Poucos são os casos de diretores de live-action que se aventuraram com sucesso na animação. O contrário (diretor de animação indo para o live-action) é ainda mais raro. Brad Bird é uma exceção. E uma daquelas bem extraordinárias. Aos 14 anos de idade, Bird começou a ser treinado por Milt Kahl, um dos animadores mais lendários da Walt Disney. Três décadas depois construiu uma carreira impecável na animação com O Gigante de Ferro (1999), da Warner Bros., e Os Incríveis (2004) e Ratatouille (2007), da Pixar.

Com esse currículo que não necessariamente sugeria que uma incursão na ação em live-action daria frutos, Bird acabou sendo uma escolha mais do que acertada dos produtores Tom Cruise e J.J. Abrams para o quarto capítulo da franquia Missão: Impossível. Afinal, não existe nada impossível para a câmera em uma animação. E é justamente isso que o diretor parece fazer aqui, com sequências absurdas e ousadas (e filmadas de verdade) que compõem um longa-metragem incessante que mistura ação, comédia, thriller e aventura com muita habilidade.

O roteiro é assinado por Josh Appelbaum e André Nemec, que trabalharam com Abrams em Alias – assim como os dois roteiristas de Missão: Impossível 3. E segue o padrão de sempre da franquia. Ethan Hunt (Tom Cruise) é resgatado de uma prisão soviética pelos agentes da IMF Benji (Simon Pegg, em papel regular depois da curta participação no filme anterior), recém-promovido às operações de campo, e Jane (Paula Patton) para uma nova missão impossível: roubar códigos secretos de lançamentos nucleares em Moscou, no Kremlin.

Só que o plano sai errado e um ataque terrorista destrói o Kremlin, obrigando o governo dos EUA a iniciar o “Protocolo Fantasma”, que extingue a agência secreta, apontada como culpada pelo atentado. Operando nas sombras, Ethan, Benji, Jane e Brandt (Jeremy Renner), ex-agente de campo da IMF, precisam escapar da perseguição do agente russo Anatoly Sidorov (Vladimir Mashkov) e correr contra o tempo para impedir o terrorista Kurt Hendricks (Michael Nyqvist) de lançar o mundo em uma guerra atômica.

Missão: Impossível – Protocolo Fantasma é o filme mais bem-humorado da franquia e isso passa tanto pelo roteiro quanto pela excelente equipe que auxilia Ethan – infelizmente sem a presença do ótimo Ving Rhames, que dessa vez faz apenas uma ponta não-creditada no final –, de um modo que Tom Cruise serve mais como o catalisador de tudo aquilo que eles proporcionam em termos de diversão e diálogos, deixando de lado a exploração da sua história de vida e do seu psicológico e focando mais na insanidade dos seus feitos em campo.

Simon Pegg é o alívio cômico perfeito, com um timing fenomenal que observa (e comenta com tiradas geniais) os absurdos que envolvem as façanhas de Ethan e da equipe. Jeremy Renner vai muito bem no humor e na ação e ainda possui um pequeno plot dramático envolvendo Ethan e Julia (Michelle Monaghan, em uma ponta não-creditada no final). Paula Patton exala sensualidade (destacando-se bem mais do que as femmes fatales dos três filmes anteriores) e ainda protagoniza um excelente combate corpo a corpo com a assassina interpretada por Léa Seydoux.

Brad Bird cria sequências de ação eletrizantes e conduz a narrativa através delas – algo que seria explorado ainda mais a fundo nos dois filmes seguintes, dirigidos por Christopher McQuarrie. Missão: Impossível – Protocolo Fantasma aparenta não parar para respirar por um instante sequer. O excelente humor trazido por Bird para a franquia é usado também durante a ação, de um modo único, como na hilária sequência em que Cruise e Renner tentam subir em um vagão de trem, inserindo códigos e fazendo verificação de retina enquanto correm e desviam de obstáculos pelo caminho. Michael Giacchino retorna na trilha sonora e reformula o tema clássico de Lalo Schifrin com sopros e guitarras, conferindo um caráter mais épico que condiz com a urgência da história.

Se dessa vez o tradicional jogo de máscaras e reviravoltas é deixado de lado, os novos e inventivos gadgets (aqueles da invasão do Kremlin são sensacionais) estão entre os melhores da franquia e são usados para estabelecer um aspecto fantasista a sequências extremas que são filmadas com muito realismo. A joia da coroa é a vertiginosa sequência no Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo, em Dubai. Tom Cruise eleva os seus próprios limites de insanidade ao escalar, correr, saltar e fazer rapel na parte externa do prédio. Quando a câmera se afasta e captura a vastidão do cenário é que percebemos o nível de loucura.

O quem vem a seguir é uma belíssima perseguição (a pé e de carro) por Dubai em meio a uma terrível e castigante tempestade de areia, fotografada com um apurado senso estético por Robert Elswit. O embate final entre Ethan e o vilão nas plataformas de um estacionamento investe na mistura entre diversão e comédia, com a maleta trocando constantemente de mãos, caindo e subindo de acordo com o movimentos das plataformas, enquanto os dois personagens tentam desesperadamente recuperá-la – com direito a Ethan e sua equipe conseguindo desativar a bomba nuclear no instante em que ela já ia atingir uma cidade americana.

