Baseado no romance escrito por Chuck Palahniuk, de 1996, o filme que não podemos falar o nome é dirigido por David Fincher e estrelado por Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham CarterNorton representa o protagonista anônimo (o Narrador), um “homem comum” que está descontente com o seu trabalho de classe média na sociedade americana. Ele forma um “clube de combate” com o vendedor de sabonetes Tyler Durden, representado por Brad Pitt, e se envolve com uma mulher dissoluta, Marla Singer, representada por Helena Bonham Carter.

A obra e a filosofia

A obra de Palahniuk é praticamente baseada no Estoicismo e no Epicurismo. O estoicismo foi uma doutrina fundada por Zenão de Cício (335-264 a.C.), que trazia em sua essência o desprendimento de tudo o que é inútil (incluindo nisso a importância que seu próprio corpo possui) para alcançar o equilíbrio do espírito. Nesse desprezo ao material, mesclou-se (ou confundiu-se) o conceito pregado por Jesus Cristo, onde o martírio e o sacrifício podem levar ao equilíbrio do conhecimento. Negado pelos cristãos como uma influência para sua religião, o estoicismo é encarado pelos seguidores de Jesus como um desprezo do homem por si mesmo e pelo mundo. Nada mais do que um desespero do ser humano ao constatar, no mundo e na sua própria existência, a ausência de um Deus por ele rejeitado.

“Deus foi incluído em nossas vidas como um modelo de nossos pais. Se eles (os pais) nos abandonaram, Deus fez a mesma coisa. Somos os filhos indesejados de Deus. Provavelmente, ele nos odeia”. – Tyler Durden.

Já o epicurismo, ao contrário do estoicismo, surge a doutrina proposta pelo filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.), e sua declaração de que o homem foi feito para a felicidade. O epicurismo traz, em seu conceito, limites para os exageros da vida. Para Epicuro, a doença que acomete uma pessoa é um aviso do corpo. Um aviso de um exagero cometido. A parcimônia (para usar um termo adequado ao conceito estudado) é a chave para a felicidade pregada pelo epicurismo: o homem deve buscar o prazer na medida de sua felicidade. A análise do epicurismo, relacionada à sociedade atual do século XXI, possui uma libertação interna do homem capitalista preso ao modo de vida imposto pelo trabalho.

A personalidade do Narrador/Tyler Durden:

O protagonista da obra sofre com um distúrbio chamado de Transtorno Dissociativo de Identidade. Uma condição rara, caracterizada pela presença de duas ou mais condições distintas de personalidade. Na história, o Narrador e Tyler Durden são a mesma pessoa.

O Transtorno Dissociativo de Identidade reflete um fracasso em integrar vários aspectos da identidade, memória e consciência. Cada estado de personalidade pode ser vivenciado como se possuísse uma história pessoal distinta, auto-imagem e identidade próprias, inclusive um nome diferente. Em geral existe uma identidade primária, portadora do nome correto do indivíduo, a qual é passiva, dependente, culpada e depressiva.

Critérios diagnósticos para o Transtorno Dissociativo de Identidade:

1- Presença de duas ou mais identidades ou estados de personalidade distintos (cada qual com seu próprio padrão relativamente persistente de percepção, relacionamento e pensamento acerca do ambiente e de si mesmo).
2- Pelo menos duas dessas identidades, ou estados de personalidade, assumem recorrentemente o controle do comportamento da pessoa.
3- Incapacidade de recordar informações pessoais importantes, demasiadamente extensa para ser explicada pelo esquecimento comum.
4- A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (blackouts ou comportamento caótico durante a intoxicação com álcool) ou de uma condição médica geral (crises parciais complexas).

Como já devem ter percebido, a história apresenta uma filosofia muito forte, ao melhor estilo de pancadaria gratuita e explosões, e faz todo mundo que acabou de ver o filme se sentir um bosta. Claro que a sensação “sou um bosta” não é causada pela pancadaria, nem pelas explosões, mas pela mudança na vida do protagonista, além do desenvolvimento e construção de sua nova maneira de pensar e agir.

Vamos apelar para o faz de conta. Imagine que você é um empregado, trabalha em um escritório e faz várias coisas com papel, computador, telefone e essas outras coisas que cercam o cotidiano do trabalho das pessoas; para chegar em casa descontente e bolado com a vida, mas ter tudo o que você precisa para “ser feliz”: mobília bonita, computador bom, carro do ano, som maneiro, televisão a cabo com um milhão de canais, internet rápida, coisas eletrônicas, artigos ninjas, discos de vinil velhos, e etc.  Ótimo, tudo perfeito!

NÃO! NADA É PERFEITO!

“As coisas que você possui, acabam possuindo você.” – Tyler Durden.

“Você não é o seu emprego. Você não é quanto dinheiro você tem no banco. Você não é o carro que você dirige. Você não é o conteúdo da sua carteira. Você não é a calça cáqui que veste. Você é toda merda ambulante do mundo.” – Tyler Durden.

E então você pensa sobre toda sua vida, e as coisas do filme começam a fazer sentido.

“Escutem aqui, vermes. Vocês não são especiais. Vocês não são um belo ou único floco de neve. Vocês são feitos da mesma matéria orgânica em decomposição como tudo no mundo.” – Tyler Durden.

Reavalie suas ações, e as citações vão começar a ficar mais pesadas:

“Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar merdas que não precisamos.” – Tyler Durden.

Essa frase dispensa comentários, o fato é que essa é a grande verdade! Essa é a grande verdade!

