ATENÇÃO! Não leia esta história sem antes ler os capítulos anteriores.
Capítulo 1: Sórdido Desfecho.
Capítulo 2: Hegemonia Mística.
Capítulo 3: Audaciosos Profetas.
Capítulo 4: Zeloso Protetor.


O ÚLTIMO TROVÃO
Capítulo 5 – Antagonismo Divino


1

PEDRA DA ETERNIDADE. 2023 d.C.

O ar transmitia toda uma aura de subjugação divina. Em pensamentos mais complexos e incontroláveis, culpava seja lá quem fosse pelo descaminho que levou-o a tal direcionamento.
ㅤㅤ— Billy… — saiu abreviado em meio aos teus lábios rosados e carnudos. — Billy, volte aqui!
ㅤㅤAcompanhando os ruídos emitidos pelas ondas sonoras inteligíveis da garota, o eco de vários passos apressados ajudava a compor o ambiente de toda a localidade. Um estampido que carregava muito mais do que a rigidez de passos largos: carregava o condoimento e a carga da culpa. As minguadas tochas penduradas nos murados rochosos ajudavam, de maneira sucinta, a iluminar relativamente o interior de toda a estrutura, também conhecida como o provecto e famigerado lar dos antigos e possantes deuses-magos.
ㅤㅤ— Billy! — agora a sonoridade já parecia mais alta, crescendo em substância e volume com o derramar de cada saliva. — BILLY! 
ㅤㅤEle corria, completamente aos prantos, da presença de sua irmã, incansável a persegui-lo. De algum modo, não queria cessar os passos em decorrência de uma indescritível vergonha — dela e de si mesmo. Queria poder ter mantido a promessa, queria poder conseguir ver-se novamente como aquilo que todos o definiam: um herói.
Queria poder ter conseguido salvar teu amigo.
ㅤㅤ— Por favor, Billy… Pare! — Ela rogava, já em desespero e cansaço. Os passos cada vez mais vagarosos, o ar a adentrar em teus pulmões gradativamente mais escassos.
ㅤㅤAs lágrimas escorriam pelo rosto do rapaz em exagero, rápidas demais para serem contabilizadas. Tomavam cursos imprecisos, caminhando por sua tez albina com poucas rugas advindas da idade. Tardando, abusivas, a chegarem aos seus lábios, lugar que produziriam aquele gosto ácido e peculiar. Separavam-se como raios luminosos em direções completamente opostas, muito em decorrência do vento que as acometia. Os cursos diferentes refletiam, assim como o seu próprio estado emocional, todo um desligamento, uma divergência dos próprios ideais a respeito de si. Talvez, até, uma própria corrida contra tudo que imaginara de tua existencialidade.
ㅤㅤ— Por favor, Billy — ela deu um longo e altivo murmúrio — Por favor… — Suplicou por fim, já perdendo as forças. A mão querendo alcança-lo, inútil, já não mais eficiente em seu erguimento.
ㅤㅤE, finalmente, ele cessou a corrida. As pernas findando seus agitamentos de uma maneira tão apressada quanto a que ousava movimentá-las. Com a paralisação, levou tuas mãos na direção dos joelhos, apalpando sua calça jeans azul, e respirando de maneira assustadoramente acelerada. O ar da inspiração tão energético quanto o da expiração. A camiseta vermelha tomada por poças incrivelmente visíveis de suor, denotando um aspecto quase nojento.
ㅤㅤAgora, estabelecia-se como um grosseiro atleta despreparado; o suor a acompanhar a acidez que caía pelos cantos diminutos dos olhos. E, em sequência, inalou uma quantidade excessiva arejada. Uma respiração tão profunda que foi capaz de reabastecer os dois pulmões de maneira praticamente completa; talvez até conseguisse continuar a maratona desesperada, diferente de sua quase desfalecida irmã que o acompanhava.
ㅤㅤO garoto chorava em demasia, era totalmente insuficiente em controlar-se, permitindo que toda aquela acrimônia deixasse de pairar sobre tua face branca. Ele havia, há poucos instantes, deixado de ser o grande e famigerado Shazam. Uma alcunha que agora carregava com um peso significativo e brutal — talvez, em todos esses anos de combate ao crime e diversão, nunca sentisse a capa tão encorpada sobre suas costas; finalmente via que não carregava só a responsabilidade do mundo, mas também da vida de todos à sua volta.
ㅤㅤUma grande e inescrupulosa batalha havia acabado de findar-se. O maldoso Sr. Cérebro causara um grande tumulto no centro da cidade, que desencadeou uma das mais ferrenhas e violentas guerras que o magnífico Relâmpago Vermelho já fez-se presente. Billy, transformado no grande herói escarlate, ao lado de toda a Família Marvel e do Tigre Malhado, enfrentou irrefreavelmente o poderoso exército da criatura verde peçonhenta. Um pânico geral tomou conta da cidade em meio à sanguinolenta cruzada, gritos de desespero, incessantes, a acompanhar cada um dos golpes bruscos e mortais que todos os indivíduos travaram no virtuoso campo de batalha. E, embora tudo tenha sido controlado e, mais uma vez, retornado à sua devida ordem, um dos pequenos conflitos ocasionou a morte do Tigre Malhado.
ㅤㅤO animal, durante anos, permaneceu sendo sua única ligação familiar, seu único amigo — antes mesmo de todo o desenrolar adotivo acontecer; da chegada dos Vasquez, da interação afetiva com Freddy e, posteriormente, com todos os outros. Teu amor para com Malhado nunca havia sido algo a ser escondido, muito pelo contrário. Era completamente transparecido em cada ação, cada palavra bonita dita, cada olhar belo. Um sentimento completamente recíproco.
ㅤㅤAmaldiçoado Cérebro se tornara. Amaldiçoado para sempre seria.
ㅤㅤ— Billy… está tudo bem… — Disse Mary, agora já agachada, encostado uma das mãos no ombro de seu irmão adotivo.
ㅤㅤO garoto via a si próprio contemplar o solo liso, enquanto rendia-se completamente ao desespero e à aflição. Um medo que tomava conta de sua mente, um sentimento desolador a respeito do decorrer de sua própria vida. Sentado. Desolado. Entregue.
ㅤㅤ— Não adianta correr pra cá, longe de tudo e de todos — aproximou seu cocuruto no rumo da face empalidecida do rapaz. — Tem que encarar o que acabou de acontecer. Superar.
ㅤㅤO garoto soluçou, cada vez mais desolado.
ㅤㅤ— Malhado quis lutar. Ele sabia de todas as consequências e, ainda assim, quis encarar o problema ao lado da gente — suspirou ao falar, seus olhos castanhos contemplando a ausência de um olhar recíproco do irmão. — Ele nos ajudou a vencer. A salvar todas aquelas pessoas.
ㅤㅤ— Você não entende, Mary… — Batson deixou escapar em meio aos soluços.
ㅤㅤ— Eu entendo, Billy — ela piscou de maneira delonga, respirando fundo. — Eu sei muito bem como é perder alguém. Como é se desvincular da maneira mais cruel possível de quem você ama. E, por mais que possa não parecer, estou completamente desolada com a perda que tivemos hoje.
ㅤㅤ— Malh… — os lábios custavam a deixar que alguma onda inteligível saísse. — Malhado era um irmão. Parte da nossa família…
ㅤㅤ— Com certeza era.
ㅤㅤ— E eu jurei protegê-lo — as palavras caminharam tão trêmulas quanto sua respiração débil. — Jurei proteger cada um de vocês. E eu falhei. Mais uma vez, eu falhei.
ㅤㅤ— Billy… — A menina esforçou-se para bradar, logo em seguida, mas foi rapidamente interrompida.
ㅤㅤ— Me prometa uma coisa, Mary… — ele finalmente voltou suas feições no rumo da jovem, seus olhos descaídos contemplando o olhar igualmente triste de sua irmã. — Prometa que nunca mais vai se transformar. Prometa nunca mais usar os seus poderes.
ㅤㅤEla desviou as vistas, a cabeça caindo minimamente para o lado.
ㅤㅤ— Eu perdi Malhado e não quero perder mais um membro da minha família.
ㅤㅤ— Billy, eu… — Retornou os olhares para Batson, relutante.
ㅤㅤ— Mary, me prometa — ele ergueu uma de suas mãos e apalpou o rosto tristonho da garota. — Me prometa.
ㅤㅤE ela suspirou, profundamente. Divagou sobre tudo e, por fim, deixou que escapasse.
ㅤㅤ— Eu prometo.
ㅤㅤSabia que não era a solução para todos os males, tampouco a decisão mais sábia a ser tomada no momento. Mas prometeu. E faria de tudo para manter a promessa, fosse como fosse. E a promessa caminhou com ambos, até retornarem ao seu lar. Junto dela, todos os outros irmãos a fizeram, como uma forma conjunta de ajudar, de certa forma, Billy a superar tudo o que acontecera.
ㅤㅤSendo assim, só um Shazam existiria. E, caso perecesse diante de um inimigo, só um morreria.