Missão: Impossível – Protocolo Fantasma é um blockbuster de primeira linha que se estabelece como o melhor longa-metragem da franquia depois do clássico de Brian De Palma, isoladamente ou ao lado dos dois filmes posteriores, que não deixam o nível cair e se estabelecem com igual qualidade. Brad Bird faz uma transição fantástica para o live-action, trazendo com sucesso elementos das animações e constrói um thriller de ritmo acelerado, eletrizante do começo ao fim – por mais que saibamos que Ethan não morrerá e salvará o dia no fim das contas. Um Tom Cruise ainda mais louco em suas peripécias sem o auxílio de dublês e um time de coadjuvantes entrosados, com um humor certeiro e constante a se derramar por toda a narrativa, completam a receita de sucesso do quarto filme da franquia Missão: Impossível.

Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (Mission: Impossible – Ghost Protocol) – EUA, 2011, cor, 132 minutos.
Direção: Brad Bird. Roteiro: Josh Appelbaum e André Nemec. Música: Michael Giacchino. Cinematografia: Robert Elswit. Edição: Paul Hirsch. Elenco: Tom Cruise, Paula Patton, Jeremy Renner, Simon Pegg, Michael Nyqvist, Léa Seydoux, Vladimir Mashkov, Tom Wilkinson, Anil Kapoor, Ving Rhames e Josh Holloway.

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Sobre o Autor

Rodrigo Oliveira

Católico. Desenvolvedor de eBooks. Um apaixonado por cinema – em especial por western – e literatura. Fã do Surfista Prateado e aficionado pelas obras de Akira Kurosawa, G. K. Chesterton, John Ford, John Wayne e Joseph Ratzinger.

  • Kvothe (Dave Mustaine)

    Mais uma crítica ótima!
    Protocolo Fantasma é o meu favorito da franquia, o Brad Bird mandou bem demais nesse filme, todas as animações que ele fez anteriormente são ótimas, O Gigante de Ferro, Os Incríveis e Ratatouille são maravilhosas, e a sua primeira aventura com o live action foi estupenda (uma pena que o mesmo não pode ser dito de seu outro filme, Tomorrowland). O roteiro desse filme é divertidíssimo, as cenas de ação são insanas (destaco a abertura na prisão soviética, a cena do Ethan com o Brandt correndo e desviando dos obstáculos, essa batalha final na plataforma, a luta entre a personagem da Paula Patton e a da Lea Seydoux, mas principalmente a do prédio em Dubai, que é agonizante e divertida ao mesmo tempo), o humor é fantástico e os personagens coadjuvantes são os melhores da franquia, não é à toa que o Benji e o Brandt se tornaram regulares, ambos são carismáticos pra caramba, e a Jane é sem dúvidas a melhor personagem feminina da franquia. O Luther fez falta mesmo, mas é muito legal a participação dele (e da Julia) no final. E eu gosto também do vilão, Cobalto, não é tão bom quanto o do 3, mas ele é legal também.

    • Valeu! Depois do primeiro filme, acho que esse é também o meu preferido. Os do McQuarrie tão bem próximos, ora acho que no mesmo nível, ora um pouco abaixo. E o legal desse é que tem um humor sensacional e constante, que nenhum outro filme da franquia teve. Eu acho que agora eles encontraram a melhore equipe possível pra auxiliar o Ethan, e espero que no 7 tenha todo mundo, que seria Ving Rhames, Simon Pegg, Jeremy Renner e a Rebecca Ferguson. Com esse time acho que podem parar de colocar agentes novatos e transitórios…rs

  • Ótima crítica, Rodrigo! Brad Bird sempre foi muito bom nas animações. Eu assisti Os Incríveis 2 faz um tempo e gostei bastante (não é no nível da história do primeiro filme, mas é tão divertido quanto). Parece que com o tal Tomorrowland (2015) com o George Clooney, ele não conseguiu ir muito bem. Como ele ainda não tinha se provado em fazer live-actions, para a época deve ter sido uma escolha bem improvável do Cruise e Abrams.
    Esse clima envolvendo os russos também me lembra os primeiros filmes do James Bond com o Connery. O Brad Bird praticamente mostrou nos Incríveis que era fã desse tipo de gênero, ele queria até ter colocado John Barry como compositor ao invés do Michael Giacchino.

    • Valeu! Foi uma escolha certeira quando a gente olha para Os Incriveis (que é um filme do tipo Missão: Impossível) mas foi bem improvável na época porque dificilmente um diretor consegue fazer esse tipo de transição bem. E ele fez.

  • Estephano

    É o meu filme favorito da franquia, e provavelmente o mais aventuresco também.
    Lendo o texto me veio a cabeça Indiana Jones, confesso que nas vezes que assisti não fiz esse paralelo, mas parando para pensar agora, tem bastante do estilo. Até a cena final no estacionamento lembra bastante o começo de Indiana Jones 2.

    A Paula Patton nunca mais voltou, e creio que não vai voltar, mas o personagem dela era legal. Pelo menos o Renner e o Pegg continuaram, trouxeram um frescor para a franquia bem legal.