Não observe o subtítulo da terceira parte do reinício da franquia Planeta dos Macacos e espere por um longa-metragem de ação desenfreada com centenas de corpos germinando o solo em sequências de combate incessantes. Quando Matt Reeves parte para a ação, ele sabe muito bem o que faz, reprisando com talento as características que já havia mostrado no filme anterior, ao construir sequências complexas que não se perdem em meio a tantos elementos trabalhados em cena. Mas Planeta dos Macacos: A Guerra vai além do esperado conflito entre macacos e humanos e assume contornos dissonantes, posicionando a guerra como um pano de fundo narrativo e concentrando-se muito mais na luta por sobrevivência e nas tentativas desesperadas de um líder que tenta escapar de um confronto inevitável e salvar o seu povo do extermínio.

Ao final de Planeta dos Macacos: O Confronto, Dreyfus (Gary Oldman) conseguiu entrar em contato com um grupo militar que partiu para São Francisco com a missão de exterminar a tribo dos macacos inteligentes. Nos dois anos que se passaram desde então, César (Andy Serkis) vive em constante movimento com seu povo pelas florestas, evitando a guerra a todo custo. Quase uma lenda entre os humanos perseguidores, o alquebrado líder símio anseia pela paz, sem contato com os humanos: quer o isolamento, apresenta sua proposta e oferece sinais do seu desejo, como devolver sãos e salvos um grupo de militares que tentou atacar o seu povo – mas tudo é rejeitado; não há mais volta para a torrente de ódio entre os humanos e macacos.

Um pelotão avança pela atmosfera imersiva da selva enevoada nos primeiros instantes do filme. As frases raivosas destinadas aos símios, gravadas nos capacetes dos soldados, evocam a Guerra do Vietnã. Quando um enorme gorila sorrateiro encosta sua pata no ombro de um soldado, a impressão é de um cerco, mas a tensão logo é quebrada: descobrimos que macacos fieis a Koba trabalham como burros de carga e rastreadores para os humanos. Ouvimos a voz do Coronel (Woody Harrelson) pelo rádio. Ainda levará um tempo para que ele apareça em cena pela primeira vez – em uma construção claramente inspirada no Coronel Kurtz de Marlon Brando em Apocalypse Now (1979). E a espera valerá a pena. Harrelson compõe o melhor personagem humano da nova franquia, mesmo sem dispôr de muito tempo em tela. Impiedoso e cruel, o Coronel também carrega sua própria tragédia particular e suas atitudes violentas em relação aos símios lançam César (que sofre uma perda profundamente pessoal) no mesmo rastro incendiário de ódio que anos antes consumiu a existência de Koba (Tobby Kebbell) e selou o destino atual dos macacos.

Enquanto os outros macacos partem em caravana para tentar alcançar o deserto e fugir da guerra, César inicia a sua peregrinação em busca de vingança contra o Coronel, acompanhado – a contragosto – pelos seus fieis amigos Maurice (Karin Konoval), Rocket (Terry Notary) e Luca (Michael Adamthwaite). Em uma longa viagem por territórios cravejados no coração mais invernal dos EUA, o grupo encontra o “Macaco Mau” (interpretado por Steve Zahn e principal alívio cômico da história), um macaco covarde e articulado que escapou de um zoológico durante o início do colapso global ocasionado pelo vírus ALZ-112. Vivendo como um eremita há mais de uma década, Macaco Mau não teve contato direto com o experimento que transformou César e os outros em símios inteligentes e sua existência acaba colocando mais questionamentos em suas cabeças – até então eles pensavam que eram os únicos macacos inteligentes a caminhar sobre o planeta. Haverá outros iguais a eles ao redor do mundo? É a pergunta que Maurice faz e que nem César é capaz de responder.

A “gripe símia” sofreu uma mutação e começou a atingir aqueles que resistiram ao primeiro contágio do vírus, roubando-lhes o dom da fala e reduzindo drasticamente a capacidade humana de raciocínio – os primeiros passos para o surgimento de uma humanidade regredida, que no futuro será tão animalesca e destituída de consciência quanto os antigos primatas. Uma menina órfã (Amiah Miller) incapaz de falar junta-se ao grupo por insistência de Maurice. César considera a garota e o Macaco Mau dois fardos desnecessários, mas ambos os personagens serão essenciais no clímax da sua própria história.

A fotografia do experiente Michael Seresin é a mais destacada de toda a trilogia. A oposição entre a coexistência harmônica dos macacos com a natureza e a claustrofobia deletéria dos ambientes militares chefiados pelo Coronel é soberba, e sua lente passeia por cenários extremamente belos, enquadrando composições magníficas na selva, na praia, nas vastidões gélidas dos rincões da América e no deserto. O trabalho sonoro foge da explosão de sons esperada em uma guerra e investe no intimismo da jornada pessoal de César – com o melancólico piano de Michael Giacchino ditando o tom.