2

ESTADOS UNIDOS. Filadélfia. Dias de hoje.

ㅤㅤAcariciava suas próprias mãos, em movimentos cíclicos. Um gestual revestido de pura vilania, numa mente abarrotada de ideias malucas e perigosas. Em teu íntimo, agonizava um sentimento incrivelmente soberbo de poder, de conquista. Estava prestes a realizar dois dos seus maiores sonhos, aqueles que cobiçara durante grande parte da sua vasta e patife existência.
ㅤㅤ— Está pronto, finalmente! — saiu da boca do cientista de jaleco braco. — Conseguimos!
ㅤㅤSilvana remoeu dores de um passado marcado, do qual consolidou-se irreversível. Durante sua busca implacável, visando provar ao mundo que não era louco, sucumbiu perante todos os males daquilo que mais amava: a magia. Em teu primeiro contato com ela, vislumbrou teu poder… e teu perigo — e este perigo era mortal, possuindo um forte e imponente nome.
ㅤㅤ— Você tem certeza de que isso dará certo, Silvana? — aquela indagação da criatura carregava toda uma aura de medo, embora fosse relutante em externalizá-lo. — Se desapontarmos Adão Negro, seremos os primeiros a morrer.
ㅤㅤE aquilo ecoou dentro do crânio careca e reluzente do velho cidadão, fazendo-o sorrir, relembrando de trágicos sentimentos. Possuía toda a certeza do mundo de que seu plano maléfico causaria efeitos astronômicos. Trabalhou em tudo aquilo durante meses, em projetos que desenvolveu ao longo de décadas. Estava tudo bem encaminhado, absolutamente nada poderia estar errado.
ㅤㅤ— Dará tudo certo — rogou, firme, sua oração direta denotando uma enorme certeza. — Chegou a hora da ciência e magia caminharem juntas! Faremos deste mundo um lugar melhor, Cérebro, ajudando a reorganizar a sociedade. Escravizando os infiéis, e governando os dignos.
ㅤㅤA minhoca cética observou-o com vistas demasiadamente preocupadas. O velho maluco já havia lhe dado inúmeras dores de cabeça no passado, quando, mesmo sem intenção, atrapalhou seus maléficos planos que visavam exterminar o Capitão Marvel.
ㅤㅤ— Talvez isso seja apenas um monte de merda que Adão Negro colocou em nossas mentes. O jeito que encontrou de nos manipular. — Vociferou, suas palavras carregando as preocupações de seus sentimentos.
ㅤㅤSilvana unicamente fitou a pequena minhoca, suas vistas pacatas carregando todo um ar de soberania e inteligência. Achava ridículo aquela criatura peçonhenta preocupar-se tanto com algo que já havia se encaminhado da melhor maneira possível.
ㅤㅤ— Não seja ingênuo. É o caminho que a humanidade deve seguir. Toda boa sociedade sempre encontra um jeito de recomeçar, de evoluir.
ㅤㅤDeixou, após isso, um gostoso riso maligno pairar sobre sua face marcada pela velhice. Suas rugas, em vez de experiência, denotavam a Cérebro todos os seus bem sucedidos fracassos.
ㅤㅤ— Seremos os reis do mundo, meu camarada. Consultores de renome de Adão Negro — suspirou, aliviado e satisfeito com o curso que as coisas haviam tomado. — Sempre quisemos acabar com Marvel, mas fomos burros o suficiente para jamais percebermos que só havia um jeito de derrotá-lo…
ㅤㅤFez uma curta pausa dramática, observando a minhoca completamente vidrada em teu discurso soberbo, e, por fim, a encarou de um modo intelectualmente álgido e calculista.
ㅤㅤ— Nos unindo! — Rogou, o impacto das fortes palavras atingindo-o com a força de um raio. Convencendo-o, de uma vez por todas, que realmente possuía razão. De que realmente estavam do lado certo.
ㅤㅤEntão, ainda mantendo sua aura de soberania, Silvana caminhou para uma outra ala do seu provecto laboratório sinistro, se distanciando, de segundo em segundo, da pequena criatura. Seus braços balançavam em felicidade, o contento de seu maquiavélico plano fazendo-o chacoalhar como uma exígua criança tola, cuja única responsabilidade era se divertir em meio à toda brincadeira — todavia, esta tal brincadeira causaria, ao final de tudo, danos irreversíveis para os cidadãos da Filadélfia; e era exatamente isso que o cientista maluco gostaria de acompanhar.
ㅤㅤ— Prepare o exército! O soro deverá ser aplicado em cada um dos soldados — disse, ainda aos pulos, já distante. — Está na hora do mundo conhecer a mais nova Sociedade Monstruosa do Mal!
ㅤㅤE perpetuou seu riso, enquanto Cérebro, já investido, não dizia uma só palavra. Mesmo confiante, gostaria de manter o ego, diferente de seu parceiro, em seu devido lugar.
ㅤㅤO grande exército de jacarés falantes e poderosos, agora com suas fisionomias e atitudes ainda mais modificadas, finalmente alcançariam o desejado e merecido poder, ao redor do líder definitivo que a população hia de conhecer. Forneceriam ao nobre e cruel Adão Negro uma ajuda maior na dominação, cárcere e extermínio da população — este último designado aos infiéis. Seriam os grandes detentores da alcunha de temor e pânico perante o povo terrestre, fazendo-os se submeterem a todos e quaisquer desejos do tirano superpoderoso.
ㅤㅤDepois daquele dia, o mundo jamais seria o mesmo.

