O primeiro Missão: Impossível representou fielmente o cinema de Brian De Palma: um jogo constante de ilusão sobre o que vemos e o que efetivamente é a verdade e a condução perfeita do suspense e da tensão. O segundo Missão: Impossível encarnou tudo aquilo que consagrou o cinema de John Woo: câmera lenta incessante, dramatismo, duelos, pirotecnia e coreografia bailada em sequências de ação eletrizantes. Essa foi a estrada que o astro e produtor Tom Cruise optou por seguir na franquia que comanda, nunca abrindo mão de suas visões próprias em todos os filmes, mas ao mesmo tempo dando liberdade plena para que cada um deles tivesse a assinatura particular do diretor escolhido. E Missão: Impossível 3 tem todas as digitais de J. J. Abrams.

Um flasforward espetacular abre o filme: um ferido Ethan Hunt (Tom Cruise) está amarrado em uma cadeira; à sua frente o implacável Owen Davian (Philip Seymour Hoffman) irá assassinar a médica Julia (Michelle Monaghan) caso o agente da IMF não lhe informe o paradeiro do “Pé de Coelho” – o MacGuffin da vez, que leva ao extremo o conceito popularizado por Alfred Hitchcock, já que o tal item perseguido por todos os vértices de interesse da narrativa serve unicamente para mover a história adiante, e ao final não descobrimos sequer o que ele era.

Voltamos para muitas horas antes disso e acompanhamos um Ethan completamente diferente daquele que conhecemos. Fora do campo há tempos, treinando novos recrutas e vivendo uma vida “normal”, entre festas familiares e compras no mercadinho próximo, Ethan está noivo da sua amada Julia, de quem oculta o seu verdadeiro trabalho. Mas o chamado urgente de John Musgrave (Billy Crudup), chefe da IMF, leva o agente de volta à ativa em uma missão de resgate de sua ex-aluna Lidnsey (Keri Russell), ao lado do velho amigo Luther Stickell (Ving Rhames) e de dois novos agentes, Declan (Jonathan Rhys Meyers) e Zhen (Maggie Q).

Oriundo da televisão, Abrams fez sucesso com as séries Felicity, Alias e Lost. De Alias, trouxe os roteiristas Roberto Orci e Alex Kurtzman para ajudá-lo na história de Missão: Impossível 3. O seu estilo é evidente desde o começo, com a sua tentativa de humanizar o protagonista ao trazer para o centro da narrativa a mulher que ele ama e por quem abriu mão da atuação em campo – os diálogos constantes entre Cruise e Rhames sobre casamento são bem reveladores sobre essa intenção que permeia toda a narrativa. Ethan deixa de ser um personagem impessoal, sem vida pregressa ou paralela – até seus pais são citados. Sai o agente que precisa salvar o mundo, e no seu lugar surge o herói que deseja salvar a sua amada e permanecer vivo para conseguir voltar para casa mais uma vez.

As sequências de ação são engenhosas e aproximam Missão: Impossível 3 de A Identidade Bourne (2002), com muita câmera de mão, próxima e tremida, transmitindo urgência; e o zoom acelerado, vindo de bem longe, em uma aproximação do ponto focal típica de um meio documental e televisivo – há muitos closes. O clássico tema da série foi reorquestrado em estilo militar por Michael Giacchino e usado poucas vezes – mas de maneira cirúrgica, ao longo da trama, elevando ainda mais as cenas mais frenéticas.

Passeando por Berlim, pelo Vaticano e por Xangai, o grande destaque na ação acontece em Maryland, com o ataque de um drone militar a uma ponte e o espetaculoso resgate de Davian. Mas a perseguição de helicópteros em meio a um campo de geradores de energia eólica, a invasão do Vaticano e a invasão de um prédio e a correria (corra, Ethan, corra!) em Xangai também são extremamente competentes e não deixam o ritmo cair, especialmente depois que a jornada de Ethan e de sua equipe se transforma em uma corrida contra o tempo para salvar Julia.

O espetacular Philip Seymour Hoffman incorpora um vilão de primeira categoria, o melhor de toda a franquia (que nunca se destacou nesse aspecto) por longas jardas de distância em relação aos outros. Ainda que seja enfraquecido pelas decisões de roteiro do terceiro ato, a atuação de Hoffman consegue pairar acima de tudo desde os instantes iniciais. Sem exageros, sem levantar a voz ou gritar, sempre falando apenas quando é necessário, controladamente e de maneira fria, o seu Owen Davian nunca repete uma ameaça – e cumpre todas aquelas que faz. A sequência no avião é emblemática: mesmo capturado, é Owen quem mantém a calma e a arrogância e consegue desestabilizar Ethan e fazê-lo cair em uma série de erros que farão com quem o vilão consiga depois sequestrar a sua noiva.

Tom Cruise corre, corre e corre. E salta e briga – muito. Sempre determinado, sempre em um ritmo alucinante. Consegue derrubar três oficiais mesmo estando amarrado e amordaçado em uma maca dentro de um elevador; escapa de um cerco policial, de um ataque a uma ponte; salta entre arranha-céus. E sempre convence de que seria realmente capaz de realizar todos esses feitos. Em meio a muitas reviravoltas e revelações que nem sempre são realmente impactantes – aquelas que envolvem Billy Crudup e Laurence Fishburne são as que mais funcionam – e com o uso constante dos gadgets clássicos da franquia – agora vemos como as máscaras de silicone são feitas –, Missão: Impossível 3 não eleva o nível em relação aos trabalhos anteriores, mas com muitas doses de suspense e adrenalina é um dos capítulos mais repletos de energia da franquia.