A jornada de César atinge o seu apogeu aqui, e vemos um personagem austero, pelos grisalhos, marcas de expressão no rosto, exalando exaustão diante do peso da idade e da vida sempre em luta pela sobrevivência. Nos olhos, nos gestos e nas expressões de César, podemos ver a culminação de toda a fantástica construção de personagem empreendida por Andy Serkis e pela Weta Digital, que em um período de seis anos elevaram a captura de performance a um novo patamar. César não é um mero construto digital, mas sim a transposição perfeita da (excelente) atuação de Serkis para as telas – e o mesmo ocorre com os demais “atores-macacos”. Com uma predominância de gravações externas, em condições climáticas invariavelmente adversas, impressiona ainda mais o realismo e a palpabilidade que essas criações alcançaram – devidamente exploradas sem receio em closes e planos fechados.

O roteiro assinado por Matt Reeves e Mark Bomback segue a ideia de alegoria e crítica social que a franquia herdou do livro de Pierre Boulle. Em uma instalação militar abandonada, o Coronel cria um campo de concentração e obriga os macacos a trabalharem sem comida e sem água, debaixo de chicotadas, na construção de um muro – outros são torturados no relento em madeiras cruzadas ao redor do acampamento. A partir de uma explícita alegoria do nazismo, do extermínio indígena e de outras barbáries que expõem a decrepitude da decadência humana, Reeves e Bomback escrevem uma narrativa intensa, mas ao mesmo tempo intimista e contemplativa, que se permite muito mais instantes de respiro do que se poderia esperar. Em meio ao horror do conflito, o diretor novamente se entrega a momentos de sensibilidade extrema, como a cena em que o pesado gorila Luca estende seu braço, toma cuidadosamente em seus dedos uma rósea flor – que se destaca na alvura do cenário – e deposita-a delicadamente na orelha de Amiah Miller, que retribui com um sincero sorriso.

Planeta dos Macacos: A Guerra flerta com o road movie e com o western, mas é essencialmente uma jornada dramática com nítida influência em épicos bíblicos, que encerra com extrema qualidade uma excelente trilogia cinematográfica. César é o Moisés dos símios, escravo de suas pesadas responsabilidades, destinado a proteger e liderar o seu povo. Condenados ao cativeiro pelos irascíveis inimigos humanos, os símios ambicionam a Terra Prometida, onde possam levar uma vida pacífica e frutuosa, livres da violência e do temor. Sofredores e calejados, precisam resistir aos maus tratos, à carnificina, ao massacre, e, principalmente, à perdição tão fácil oferecida pelos aromas inebriantes do ódio. São duas as escolhas que se colocam à frente de César: decair no lodaçal da vingança contra os humanos, metamorfoseando-se em um novo Koba, ou permitir que a nobreza fale mais alto e a sua raça possa ter uma chance de no futuro não repetir os mesmos erros dos seus criadores. Ao final de uma vida inteira de expiação, sulcada por dores, dissabores e perdas, César pode finalmente contemplar o resultado almejado e conquistado ao preço de tantas batalhas – mas não desfrutá-lo.

Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes) – EUA, 2017, cor, 140 minutos.
Direção: Matt Reeves. Roteiro: Mark Bomback e Matt Reeves. Música: Michael Giacchino. Cinematografia: Michael Seresin. Efeitos Visuais: Weta Digital. Edição: William Hoy e Stan Salfas. Elenco: Andy Serkis, Woody Harrelson, Amiah Miller, Gabriel Chavarria, Toby Kebbell, Judy Greer, Terry Notary, Karin Konoval, Steve Zahn, Ty Olsson e Michael Adamthwaite.

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Sobre o Autor

Rodrigo Oliveira

Católico. Desenvolvedor de eBooks. Um apaixonado por cinema – em especial por western – e literatura. Fã do Surfista Prateado e aficionado pelas obras de Akira Kurosawa, G. K. Chesterton, John Ford, John Wayne e Joseph Ratzinger.

  • Cleber Rosa

    Parabéns de novo Rodrido, perfeita analise.

    Esse terceiro filme é um primor, foram tantas as cenas em que eu e minha esposa nos pegamos chorando, foram tantas as cenas em que nos perguntávamos ” aonde vai a maldade humana”, o filme encerra de maneira maravilhosa a historia do César, deixando um misto de tristeza e alegria por emfim ele ter conseguido aquilo que tanto almejou…

    E o que falar dos efeitos especiais, e principalmente das interpretações do todos os atores que fizeram os símios ( e claro em especial ao Andy Serkis, se ele não ser ao menos indicado ao oscar eu vou ficar triste demais ) e tambem ao Woody Harrelson, que faz um vilão muito bom tambem.

    Agora é esperar outras continuações para enfim podermos ver a Icarus aterrizar nesse nosso planeta agora comandado pelos macacos! E se ele vier, quem será o novo Charlton Heston? rsrs

    • Valeu!

      A Weta se supera a cada filme, é um negócio impressionante. E elogiar o Serkis é chover no molhado desde a época de Senhor dos Anéis…rs Uma indicação eu acho que acontece dessa vez. Seria um prêmio para o brilhante trabalho dele. E Woody Harrelson, um ator que eu gosto muito, é sempre brilhante. Tem pouco tempo em cena, mas se destaca.