3

ㅤㅤO senhor e a senhora Vasques chegaram cedo à cidade, trazidos pelos dois filhos adotivos que ainda residiam na mesma morada que eles: o fidedigno Pedro e a adorável Darla. Trilharam caminho, imediatamente ao chegarem, para a residência em que Mary, Billy, Eugene, Freddy e Richie viviam, malucos para matar a saudade que tanto acometia seus peitos durantes esses últimos anos. Na mais direta das realidades, saudade era pouco para definir o sentimento que andavam sentindo no que antecedeu o encontro. Eugene, por encontrar-se de folga do serviço naquele dia, obteve tempo suficiente para arrumar a casa e deixar tudo em ordem para receber seus amados parentes, enquanto o resto do pessoal cumpria suas devidas obrigações diárias.
ㅤㅤBilly, Freddy e Richie chegaram em casa por volta do meio dia, após singrarem praticamente em teleporte no que sucedeu seus trabalhos e escola, respectivamente. Por ser sábado, tudo pareceu se encaixar na mais perfeita conexão. Por volta de vinte minutos depois, Mary chegou e foi recepcionada pela grata surpresa que Billy havia preparado, levando a todas aquelas pessoas um show indescritível de emoções — a garota, inclusive, tomada pelo sentimentalismo, deixou várias lágrimas de felicidade escorrerem por teu albugíneo rosto. Todos aqueles beijos e abraços serviram para recarregar cada um que ali se encontrava, um combustível corporal que aparecia de tempos em tempos, e, falando no sentido familiar, era praticamente obrigatório que acontecesse mais vezes a cada curto espaço de tempo; lutariam para tornar isso uma realidade.
ㅤㅤFinalmente todos encontravam-se ali, reunidos após um longo período de afastamento, para apreciar o porvindouro almoço — comida japonesa encomendada por Eugene — em família planejado por Billy. Naquele mesmo dia, Mary, a filha adotiva mais velha da família Vasquez, completava — em ânimo soberbo — seus 37 anos, dizendo não ser possível receber um melhor e mais elaborado presente — isto rendeu momentos fofos e melosos com Billy, que, sinceramente, sempre achou um porre todo esse melodrama que sua irmã sempre arranjava um jeito de aprontar. E, para a alegria de todos, Mary decretou que durante aquela reunião, nenhum suco de caju seria preparado — dito isto, Freddy chegou a implorar, de joelhos, para os pais jamais partissem.
ㅤㅤRichie era admirado e paparicado pelos avós e tios, e fazia questão de não esconder toda sua empolgação e satisfação em decorrência de tal fato. E, naquela mesa redonda de conversas gostosas, tanto os irmãos, quanto os patriarcas, foram colocando o papo em dia, atualizando cada um a respeito de suas vidas e tudo que vinha acontecendo desde o último encontro que tiveram.
ㅤㅤDarla contou sobre seus namoros fracassados, sempre escondendo alguma bizarrice por trás dos términos; Pedro falou um pouco sobre o emprego de cuidador de idosos, que ajudava-o a pegar experiência para cuidar dos próprios genitores; e, como não podia ser diferente, todos deram ouvidos aos pais, que já bem velhinhos contaram histórias — repetidas e já decoradas por todos — de suas adolescências e vidas adultas, quebrando todo o paradigma. Tais contos narrados, durante muitas e muitas vezes, eram capazes de arrancar sorrisos sinceros de cada um dos filhos, e do pequeno netinho; não cansavam, nem cansariam, de escutá-las de novo e de novo ao longo dos anos.
ㅤㅤPara mais tarde, toda a família planejara passear, conhecer alguma localidade peculiar e bela, no intuito de comemorar, da maneira mais espalhafatosa possível, o aniversário de Mary. Por mais que a garota lutasse para convencê-los que não queria tomar para si essa atenção toda, todos esforçaram-se para dizer que gostariam de dar a ela um marcante e inesquecível aniversário — e, para a mais cruel das narrativas, era exatamente isto que acabaria ganhando. E o almoço prosseguiu, em uma alegria sem igual, com diálogos que arremetiam às provectas e divertidas conversas e aventuras heroicas. Risadas eram desperdiçadas em meio ao ar, assim como lembranças boas e saudáveis; até que… tudo, absolutamente tudo, começou a mudar drasticamente, de um instante para o outro.
ㅤㅤO recanto da sala de estar onde toda a família alimentava-se ficou escuro, bem no meio do dia. Um ar álgido e cortante pareceu imperar sobre o ambiente, fazendo cada fio de cabelo de seus corpos arrepiarem-se — e, pouco depois, descobririam que tal efeito alastrava-se por toda a cidade condenada. Sem que percebessem momentaneamente, o majestoso Sol desaparecia de pouco em pouco, levando consigo não só a luminosidade terrestre incidente, bem como todas as esperanças intrínsecas da fisicalidade dos humanos. Em menos de um único segundo, a grande estrela de fogo parecera ter sido roubada pelos deuses, quando a lua sobrepujou-se sobre ele, sem um tempo específico para finalizar tal encontro.
