Fantasiando sobre suicídio outra vez
pensei em ligar praquele número lá,
não sei.
Imaginava morrer num campo de tulipas ou numa exibição de arte, ou ao ar livre numa noite estrelada. Imaginava muitas coisas.
Eu, tão ínfimo, sendo engolido por um azul infinito,
azul puro, sublime e infinito.
E então os operários cantariam
e os amantes cantariam
e os filhos primeiros cantariam:
“é o fim, é o fim
da longa jornada
adeus, camarada
adeus!”
pensei em ligar praquele número,
ou pra alguém e dizer “ei eu meio que tô numa fase merda”
ou dizer “ei você me deixou assim”
ou
“ei, desculpa por tudo”.
Duas bitucas de cigarro sobre a mesa,
Tchaikovsky tocando,
acabou.
Não é tão ruim assim.

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Sobre o Autor

Hugo P. Crepaldi

Escritor de tudo o que vaga pela minha mente. Fundador/criador do extinto Clube da Insônia (o verdadeiro) e apaixonado por gastronomia, tatuagens, literatura e música.

  • Que soco no estômago.
    Muito bom, Hugo; ao mesmo tempo que carrega toda uma aura melancólica (acredito que todos os seus textos sejam assim).
    Medonho até, em certos aspectos. Gostei da forma como relacionou os “possíveis culpados”. E aí fica a pergunta: já ligou “para aquele número lá”?
    Também já sofri muito com depressão, mas jamais o fiz. Nunca o vi como a solução dos meus problemas.

    • Edgar Allan Poe

      Fico feliz que tenha gostado, e as ideias dos textos são exatamente essas, causar esse desconforto mesmo do “soco”.
      E não, nunca liguei no número. Tentei uma vez, mas na época não tinha na minha região e também não dava pra ligar pelo celular (hoje é para o Brasil inteiro e funciona do celular também). Jamais o vi como solução, mas para o desesperado, qualquer coisa vale. E eu queria ver como era, quem sabe não me ajudava de verdade.