu gostar muito dessa franquia, funciona como filme de ação pipocão e como analogia.
      O Koba não é muito diferente de várias personalidades que já passaram pelo mundo, e até nos quadrinhos temos um personagem MUITO parecido com ele – Magneto.

      • Concordo com tudo, Estephano. A humanidade é desumana, como já dizia Renato Russo.

  • Cleber Rosa

    Parabens Rodrigo…

    Esse filme é bom demais, gostei mais dele do que o primeiro ( a Guerra ganha dos dois ), é impressionante como a franquia caminha pra ser uma das melhores do cinema.

    • Valeu. O bom dessa trilogia é a uniformidade, todos os filmes são ótimos. Agora é torcer pra que continue. Quero ver a Terra dominada por macacos vivendo como humanos…rs

  • Kleber Oliveira

    Parabéns pelo texto, meu amigo. Ótimo como sempre.

    Apesar de adorar as atuações de César e do Koba, eu ainda não consigo sentir paixão pelo filme. Como eu disse no outro post, eu tive a impressão de que eles deram uma pausa no desenvolvimento que queriam dar para a trilogia, deixando a sequência perdendo muito tempo para não desenvolver tanto assim sobre o universo. É legal, claro, que trabalhem mais as relações e as personagens, mas sempre que assisto eu imagino que poderiam ter feito o que fizeram com a metade do tempo. No fim, isso tudo é bem pessoal, confesso que me incomodou bastante.

    • Valeu. Eu também prefiro o primeiro filme. Esse é bom, mas realmente a sensação é que falta algo, ou, como você disse, que foi uma pausa longa demais.