ㅤㅤCom o grande e horrendo eclipse, Billy levantou-se rápido da cadeira e correu de encontro à janela, preocupado demais para sequer entender toda aquela confusão. Não parecia ser um evento típico da natureza — nem os telejornais avisaram sobre essa reunião astral magnificente —, tampouco uma aleatoriedade. Parecia, realmente, que alguma coisa, ou alguém, havia interferido em algo. A vermelhidão que tomava conta do celeste parecia com um astuto e pavoroso banho de sangue em meio às belas paisagens locais.
ㅤㅤBatson, após a constatação e a reflexão que tomou conta de seus pensamentos, fitou imediatamente seus familiares, que também tentavam entender, da maneira mais apropriada possível, tudo o que acontecera.
ㅤㅤ— Adão Negro. Só pode ser ele — soltou, afoito. — Tenho que fazer alguma coisa.
ㅤㅤE travou, com passos rápidos, no rumo da porta de saída, sem se importar com o prosseguimento do almoço em família — naquele momento, tudo o que pensava era resolver logo o problema, antes que alguém se machucasse.
ㅤㅤ— Billy, espere — Freddy disse, em súbito — Eu não sei o que está acontecendo, mas não deve ser boa coisa. Não pretende fazer tudo sozinho, não é?
ㅤㅤO rapaz cessou seus passos, ao tempo que quase deixou escapar de sua boca rosada a Palavra Mágica.
ㅤㅤ— Pretendo e vou. Não quero que ninguém se machuque.
ㅤㅤOs cruéis e imensuravelmente vis acontecimentos do pretérito o atingiram em cheio, fazendo com que, em momento algum, ele exitasse perante o desejo do irmão.
ㅤㅤ— Mas, Billy… — Começou Eugene, que foi rapidamente interrompido.
ㅤㅤ— Vocês prometeram! — saiu com a rigidez de uma âncora a fincar o fundo do mar. — Anos atrás, prometeram que nunca mais pisariam em um campo de batalha.
ㅤㅤEle instantaneamente desviou os olhares, observando a feição de Mary, e analisando friamente suas vistas preocupadas.
ㅤㅤ— Vocês prometeram.
ㅤㅤE calou-os no átimo que sucedeu. Nem Pedro, nem Darla, nem Richie, e muito menos os senhores Vasquez, fariam-o mudar de opinião. No fundo, tudo o que teriam que fazer era aceitar a situação e torcer pelo sucesso de Billy. Ele, durante anos, havia demonstrado a todos ser um nobre guerreiro, e sobre tal alcunha não deixaria vencer-se tão facilmente.
ㅤㅤ— Eu amo vocês. Cada um de vocês. E darei minha vida, se necessário, para protegê-los. — Interpelou, em voz alta, num tom completamente heroico.
ㅤㅤE contemplou os olhos marejados a observá-lo.
ㅤㅤ— Eu voltarei logo — soltou um curto sorriso. — Me esperem para o jantar.
ㅤㅤE saiu o mais rápido que pôde, atravessando a porta como um raio, sem perceber que ninguém ali sorria em conjunto a ele. Assim que chegou ao térreo, proferiu a exclamação mágica e logo transformou-se no Relâmpago Vermelho, singrando rumo ao centro da cidade, onde os gritos de pavor pareciam ser mais altos. Pela janela esguia, toda a família acompanhou o borrão rubro a decolar, traduzindo uma reação quase indecifrável: estavam apáticos e temorosos, ao mesmo tempo.
ㅤㅤRichie vislumbrou o tio com lágrimas ácidas e pesadas a descer pelos cantos diminutos de suas viseiras, preocupado em demasia, talvez mais do que todos ali. Seu maior e mais desesperador medo era nunca mais poder observar seu grande herói com vida.

4

ㅤㅤPela televisão, os cidadãos da Filadélfia, e de todo o mundo, acompanharam um boletim de última hora se iniciar. Todos aqueles antenados e presos a algum tipo de tecnologia foram informados sobre o que acontecia naquele pobre Estado; as televisões do planeta, em conjunto, abordando com câmeras longínquas todo o desespero e clamor de misericórdia daquele pobre povo, enquanto as redes sociais mundo afora ferviam com informações concretas e sensacionalistas.
ㅤㅤ— Atenção, pessoal. Um grande tumulto se alastra pela cidade mais populosa da Pensilvânia — o jornalista de um dos mais assistidos telejornais dos Estados Unidos informou, assim como todos tomado por um desespero sem fim. — Ao que parece, o terrível Adão Negro é o causador de tudo.
ㅤㅤHaviam os preocupados, os descrentes, os que contavam piadas referente ao assunto e, como não poderia faltar, os grandes indivíduos esperançosos.
ㅤㅤ— Voltaremos em breve com mais informações.