      O personagem do Charlton Heston no livro é ainda mais arrogante do que no filme. O autor o constrói dessa maneira de propósito, é muito legal ver as convicções dele ruindo conforme aquele pesadelo de um mundo dominado por macacos vão tornando-se cada vez mais intenso. Espero que na próxima trilogia sigam essa personalidade para o protagonista…rs.

  • Estephano

    Muito bom o texto. O filme é ótimo.

    Andy Serkis novamente monstruoso. O filme segue uma linha mais pessoal (mesmo com “Guerra” no título), mais próxima do primeiro filme. E temos até desconstrução de personagens nesse.

    Muito bacana as referências a Apocalypse Now, algumas escancarada, outras mais contidas. Concordo com sua análise do coronel vivido por Woody Harrelson, é o melhor personagem humano na trilogia. Embora contenha alguns clichês, a clara inspiração em Apocalypse Now junto dá excelente atuação do ator elevam o personagem.

    Tecnicamente o filme é tão bom quanto os outros. O roteiro em alguns momentos tem algumas conveniências e até alguns momentos mais “forçados”, mas nada que atrapalhe. Filmaço.

    • Valeu. Pois é, o filme é bem pessoal mesmo, clichês à parte, os lados bons superam os ruins, e finalizou de um modo muito bom para uma futura trilogia. César se tornando uma espécie de Moisés, jamais vai ser esquecido na história símia e no futuro nenhum macaco se lembrará de que se tornaram inteligentes por causa de experiências dos humanos, que já serão feras sem consciência.

      Espero que na nova trilogia tragam o Serkis de volta…kkkkkkkk Pode muito bem fazer o Cornelius no futuro. Ou um dos orangotangos líderes da sociedade dos macacos.

      • Estephano

        O bom é que do jeito que ficou, da para fazer tanto uma continuação com pouco avanço no tempo, como um futuro distante. Vamos ver qual caminho irão tomar com a franquia, mas acho que por alguns anos não teremos muitas novidades.

        O Andy Serkis pode fazer qualquer coisa se ele quiser, mas já pensou se ele aparece em possíveis continuações como humano? Kkkk

        • Eu espero que façam num futuro distante, dois, três mil anos à frente, como no livro. Quero ver macacos pilotando aviões…rs O filme original foi obrigado a mostrar uma sociedade símia mais “primitiva” por questões orçamentárias; agora não vivem mais esse problema…rs

          O Andy Serkis poderia ser o Ulysse, o protagonista (que obviamente seria alterado para um americano ou inglês). Isso seria extremamente curioso e interessante.

          • Estephano

            Dependendo de quanto tempo no futuro for, da até para fazer uma Space Opera com macacos. Já pensou?

            Quem sabe não mantém a nacionalidade dele? Nos últimos anos as coisas estão mudando, embora eu ainda duvide disso.

  • Eu adorei a analogia entre César e Moisés que fez ao final do seu texto, meu amigo. Ambos foram, realmente, marcos, libertando seus povos da escravidão física e moral.

    “Haverá outros iguais a eles ao redor do mundo? É a pergunta que Maurice faz e que nem César é capaz de responder.”
    Esse pequeno diálogo ao longo do filme, já nos dá um panorama praticamente completo de toda atual situação do planeta terra, que viria, mais tarde, a se tronar o Planeta dos Macacos. Essa trilogia é impecável, e uma de suas maiores virtudes é não ter pressa em desenvolver as coisas.

    Eu também acho que “A Guerra” é só um pano de fundo para tudo o que acontece em tela. Como salientou, os macacos sendo feitos de escravos, com as atitudes dos humanos beirando a dos nazistas, foi algo chocante e bem desenvolvido. Gostei de saber que, assim como eu, adorou o Coronel. Vi inúmeras criticando o personagem, e o próprio Woody, por sua performance, alegando que ele tentou copiar o Marlon Brando e fazer o personagem ter mais ou menos os mesmos trejeitos do personagem inspirado em Apocalypse Now. Como citou, foi uma inspiração. As pessoas parecem que não entendem as coisas.

    Mais uma excelente crítica, @alordesh:disqus! Eu peço desculpas pela demora, mas só queria comentar quando realmente tivesse assistido o filme; deixei pra ler a crítica agora também, porque se lesse naquela época já não lembraria de mais nada. Agora falta assistir Thor 3 para comentarmos sobre também! kkkkkk

    • Valeu, meu amigo. Espero que daqui a alguns anos façam a nova trilogia mostrando os humanos que viajaram ao espaço caindo na Terra já dominada pelos macacos.

      • Se for seguir a mesma linha de qualidade dessa trilogia, eu super apoio.

  • Ghostface

    Teria passado aqui justamente no dia que assisti se na época minha internet estivesse boa, mas não deu.
    Crítica muito boa, Rodrigo! Vi esse filme no dia do meu aniversário e que presente, viu! Foi um final perfeito para uma trilogia soberba.

    • Valeu! Agora é esperar a próxima trilogia.