Missão: Impossível 3 (Mission: Impossible III) – EUA, 2006, cor, 126 minutos.
Direção: J.J. Abrams. Roteiro: J.J. Abrams, Alex Kurtzman e Roberto Orci. Música: Michael Giacchino. Cinematografia: Daniel Mindel. Edição: Maryann Brandon e Mary Jo Markey. Elenco: Tom Cruise, Michelle Monaghan, Ving Rhames, Philip Seymour Hoffman, Laurence Fishburne, Billy Crudup, Maggie Q, Simon Pegg, Greg Grunberg, Keri Russell e Jonathan Rhys Meyers.

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Sobre o Autor

Rodrigo Oliveira

Católico. Desenvolvedor de eBooks. Um apaixonado por cinema – em especial por western – e literatura. Fã do Surfista Prateado e aficionado pelas obras de Akira Kurosawa, G. K. Chesterton, John Ford, John Wayne e Joseph Ratzinger.

  • “Consegue derrubar três oficiais mesmo estando amarrado e amordaçado em uma maca dentro de um elevador; escapa de um cerco policial, de um ataque a uma ponte; salta entre arranha-céus. E sempre convence de que seria realmente capaz de realizar todos esses feitos.”
    Pelo visto, o segundo e terceiro filme realmente começaram a levar mais a sério o título “Missão: Impossível” kkkkkk. Filmes desse tipo se bem feitos até conseguem me convencer por breves instantes que eu seria capaz de fazer tais feitos. Tem algum filme da franquia que é considerado o mais fraco?
    Enfim, mais uma excelente crítica. Nas próximas férias tentarei maratonar todos os filmes.

    • Valeu. Parece que a cada filme o Cruise espera que o título Missão: Impossível seja honrado e superado…rs

      Tem algum filme da franquia que é considerado o mais fraco?

      Aquele que é considerado o mais fraco é o 2, que ao mesmo tempo é um dos maiores sucessos da franquia. Eu acho o 3 o “mais fraco”. Mas é um bom filme. Nenhum dos 6 filmes é ruim.

  • Murilo Oliveira

    Que crítica mal escrita. Você pelo menos terminou a faculdade, Rodrigo?

  • Estephano

    Acho que o J.J. Abrams “padronizou” a franquia digamos assim. Pegou o que deu certo nos dois filmes anteriores, tirou os “excessos” que esses filmes tinham em estilo, e moldou a forma como a franquia continuaria.
    Acho que os dois diretores seguintes (Brad Bird e Christopher Mcquarrie) imprimem seus estilos nos filmes, mas é visivelmente menos acentuado que nos dois primeiros filmes da franquia, não que seja um demérito, mas parece ter sido a opção criativa desde então. Tanto que a franquia hoje em dia tem mais reflexos desse filme que dos dois primeiros.

    Gosto bastante do aspecto militar que o J.J.Abrams colocou no filme, tem várias cenas de ação que remetem a filmes de operações militares, chega a ser mais recorrente do que as cenas padrões de espionagem. É também o filme que tem o maior background do protagonista.

    • Sim. Do Abrams em diante (e ele virou produtor a partir desse, colocando pra escanteio a Paula Wagner, produtora de quase todos os filmes do Cruise do primeiro Missão: Impossível até esse) a franquia se “padronizou’, por assim dizer. Ainda dá pra ver aspectos dos três diretores neles, mas nunca mais surgiu algo tão autoral quanto o que De Palma e Woo fizeram.

  • Kvothe (Dave Mustaine)

    Excelente, mais uma vez!
    Eu gosto pra caramba do Missão Impossível 3, como o Estephano falou ali, é o filme que mais trabalha o background do protagonista, com todo o drama dele com a noiva e tals (é legal que o irmão dela, cunhado dele, que aparece por uns breves instantes só, é interpretado pelo Aaron Paul, o Jesse Pinkman). Eu acho a trama desse filme muito legal, todo o mistério em torno do McGuffin é muito bem feito e o fato deles não dizerem o que ele é, foi genial. As revelações e reviravoltas são muito bacanas também, e realmente, o Owen é sem dúvidas o melhor vilão da franquia. Algumas cenas que eu destaco em especial são o flashfoward de abertura, a cena dos helicópteros na usina eólica (acho que é quando eles estão resgatando aquela mina lá, se não me falha a memória), a cena que mostra como a máscara é feita, toda a sequência no Vaticano que tem uns momentos bem engraçados, a cena do Ethan sendo cercado pela polícia e tendo que fugir, a cena do avião, onde ele interroga o vilão e perde a cabeça, essa cena do elevador… enfim, são muitas, eu gosto também do final, com o Ethan e a noiva andando abraçados. Deu vontade de ver de novo, rs.

    • Valeu. O vilão é disparadamente o melhor da franquia, apesar de a parte final tê-lo diminuído bastante. Mas o Seymour Hoffman se sobressai. Acho que em um provável sétimo filme deviam investir em um ator do naipe para o vilão.