5

ㅤㅤEntão, lá estavam eles… os grandes e poderosos antagonistas. Esbanjando a magia que corria por suas veias ao redor de suas fisicalidades, formando, com ela, toda uma aura devastadora, de um poderio imensurável. Finalmente encaravam-se, frente à frente, largados às suas mais íntimas e divinas vontades, que, para a grande mazela da população da Filadélfia, causaria um estrago imensurável.
ㅤㅤO Relâmpago Vermelho observava a tudo, atônito e pavoroso, enquanto o Relâmpago Negro proferia suas palavras de pavor em meio às câmeras embasbacadas, aos holofotes tão desejados, e aos olhares apavorados dos cidadãos daquela cidadela. Eis que, então, as pedras ao redor dos solados do Shazam não pareceram mais atender à gravidade, no instante que, racionalmente, esvoaçou de maneira bruta ao encontro da entidade das trevas. Ao se chocarem, ocasionaram um assustador e enorme baque, produzindo murmúrios de um majestoso e poderoso trovão — um dos últimos, advindos das entranhas da magia, que a humanidade contemplaria.
ㅤㅤOs famigerados heróis da Liga da Justiça não viriam ajudar. A maioria dos encapuzados encontrava-se aposentada, ou não possuíam tempo nem disposição para chegar à Pensilvânia, prestando toda e qualquer ajuda que o Capitão Marvel precisasse. Desejando ou não, ele estava sozinho naquela batalha; se perecesse, como desejado, pereceria sozinho; se vencesse, por outro lado, venceria ao lado de bilhões. A vida de todos os habitantes do planeta Terra andava em jogo. Como pessoas normais, a única coisa que poderiam fazer era rezar, esperando pelo melhor — como a família de Billy já fazia, naquele mesmo momento. A sina da humanidade ganharia novos contornos, independente da divindade carnal que, ao final de toda a batalha, perpetuasse de pé.
ㅤㅤJá singrando pelos céus, num rasto de destruição colossal, um colocava suas mãos sobre a face do outro, com a majoritária força que detinham. Igualavam-se a um potente e perigoso cometa sem rumo, esbanjando pela calda, ao invés de fogo, faíscas mágicas mortais, vagando pela imensidão avermelhada celeste, agora desprovida da luz flamejante que recorrentemente os banhava. Sem a energia de seus raios, sem a esperança por ela dada. E, dado o combate de deuses, nenhuma mísera intervenção humana poderia acontecer naqueles aterradores instantes, mesmo que assim os homens desejassem. Como na maioria das vezes, as criações estavam à mercê de algo muito maior do que suas míseras mentes poderiam perceber, ou mesmo compreender em totalidade.
ㅤㅤO eclipse não terminaria tão cedo, como se o Sol e a Lua tivessem unido seus corpos celestes para todo o sempre, parados no espaço e tempo, impossibilitando que a esperança novamente reinasse no mundo dos vivos. E, já espalhados em meio às ruas da Filadélfia, o perigoso exército que acompanhava Adão Negro, controlados por Silvana e Cérebro do laboratório, devoravam, como planejado, os infiéis, alimentando-se do horror dos inocentes, e produzindo, com isto, uma maré aterrorizante em meio ao lamaceiro das encruzilhadas; rios de sangue caminhavam em meio às sarjetas, tornavam-se cachoeiras vermelhas ao caírem no esgoto, e cursavam levando a seiva rubra ao seu lugar de origem: às profundezas da Terra. Do pó ao pó.

6

ㅤㅤ— Fiquei sabendo que existem espécies de jacarés gigantes por lá! Arrancando as cabeças das pessoas — o jornalista se pronunciou, rodeado por outros profissionais do ramo, no meio de uma transmissão ao vivo para todos os Estados Unidos da América. — Um pânico completo… desolador. Deus proteja aqueles cidadãos.
ㅤㅤ— Jacarés gigantes? — o comentário seguiu, com um ar de pavor. — Fiquei sabendo de coisa pior.
ㅤㅤA audiência era dúbia, hora nos noticiários, hora nos comentários descartáveis da maioria daqueles jornalistas.
ㅤㅤ— Onde está a Liga da Justiça quando mais precisamos dela? — saiu da boca de um outro, que olhava direto para a câmera, como um grande e imponente protesto. — Pelo visto estão ocupados demais esquentando a porra do sofá que estão sentados.
ㅤㅤE veio, a seguir, um ar de concordância da maioria; não só dos que lá estavam, bem como, também, dos que assistiam.
ㅤㅤ— O desgraçado do Batman continua desaparecido há dez anos! — vociferou um quarto profissional, abanando suas mãos em didática; esforçava-se em demasia para repreender todos esses seres, dos quais nutria tanto ódio. — Ele tem contato com esses… deuses… deveria ser o primeiro a fazer alguma coisa.
ㅤㅤE foi aplaudido em sobejo pela platéia que acompanhava tudo, presencialmente, no recanto midiático onde a transmissão era efetuada.
ㅤㅤ— Deuses… — outro jornalista deixou soltar, seguido uma breve risada dramática. — Esta é a maior baboseira que já escutei na vida!
ㅤㅤE mais aplausos aconteceram, tomados de uma raiva imensurável. E isso deu aceitação suficiente para que o mesmo continuasse.
ㅤㅤ— Esses seres nunca foram deuses! Nunca sequer foram homens ou heróis de verdade. Estão aqui só para atrapalhar nossas vidas.
ㅤㅤ— É isso aí! — Um membro da plateia gritou, ao fundo, e foi acompanhado pelos demais.
ㅤㅤ— Então não vamos considerar tudo o que fizeram até hoje? — calado, até o momento, aquele noticiarista não havia conseguido deixar de externalizar toda sua adoração pelos mocinhos de outrora; e, ao fazê-lo, sentiu-se demasiadamente deslocado. — Os atos heroicos, as diversas vezes que salvaram a Terra… não se lembram das invasões alienígenas? Do Sol explodindo?
ㅤㅤE foi interrompido por uma gritaria que desordenou todo o controle que a emissora detinha no local.
ㅤㅤ— Cale a boca! — Veio em uníssono.
ㅤㅤEra um sentimentos de guerra apoderando-se dos demais.
ㅤㅤ— As destruições provocadas por esses patifes custaram inúmeras vidas. Na história, mais mataram do que salvaram! — Retrucou aquele primeiro jornalista.
ㅤㅤE foi ovacionado em overdose. Talvez, no fundo, até concordasse com o sujeito, mas teria… teria que angariar as atenções para si. Precisava cair no gosto do público, visto que seu programa televisivo andava perdendo audiência naqueles últimos meses.
ㅤㅤ— Você está louco, meu camarada. — Manteve firme o discurso de defesa, mesmo que isso pudesse custar a ele sua carreira. Sentia-se em dívida com seus tão amados heróis.
ㅤㅤ— ELES trouxeram esse pavor à Terra! — voltou a alterar seu tom de voz, agora mais agressivo. — Consertaram a cagada que eles mesmo iniciaram. Não fizeram mais que suas obrigações.
ㅤㅤE mais aplausos aconteceram. No fundo, era exatamente isto que Adão Negro tanto desejava. Queria ver a humanidade sucumbir, antes de tudo, de dentro pra fora. Queria ver desordem, notar intrigas… angariar seguidores, crédulos nos papéis ruins dos heróis perante à sociedade.
ㅤㅤ— A verdade, senhores… — um outro participante quebrou o clima tenso — É que tudo vem se perdendo desde a morte do Superman. Ninguém nunca conseguiu substituí-lo à altura — e suspirou, mesmo que, de um certo modo, defendesse os ideais do homem contrariado. — Não sei explicar, mas… sem ele, tudo começou a desandar.
ㅤㅤSubsequentemente ao teu brado, não houve gritaria, nem ofensas. Houve uma calada de almas rancorosas, relembrando dos provectos tempos de felicidade, antes do desmoronamento que tomou conta de todas as classes. E viram a si próprios retornando para a angústia, num caminho sem volta.
ㅤㅤ— Espero que, após tudo isso se resolver, caso venha a se resolver, o presidente tome alguma atitude — continuou, falando baixo, mas ainda revoltado. — Chega de termos que nos submetermos a tais acontecimentos. Chega de falsos deuses em nosso mundo.
ㅤㅤE a platéia perpetuou-se calada, assim como grande parte da população mundial que assistia ou acompanhava os eventos catastróficos que aconteciam. Antenadas, estavam tendo suas opiniões moldadas ou consolidadas.
ㅤㅤE, quase que em súbito, todos os religiosos levaram a mão direita ao peito, fazendo o sinal da cruz.
ㅤㅤ— Que Deus tenha piedade de nossas almas. — Falaram em conjunto.
ㅤㅤE esperaram… esperaram, pois era a única que mostravam-se capazes de fazer.

