Residência dos Harris

Terça-feira. 6 horas da manhã.

Toca o despertador. Ajustado para a função rádio. Sintonizado em uma estação que só toca músicas dos anos 80. Heat Of The Moment, do Ásia, é a faixa em reprodução.

It’s the heeeeeeeeeat of the moment…”

Ele acorda. Seu nome é Bruce Harris. Tem super-força, super-velocidade, pode voar e respirar no espaço. Utiliza o codinome Homem-Trovão. Trabalha como super-herói.

Deitada ao seu lado, está sua esposa, que também acorda. Seu nome é Isabelle Harris. Não tem super-poderes. Trabalha com contabilidade.

– Bom dia, amor.

– Bom dia.

Sonolento, Bruce se levanta.

Distraído, acaba tropeçando em um palhaço de brinquedo que estava em pé ao lado de sua cama.

– Mas que porcaria é essa? – perguntou, se abaixando para pegar aquele brinquedo. – Nunca vi essa merda antes.

– Deve ser um dos brinquedos do Nick. – respondeu sua esposa, indiferente.

– Nós definitivamente não compramos isso, e não me lembro de alguém ter dado isso de presente pra ele. Que troço mais horroroso, parece até aquele palhacinho maligno do Poltergeist.

– Acabou de acordar e já está estressado?

– Não estou estressado, é só que… – abrindo um pequeno sorriso, continuou – por um instante me lembrei do Palhaçobô, um vilão que prendi uns anos atrás, lembra dele? Era um palhaço, com uns apetrechos tecnológicos bizarros, que tinha dois robôs como capangas que parecia que competiam pra ver quem era mais retardado. Vilãozinho ridículo, queria depositar um caminhão de gelatina em pó no reservatório da cidade, e não tinha a menor idéia do que significa “discrição”, deixou um monte de pistas, acho que levei menos de dez minutos pra encontrá-lo e pará-lo.

Terminada a conversa matinal, Bruce foi se arrumar para o trabalho.

Tomou um banho. Vestiu seu collant amarelo e azul. Tomou seu café da manhã junto com sua esposa e seu filho. Escovou os dentes.

O ônibus escolar chegou. O pequeno Nick se despediu de seus pais e embarcou. Isabelle e Bruce se despediram com um beijo. Ela entrou em seu carro e se dirigiu ao escritório onde trabalha. Ele, bem… foi voando para a Central dos Super-Heróis.

A Central dos Super-Heróis 

O Homem-Trovão chegou na Central dos Super-Heróis para se apresentar e iniciar mais um dia de trabalho.

Em sua direção, vinha Frederick Howerfifiz, o super-herói conhecido pelo alter-ego Gavião Noturno (o que não fazia o menor sentido, visto que seu turno era durante o dia, mas acontece que “Gavião Diurno” não tinha o mesmo impacto), com sua careca reluzente e seu bigodão penteado, ele ostentava um sorriso que ia de orelha a orelha.

Bruce pensou em apenas ignorá-lo e seguir adiante, mas foi interceptado antes que pudesse pôr seu plano em ação.

– Eu inventei uma piada ÓTIMA Homem-Trovão, quer ouvir?

Sabendo que se tratava de uma pergunta retórica e que não tinha escolha, consentiu.

– Sabe por que o palhaço foi pro hospital?

Bruce apenas o encarou, esperando que o bobalhão respondesse logo, mas percebeu que ele não o faria enquanto não mordesse a isca. Com pressa e sem paciência, resolveu cooperar para acabar logo com aquilo:

– Não, não sei. Por que o palhaço foi pro hospital?

Abrindo um sorriso gigantesco, Howerfifiz concluiu sua piada, que veio seguida por uma gargalhada histérica:

– PORQUE ELE TAVA COM O NARIZ VERMELHO!!!!! AHAHAHAHAHAHAHA.

“Finalmente uma piada pior do que aquela da galinha atravessando a rua”, pensou Bruce, aliviado por estar liberado para prosseguir.

Depois de concluída toda a burocracia, o Homem-Trovão saiu para patrulhar.

As ruas de Miracle City

O Homem-Trovão sobrevoava pelo perímetro que abrangia toda a sua jurisdição. Estava tudo muito calmo.

– Olá Homem-Trovão! – disse uma voz desconhecida.

Ao se virar para ver quem o chamava, Bruce viu que se tratava de um homem que tinha várias laranjas penduradas em suas roupas.

– Olá… erh… Homem-Laranja!

– Não são laranjas, são tangerinas. – respondeu o peculiar cidadão.

Bruce se sentiu dividido. Por um lado, queria perguntar o motivo daquelas tangerinas. Por outro, não queria prolongar muito a conversa com aquele esquisitão.

Por fim, a curiosidade falou mais alto.

– Ah, eu uso isso pra me defender dos palhaços, tangerinas mexem com o equilíbrio deles. – respondeu o “Homem-Tangerina”.

– Ah… – Constrangido, o Homem-Trovão apenas sorriu, acenou e foi embora, arrependido de ter perguntado. “Só tem louco nessa cidade”, pensou.

E o cara não parou:

– AH, VOCÊ NÃO ACREDITA, NÃO É? POIS SAIBA QUE OS PALHAÇOS ESTÃO PLANEJANDO NOS DEVORAR! ELES QUEREM SER A ESPÉCIE DOMINANTE DO PLANETA! E VÃO DESTRUIR LEGAL! DESTRUIR LEGAL!!!!!

Fora isso, o restante do período matutino foi tranquilo.

Ao meio-dia, nosso heroico protagonista entrou em horário de almoço. Comeu sua marmita, descansou um pouco, e depois retornou à sua ronda.

O período da tarde estava tão calmo quanto o da manhã.

