Na noite do dia 20 de Outubro de 2018, o grupo de teatro Tramoya se apresentou no Teatro Municipal Sesi Minas em Uberaba, Minas Gerais. Na programação, apresentaram uma de suas grandes apostas dramáticas, Caliandra: A Flor Mais Bela do Cerrado, uma história totalmente autoral do grupo que vem forte como uma grande aposta do circuito nacional de peças representadas com um imenso potencial. Agora com um tempo maior de brilho, cerca de 30 minutos (bem mais do que os 10 que receberam no ano passado), os brilhantes e talentosos integrantes do Tramoya surpreenderam todos ali presentes com a doçura envolvente e amadoramente majestosa de um pequeno e dificultoso romance, que puxa muita inspiração, ao meu ver, de grandes obras pertencentes à nossa cultura popular artística. Desde a abertura, interativa com o público, onde as estrelas da peça surgem caminhando entre os espectadores, até o discurso final de agradecimento, todos os engenhosos artistas entregam o máximo de si, desempenhando, realmente, o (até então) trabalho de suas vidas.

A ilustríssima Pretta Moreno faz o papel da narradora, que por vezes realmente participa da história (embora não seja, efetivamente, uma narradora-personagem), e conta a aventura romântica entre Zita (Juca Siqueira) e Felizberto (Jonathan Bezerra), que é, visivelmente, tão árdua e penosa quanto a de alguns personagens de Shakespeare, onde os mocinhos são, a todo momento, impedidos de ficarem juntos, por ações efetivas e diretas dos coadjuvantes-antagonistas. O pai de Zita, o insensível Coronel (Lavínia Castro), chamado por todos ali de Coroné, adquirindo uma linguagem típica da região cerrana de datados longos anos, trabalha a todo momento para não deixar que sua querida menina se relacione com alguém sem-classe como Felizberto, dizendo que a mesma deve ser feliz com outro homem, aquele com quem já praticamente agendou seu partido. Contando com a ajuda de Malacabado (Wellington Sabino), um esquisitíssimo presta-favores maligno do Coroné, o pai da garota encomenda o assassinado de Felizberto, porém entra em contradição com seus próprios princípios quando o mesmo capanga o convence do contrário: matar Felizberto é um erro, o ideal seria fazer Zita desgostar do garoto. E ambos tramam seu plano maligno apelando para o impensável, quando contratam uma mulher da vida, Gardênia (Mika Muniz), para arruinar toda essa aventura cor-de-rosa que a ingênua e apaixonada menina possui em sua cabeça. No caminhar da história, muitas revelações e reviravoltas acontecem, deixando a passagem teatral com personalidade e uma singela emoção.

Todos os atores presentes no palco encantam, a todo instante, e mostram a que veio. A personagem de Juca Siqueira cumpre com maestria a pequena e cega de amores Zita, inocentemente entregue à beleza do amor, antes mesmo de conhecer a crueza da vida real, e o Felizberto de Jonathan Bezerra torna-se aquele menino, que já sabe muito bem o que é ser homem, que faz de tudo para ter sua amada e ser seu porto-seguro. Os protagonistas sofrem a todo momento e Juca e Jonathan expressam essas dores por feições abatidas e sentimentais, ao mesmo tempo que tentam manter o sorriso e a esperança nas ações de seus personagens. Os coadjuvantes também não ficam para trás; como eu gosto de dizer, uma boa história, além de um bom vilão, precisa ter bons personagens de apoio porque, sem eles, toda a obra carece de suportes básicos e, assim sendo, a sustentação e o carisma desaparecem. O cruel Coroné de Lavínia Castro tem um jeito de falar ameaçador e está a todo momento de cara fechada, e a atriz, mesmo interpretando um homem, convence os espectadores que, como já é bem comum se tratando de teatro, as divergências sexuais estão muito aquém da própria arte; seu personagem não tem papas na língua e fará de tudo para obter o que deseja. O imensamente carismático, porém detestável (na história) Malacabado de Wellington Sabino é um dos maiores destaques; seus trejeitos engraçados e peculiares, tanto na maneira de se locomover quanto de falar, engrandecem toda a obra e escancaram a imensa personalidade que a peça tem. Suas atitudes são maquiavélicas e caridosas ao mesmo tempo, já que, além de ser impossível simpatizar com ele, também é impossível não entender e adorar certos tipos de pensamentos (como o de não matar Felizberto, por exemplo). A Gardênia de Mika Muniz é poderosa e, por vezes, bastante autoritária; a atriz transfere à personagem todo o ar sensual que a mesma necessita, ainda que transmita a sensação de ser muito mais do que uma pessoa que está ali apenas para acabar com o romance dos protagonistas (e, de fato, ela é mesmo alguém muito mais importante que isso).