7

ㅤㅤShazam, rodopiando esvoaçante pela aragem local, foi acertado em cheio por um pulso azul, tremendamente energizado, advindo de Adão Negro, e afastou-se em defesa. A dor instantânea que sentira fez sangue ser jorrado pelos teus lábios rosados, que acumulava-se de modo intenso em seu interior — poderia aquele, talvez, ser um pequeno indício de uma hemorragia fortemente mortal. Sequencialmente, ambos voltaram a colidir seus corpos de maneira busca e possante, retornando, com a caminhada destrutiva aérea, para o mesmo lugar de onde partiram: as grandes ruas do centro da cidade. Caíram robustos contra o concreto firme, produzindo mais e mais estragos. As pessoas que ainda residiam-se no local — a maioria já partira em meio ao trânsito engarrafado — gritaram em pavor e apressaram ainda mais suas partidas. Alguns apenas recolhiam de suas moradas — ou caminhavam rumo a elas — o necessário para uma viagem sem volta; outros acompanhavam, curiosos, o rumo daquela gloriosa guerra.
ㅤㅤCom o choque tremendo, uma corpulenta cratera foi concebida nas vias já paralisadas — e aquele maldito instante começou a convencer Billy de que seu terrível pesadelo poderia ser um verdadeiro presságio. Pondo-se de pé num átimo, as duas divindades místicas voltaram a se bater, cada vez mais arduamente, machucando um ao outro de maneiras seguidamente mais eficazes. Seus deteriorados corpos já não mais se encontravam com a totalidade de suas disposições e poderios. Muito pelo contrário: quanto mais o tempo passava, e os golpes eram proferidos, mais viam, um ao outro, demonstrando suas mais graves fraquezas internas, antes imperceptíveis; mais conseguiam prever seus próximos golpes e preparar-se para atacar de maneira mais inteligente — isto não dava, na maior das verdades, muitas vantagens a nenhum deles, já que conseguiam observar um ao outro de mesmo modo.
ㅤㅤ— Você diz que luta pela humanidade… — iniciou, incansavelmente produzindo suas patadas robustas — Anseia acudir suas miseráveis vidas, mas não vê o que está escancarado aos olhos dos mais inteligentes…
ㅤㅤE perpetuou a socar o Relâmpago Vermelho, que enfraquecia mais a cada milésimo que passava.
ㅤㅤ— Só há um jeito de salvá-los… acabando com eles! — e bufou, ágil e poderoso. — Recomeçando apenas com os submissos e respeitosos. É isso que irei fazer… cumprirei a primeira missão incumbida a mim. Serei o salvador, aquele que os livrará de todo o pecado que carregam.
ㅤㅤShazam fitou-o com o mesmo olhar de ódio que não findara desde seu avistamento. E repudiou-o… repudiava-o cada vez mais, refletindo sobre a possibilidade de existir uma parcela de sentimento vivendo firme no peito de seu antagonista, não crendo em sua existência.
ㅤㅤ— Cale essa droga de boca, seu estúpido — rogou, num timbre de voz super elevado. — Você está tão cego que jamais seria capaz de analisar essa tua atitude patética.
ㅤㅤAdão Negro sorriu, com um tom elevado de jurisprudência, e os socos continuaram.
ㅤㅤ— Ainda dá tempo de se juntar a mim, garoto — suspirou, sugando de cada partícula aérea algum curto oxigênio para abastecer seus pulmões exaustos. — Pense se governássemos tudo isto juntos? Seríamos seus reis. Seus deuses!
ㅤㅤ— Por que ainda me chama de garoto, seu verme? — Permitiu que escapasse, um pouco zonzo.
ㅤㅤE, em teu íntimo, sentiu algo vasto, crescente, uma chama forte a tomar conta de sua fisicalidade. Uma força… uma força maligna, jamais antes vista. O ódio.
ㅤㅤ— Eu te matarei, nem que seja a última coisa que eu faça! — Cuspiu no chão, em completo nojo. O cuspe banhando-se totalmente rubro.
ㅤㅤE o ser sombrio voltou a sorrir, como de costume. Desacreditando, de acordo com seus próprios ideais, da tolice inestimável de seu opositor. Independente do que o Capitão Marvel pensasse, Adão Negro em tempo algum mudaria de ideia; tinha ido longe demais com teu plano dominador — e, mesmo se não tivesse ido, jamais demonstraria ser uma alma manipulatória. Passou longe de temer qualquer uma daquelas sílabas e, em sua mente grotesca e maldosa — por natureza —, possuía a certeza de que apenas um deus sairia dali com vida, e, fosse como fosse, aquele embate colossal definiria o curso que o pobre povo da Terra percorreria pelo resto de suas pacatas e crápulas vidas. E, não era tão difícil imaginar todas as cenas, nadando alegremente por sua cabeça, quase palpáveis. Tudo estava… tão… perto.
ㅤㅤ— Você não usa uma auréola, garoto, mas foi escolhido para salvar a Terra de algo muito pior do que a Morte — suas feições já não mais carregavam o tom alegre de outrora. — Esta não é a maior de todas as piadas?
ㅤㅤE o Trovão Humano observou-o abrir teus braços, como uma majestosa divindade.
ㅤㅤ— O destino de toda a humanidade depende de dois monstros vis como nós.