Quando estava próximo de terminar seu expediente, o Homem-Trovão finalmente se deparou com uma ameaça.

Um super-vilão vestido todo de verde estava montando uma mega-arma no meio da movimentada Avenida Morrison.

– Parado! – Bradou o super-herói.

O vilão se assustou e acabou disparando a arma, que ainda não estava posicionada para onde deveria apontar.

Um grande raio laser foi disparado em direção a um enorme prédio comercial, o destruindo na hora e matando várias pessoas inocentes no processo.

O Homem-Trovão ficou perplexo: “O que foi que eu fiz?”, pensou.

Ao retornar para si e olhar para frente, foi surpreendido com um violento soco em sua cara.

O esverdeado vilão transbordava energia. Parecia algo saído direto de um anime.

Após derrubar o herói, o meliante não perdeu tempo. Logo foi pra cima dele e tornou a golpeá-lo, desferindo ataques cada vez mais fortes.

Após deixar o Homem-Trovão nocauteado e sangrando, o criminoso voou para longe, desaparecendo em direção aos céus.

Imediatamente, um gadget no traje de Bruce emitiu um pedido de socorro.

Os reforços chegaram, mas infelizmente já era tarde demais.

Os paramédicos o colocaram na ambulância e o levaram às pressas para o hospital.

Hospital St. James

Os médicos da ala de emergências levavam o corpo desacordado do corajoso super-herói em uma maca.

Na sala de operações, tentavam a todo custo reanimá-lo. Sem sucesso.

Seus sinais vitais iam caindo. E caindo. Caindo…

Residência dos Harris

Terça-feira. 6 horas da manhã.

Toca o despertador. Ajustado para a função rádio. Sintonizado em uma estação que só toca músicas dos anos 80. Heat Of The Moment, do Ásia, é a faixa em reprodução.

It’s the heeeeeeeeeat of the moment…”

Sim. Ontem foi terça-feira, mas hoje é terça-feira de novo.

CONTINUA…

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Sobre o Autor

Hector Aliboni

20 anos. Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e heavy metal.

  • Mr. Doom

    Reiterando o que já disse, simplesmente magnífico, Hector.

    Gostei muito do tom cômico da narrativa, repleto de referências ultramodernas ao mundo geek. Acho impressionante como você construiu o universo da trama, é como se fosse uma mescla d’Os Incríveis com algo saído das páginas dos quadrinhos do Grant Morrison. Na espera pelos próximos capítulos.

    • Dave Mustaine

      Valeu, mais uma vez. O Grant Morrison foi a minha maior inspiração pra essa história, eu tive a idéia depois de ler o run dele na HQ do Homem-Animal, tanto é que eu nomeei a Avenida que o vilão ataca de “Morrison” em homenagem a ele.

      • Homem-Animal do Morrison é melhor que Watchmen. Pronto, falei.

    • Comentários parecidos. Agora que vi kkkkk

  • “HECTOR?!” – SPARROW, Jack.

    Mas que bela surpresa, seu metaleiro poser!
    Eu ADOREI A HISTÓRIA. Parabéns, cocô! Achei envolvente e bem engraçada em certos momentos (você é bom nisso kkkkk).
    Achei interessante esse teu conceito de criar um universo para produzir histórias de super-heróis (e não preciso falar que amei algumas referências, né? – como ao Grant Morrison).

    Ansioso para acompanhar os próximos capítulos e ver o que esse loop temporal significa! Algo me diz que tem a ver com palhaços…

    • Dave Mustaine

      Valeu, seu estrume!

      Cara, pra falar a verdade, eu não me inspirei em Os Incríveis, vi que você e o Doom mencionaram, mas eu realmente não pensei nisso quando tava escrevendo.

      Sobre os palhaços: digamos que há um fundo de verdade nas paranóias do Homem-Tangerina.

  • Aliás… não só Incríveis… o Buddy também tem família! Acho que tem mais coisa a ver com Homem-Animal do que eu imaginava. Esse lance do tempo também, lembrei daquele acontecimento com o homem da máquina do tempo que faz ele viajar para o passado, lá pro finalzinho da fase (quando minha cabeça começou a explodir na primeira vez que li kkkkk).

    Mas é a porra de um loop, né?! Não sei… teorias… kkkkk

    • Dave Mustaine

      O personagem e o enredo é totalmente inspirado no Homem-Animal. As referências vão ficar mais explícitas mais pra frente, e terá plot twists de explodir cabeças!

  • Os personagens estão ridículos (no bom sentido) e isso é sensacional!

    Obs.: coloque ao menos uma cena onde o Homem-Tangerina muda para Homem-Laranja de tanto encherem o saco dele durante a história! POR FAVOR, NUNCA TE PEDI NADA kkkkkkkk

  • Pingback: Ontem foi terça-feira, mas hoje é terça-feira de novo()

  • Mais uma vez, fantástico, Hector.
    O clima que você conseguiu trazer para a história é simplesmente sensacional. O fato de ser tudo novo, as pequenas pistas deixadas neste capítulo (que, aparentemente, tratam do futuro)… achei tudo extremamente cativante. Tem uma dose ótima de bizarrice (a BOA bizarrice), além de um universo interessante.
    O Homem-Tangerina já é o meu personagem favorito, mesmo tendo aparecido tão brevemente. Sinto que terá um papel maior do que ser um doido varrido…

    Destaco também o final. A ideia do loop me parece muito boa, tenho certeza de que saberá usar da maneira certa. Aparentemente, será uma trama bem surtada, o que é ÓTIMO.

    Parabéns pelo início. Uma excelente estreia na ficção.

    • Dave Mustaine

      Obrigado mais uma vez pelos elogios, e obrigado por ter vindo comentar aqui também!

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