Competência não falta, tanto por parte do roteiro de Pretta Moreno, quanto pela direção teatral de Wellington Sabino. O amadorismo presente a todo instante durante a peça torna-se um mero detalhe da trama, que nada atrapalha no desenvolvimento e competência da história contada. As falas escritas por Pretta trabalham todos os personagens com tempos praticamente idênticos, levando-nos a pensar, em certos momentos, que não existem apenas dois protagonistas, mas sim seis (contando com a narradora). São partes tão fundamentais da história que retirar sequer uma fala, de qualquer um deles, já faria tudo desandar. Pretta foi sucinta em escrever os diálogos e desenvolver o ambiente, ao mesmo tempo que ultrapassou barreiras na construção da personalidade e peculiaridade de cada um. A direção de Wellington é simples e direta, mas é justamente nessa simplicidade que todos conseguem se destacar (inclusive seu Malacabado); ele dá espaço às estrelas para se evidenciarem, sem focar em apenas um para conduzir toda a dramática narrativa, e certas posições e formas de interação de todos ali, levando em consideração à precariedade de investimentos (já que todos contribuíram do próprio bolso, contando com minguados investimentos), convencem o espectador de que toda aquela encenação realmente gira em torno de um mundo palpável e visual.

Os figurinos, embora completamente simplistas e amadores, dão aos personagens um toque especial e peculiar. Os enxertos na barriga do Coroné e na coluna de Malacabado (fazendo dele um assustador e engraçado corcunda), e as vestes de Zita, Felizberto e Gardênia, impressionam muito, são cômicos e tornam-se completamente condizentes com a falta de investimento de toda a obra, ainda que são tão grandiosos quanto todo o resto. As canções ao longo do conto são incrivelmente inteligentes e encantadoras, com letras igualmente autorais, que deixam tudo ainda mais doce, esbelto e inocente. A minha vontade era decorar todas elas e sair cantando por aí pensando nesta e muitas outras histórias de amor (inclusive a minha).

Caliandra, a flor do Cerrado do título, é a beleza da peça. Pontiaguda, feita para ferir aqueles que a tocam, ao mesmo tempo que é bela e hipnotizante. Foi difícil não se emocionar encontrando com alguns dos artistas ao fechar das cortinas. Desejo que o atual cenário teatral do Brasil dê mais atenção a obras como esta e faça-as ganhar ainda mais força com o tempo, para que consigam o real reconhecimento que merecem. Vida longa ao Grupo Tramoya de Teatro!

Caliandra: A Flor Mais Bela do Cerrado  – Brasil, 2018, cerca de 30 minutos.
Direção Teatral: Wellington Sabino. Roteiro: Pretta Moreno. Elenco: Pretta Moreno, Juca Siqueira, Jonathan Bezerra, Lavínia Castro, Wellington Sabino e Mika Muniz.

Compartilhe

Sobre o Autor

Victor Dourado

Fissurado por quadrinhos, cinema, games e literatura. Estudante de Matemática e autor nas horas vagas. Posso também ser considerado como um antigo explorador espacial, portador do jipe intergaláctico que fez o Percurso de Kessel em menos de 12 parsecs.