ㅤㅤVoltou a posicionar-se em sentido de batalha. Os punhos, serrados, erguido na pose de um graúdo e invencível lutador. Seus olhares praticamente chamavam seu oponente para briga.
ㅤㅤ— O único monstro aqui é você, seu estúpido! — e o Relâmpago Vermelho fez o mesmo. — Já que se diz tão bom, vamos ver se consegue me derrubar.
ㅤㅤE, então, o ser sombrio voltou a sorrir, agora de maneira ainda mais volumosa. E, logo após, novamente as potestades voltaram a encontrar seus físicos, partindo para cima um do outro como famintos e furiosos lutadores em um espaçoso ringue. Trocaram socos ainda mais poderosos, caminhando cada vez mais velozes rumo às suas faces, aos seus peitos e seus braços, provocando um baque trêmulo atrás do outro. A batalha mortal e destrutiva se perpetuou, operante e perigosa, devastando boa parte do que sobrara daquele recanto, deixando para trás todo um rastro indescritível de destruição.
ㅤㅤNo passado, alguns dos seres mais poderosos que já passaram pela Terra sucumbiram perante seus maiores inimigos, e, agora, ao que tudo indicara, não seria diferente. Talvez fosse a grande e aguardada hora da divindade acerejada fazer o mesmo, provando para a maioria que, como Superman, ou todos os outros, mostrava-se incapaz de ser o grande protetor humanitário de sua era.
ㅤㅤPor mais cruel que pudesse parecer, todas as expectativas da humanidade estavam depositadas em uma singular pessoa, a única capaz de deter o vilanesco e temido Adão Negro. E, a cada golpe recebido, a cada fraquejada exibida pelos monitores das tevês, e a cada seiva derrubada sobre seu uniforme os crentes deixavam que seus sentimentos e desejos por dias melhores lhes deixassem. Permitiam que todos os resquícios de esperança se esvaíssem, dando lugar a tudo o que o maléfico ser desejava: o medo, a impotência e, por fim, a submissão.
ㅤㅤComo excelentíssimos boxeadores, já exaustos — um mais que o outro —, continuaram na tentativa de despejar golpes vigorosos, cada vez mais desesperados, chocando-se em demasia força de vontade. Representavam a ânsia interior de seus ideais, num último e explosivo esforço. Ambos sabiam… sabiam que, no futuro, as testemunhas remanescentes se lembrariam da potência daqueles socos, de como sentiram, no ar, as ondas de choque se manifestarem; enquanto outros lembrariam da imensa Cratera da Morte, uma majestosa cova a céu aberto, apenas esperando o primeiro a tombar, o primeiro a ser enterrado.
ㅤㅤE, depois de ser alvejado por uma grandiloquente pancada na cabeça, Shazam tombou. Desacordou-se pela magnificente superioridade de seu cruel algoz. E o Relâmpago Negro perpetuou-se de pé, soberano. Finalmente atingindo seu tão aguardado objetivo de vida. Havia o vencido. Havia o derrotado. Havia, ao que tudo indicava, mandado sua alma para o mundo dos mortos.
ㅤㅤSuspirou, supremo demais para não imaginar, exponencialmente, seus pensamentos palpáveis a se concretizarem. Sua consciência era transparente, admirável. E finalmente conseguiu erguer sua cabeça em vitória, fitando o horizonte, sabendo, inclusive, que também era flagrado pelas câmeras.
ㅤㅤ— Vocês assistiram, não foi? — começou, o riso cada vez mais imperante em sua face parda. — Testemunharam como verdadeiros deuses guerreiam.
ㅤㅤVirou todo o corpo, para que fosse completamente contemplado e agraciado.
ㅤㅤ— Viram o que acontece com os tolos que ousam me derrubar? — ansiou, magnanimamente. — Acabam sendo derrubados!
ㅤㅤCom o sangue quente a percorrer suas veias saltadas, juntou todas as forças que conseguiu e, sem pestanejo, lançou à face do nobre herói um possante chute, deslocando com uma imensa facilidade teu maxilar desleixado. O barulho de tal golpe final emanou um pomposo eco, o estrépito atingindo fortemente cada um dos seres que acompanhavam tal acontecimento. Ainda aproveitando os suculentos segundo, foi álgido suficiente para cuspir sobre o corpo do dificultoso adversário, externalizando toda sua prevalência. Seu olhar maléfico agora voltando a pairar sobre as vistas das pobres pessoas que ainda assistiam a tudo, no local.
ㅤㅤ— Agora… ajoelhem-se! — soltou, com um ego soberbo. — Pois eu sou seu novo líder.
ㅤㅤSem maiores alardes, ou ameaças, a população, enfim, se rendeu. Começaram, cidadão por cidadão, a colocar seus joelhos contra o chão, em adoração forçada. Os homens e mulheres de todo mundo acompanharam Shazam cair, e agora sabiam do grandioso risco de se opor ao incontrolável Adão Negro. Sua família e amigos, seus seguidores e fãs… de mãos atadas, igualmente entregues.
ㅤㅤO mundo encontrava-se, em sua totalidade, seu um protetor. Os indivíduos, expostos, desprovidos de um salvador. Completamente subalternos ao Demônio… e suas mais atrozes vontades.
ㅤㅤUma nova era estava prestes a começar.

Continua…


Inspirado nos personagens da DC Comics.
Shazam foi criado por Bill Parker e C. C. Beck.

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Sobre o Autor

Victor Dourado

Apaixonado por quadrinhos, cinema e literatura. Estudante de Matemática e autor nas horas vagas. Posso também ser considerado como um antigo explorador espacial, portador do Jipe intergaláctico que fez o Percurso de Kessel em menos de 11 parsecs — chupa, Han Solo!

  • AH NÃO JIPEIRO QUANDO O HYPE TAVA SAINDO DO PLANETA (JUNTO COM A OST 10/10 NO AUGE) VEM ESSE CONTINUA TU QUER ME DEIXAR DOIDO?????????????? Aliás perdão a demora os dias tão corridos não tive tempo pra nada nessa semana. Vou tentar acompanhar periodicamente os posts de novo, espero conseguir. Inclusive, não tem uma maneira de receber os posts novos do site via e-mail? No mais, parabéns por mais um excelente texto, que venham os feels do capítulo final (tô sentindo algo no nível Reino do Amanhã)

    • kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
      Porra, mano! kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

      Sem problema, meu amigo. E você não demorou nada, acredite! Tá meio corrido por aqui também, então te entendo completamente. Não sei se tem como receber aviso de posts novos pelo e-mail. Vou ver com o Rodrigo e te falo.

      Muito obrigado, meu amigo. Espero que o capítulo final não te decepcione.
      Aliás, não sei se percebeu, mas os nomes de cada capítulo estão formando uma “coisinha” a mais. Fazem parte de uma ideia antiga que tive, antes de começar a escrever os textos… kkkkkkk

      • CARALHO EU NÃO TINHA ME TOCADO DESSA TU É MUITO SAFADO MESMO HEAUEAHEUAEHAEUAHEAUEHEUH Tenho certeza que não irei me decepcionar, se continuar do jeito que tá vou amar e muito

        • Se liga nas letras iniciais de cada subtítulo… kkkkkkkkkkkkk

          • Spoiler do próximo capítulo: já sei que começa com M EHAUHEAUEHAU

    • Black, o Rodrigo colocou, logo abaixo da barra de pesquisa, um campo para colocar seu e-mail e receber as notificações de novos posts! Aí, sempre que sair coisa nova, será notificado.

      • Já me inscrevi, valeu aos dois, agora fica melhor pra mim

  • Aragorn II, King of Gondor

    Hahaha…. a ansiedade para o próximo capítulo é de MAIS DE OITO MIL!!

    Ótimo post… aguardo ansiosamente!

    • Falei pro Black ali em baixo… Agora já sabe o motivo de cada nome dos capítulos, né?
      O que achou da ideia? kkkkkk

      Muito obrigado, seu cagão!

      • Aragorn II, King of Gondor

        GENIAL! Kkkkkkk… imaginando o que vai rolar com esse ”M”, mas achei foda!!

        Hm… ”Misticismo”… ”Morte”… será?

  • Agente Smith

    Jipeiro, Jipeiro, tá foda pra caralho meu amigo! Tinha certeza que sairia outra história ainda mais foda. Eu sabia que a porra ficaria ainda mais séria, eu sabia! kkkkkkk. E não deu pra ler a história sem essa música tema do Zod, ficou ainda mais real na minha mente. Um detalhezinho que percebi: “enquanto as redes sociais pelo mundo a fora só falavam disso também. Haviam os preocupados e descrentes, HAVIAM OS QUE ESTAVAM CONTANDO PIADAS SOBRE O ASSUNTO…”, certamente eram brasileiros os que estavam zoando com isso kkkkkkk. Mas voltando ao assunto, gostei muito desse novo capítulo, estou ainda mais ansioso pra ler mais um destes capítulos. Muito obrigado meu amigo por escrever verdadeiras obras de arte!

    • SÉRIO? <3
      Muito obrigado, mano! Essa música do Zod é foda demais, e nem preciso falar que esse final foi muito inspirado em MoS, né? kkkkkkk

      Os Brs estão em todos os lugares… kkkkkkkkkkk
      Mano, quero saber que dia VOCÊ vai começar a contar suas histórias aqui. Não vejo a hora de lê-las!

      • Agente Smith

        Claro que falo sério <3
        A verdade é: Qual das músicas de MoS não é foda? kkkkkk, nem precisa kkkkkk, e foi graças a essa inspiração que fez tudo ficar mais palpável e mais real na minha mente, eu amo de coração histórias que conseguem se materializar na imaginação, e a sua fez isso!

        Os Brs na história deveriam estar fazendo montagens do Shazam e o Adão Negro com o meme dos sósias do Vin Diesel kkkkkk.
        UM DIA, meu amigo, eu ainda preciso melhorar muito minha forma de escrevê-las, corrigir alguns erros nelas, desenvolver melhor, e tenho em quem me inspirar (Os mitos que já citei naquela vez e VOCÊ!), uma vontade que tenho é de escrever histórias com você, seria uma honra imensa, você é o Jack Kirby da nossa geração, talentos como você não podem ficar no anonimato!
        Você devia, bem, pode parecer muita viagem minha, mas você podia tentar falar com algum pessoal ligado a DC no Brasil, e pedir pra eles publicarem esse seu arco, seria incrível! Pode ser uma baita viajada minha, mas vale a pena tentar! Mesmo se não fosse quadrinho, seria ótimo uma filme animado, esse arco seu tem tudo pra ser um dos grandes épicos da história da DC! Com os traços de algum desenhista como o Alex Ross então… Caralho DC, contrata logo o Jipeiro!!!

        • Materializar a imaginação é difícil, mas é recompensador quando conseguimos kkkkk
          Meu amigo, revise, e quando tiver a certeza que está bom, fale comigo. Honra seria ver você publicando suas histórias aqui <3

          Quando eu concebi essa história, lá no início do ano, eu fiquei pensando… "E se eu fosse em uma Comic-Con e entregasse esse roteiro nas mãos do Ivan Reis?". Bem, quem sabe um dia. Sem falar que o Ivan é meu desenhista predileto. Já pensou ELE DESENHANDO ISSO? Seria um sonho.

          Meu amigo, muito obrigado pelos elogios. Sério, eu fico até sem graça kkkkk <3

      • Agente Smith