E agora, para finalizar, usarei uma citação, que não está no filme, mas que simplificará tudo o que essa obra tenta transmitir. Toda sua filosofia embasada e aplicada se resume em:

“Se você está lendo isso, então isto é para você. Cada segundo perdido lendo este texto inútil é outro segundo a menos da sua vida. Você não tem outras coisas para fazer? A sua vida é tão vazia que você honestamente não consegue pensar numa maneira melhor de vivê-la? Ou você fica tão impressionado com a autoridade daqueles que a exercem sobre você? Você lê tudo o que deveria ler? Você pensa tudo o que deveria pensar? Compra tudo o que lhe dizem pra comprar? Saia do seu apartamento. Encontre alguém do sexo oposto. Pare de comprar tanto e se masturbar tanto. Peça demissão. Comece a brigar. Prove que está vivo. Se você não fizer valer pelo seu lado humano, se tornará apenas mais um número. Você foi avisado.”

Apesar do exagero e sensacionalismo, é preciso admitir que muitas das coisas estão certas. O difícil é pedir demissão e sair arrumando briga por aí.

Fonte de pesquisa para a formulação do texto: O Azar é Seu, Película Virtual e Psicologado.

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Sobre o Autor

Victor Dourado

Fissurado por quadrinhos, cinema, games e literatura. Estudante de Matemática e autor nas horas vagas. Posso também ser considerado como um antigo explorador espacial, portador do jipe intergaláctico que fez o Percurso de Kessel em menos de 12 parsecs.

  • cleber

    “Uma casa cheia de tempero, mas sem comida.”

    Narra-dor

    Nada mais nada menos que um classico moderno.

  • Ótimo texto. Não sou fã de Clube da Luta. Vi na época do lançamento e achei absolutamente normal – e aquelas inserções subliminares estilo Jequiti são um porre, sinceramente…rs Do David Fincher prefiro Se7en. Mas por conta do tema abordado (e do modo como ele é abordado) compreende-se facilmente o motivo de tantos cultuarem esse filme. Parece ter sido feito intencionalmente para isso…rs

    • Eu aprendi, com o tempo, a admirar esse filme. Da primeira vez que vi não gostei muito. Recentemente adquiri o livro e iniciei minha leitura (sempre interrompida por outros livros).
      Eu também prefiro Seven a esse.
      As mensagens Jequiti são as melhores partes, Rodrigo! kkkkkkkkk
      Muito obrigado, meu amigo.

      • As mensagens Jequiti são demais. Lembro de ficar no VHS pausando pra ver se tinha tido algo mesmo, porque a visão notara alguma coisa diferente em um frame muito rápido…rs

  • Very good, my friend.
    Eu ainda preciso conferir esse filme. Até meu professor de história já citou ele kkkkkkkkkkkkkkkkkk

  • Ótimo post, Sabixão!
    Eu nunca assisti esse filme, mas sei que já cheguei a ver uma parte quando eu tinha uns 8 anos (tava passando na televisão. Assisti um pouco com meu pai e logo perdi o interesse)

    Jipeiro, eu queria perguntar se eu poderia fazer um post de música aqui. Faz tempo que não posto nada, e mais ainda que não leio, então, decidi perguntar.

    • Muito obrigado, Death.
      Assista-o na íntegra, quando for mais velho. Novo, nem pensar, vai, assim como eu, detestá-lo! kkkkk

      É lógico que pode. Eu fiquei MESES sem fazer um comentário sequer, e continuei postando minhas coisas kkkkk
      Não quero que sinta receio de nada. Como um dos editores, esse site também é SEU. É de todos nós! 🙂

      • “Como um dos editores, esse site também é SEU. É de todos nós! :)”
        Mude para:
        “Como um dos revolucionários, esse país também é SEU. É de todos nós! :)”, e isto vira uma frase de comunista.

      • Valeu, Jipeiro. Vou tentar fazê-lo.

  • Dave Mustaine

    Isso aí manézão, quebra a primeira e a segunda regra mesmo.

    Clube da Luta é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, o meu favorito do David Fincher, ele é bem impactante, já faz uns 3 anos que eu vi e ainda se mantém fresco na memória. Mas na real, eu não concordo com a mensagem que ele passa, esse papinho anti-capitalista é coisa de adolescente pseudo-revoltadinho. Mas o filme é bom pra caramba, independente disso. É legal que existem umas teorias bem bizarras sobre ele: tem uma que o personagem do Edward Norton é o Calvin (das tirinhas do Calvin & Haroldo) já adulto, tem outra que o filme é um prelúdio para TDK e esse cara é o Coringa. Aliás, o “Narrador” não é chamado de “Jack” durante o filme?

    Muito bom seu texto, mas só uma correção: você é, sempre foi e sempre será um bosta, com ou sem filme pra te avisar disso.

    • Solomon Grundy

      Vc não pode comentar aqui. mas no canil sim

  • cleber

    Jipeiro, quando puder tire um tempinho para ler o Manifesto do Unabomber.

    Pois não consegui deixar de pensar “Tyler Durden concorda com isso!”, toda vez que via algo desse cara na mini série que conta sua historia.

    Tem um diretor japonês que não sei se chegou a processar o Palahniuk. O que sei é que ele acusou o autor de plagio. Afirmando que ele teria se inspirado em seu filme Tokio Porrada, para escrever Cluba da Luta. Pelo que parece o filme foi lançado em alguns festivais de cinema em 1995. E o livro foi lançado em 1996.

    Eu não acho que o Chuck teria tempo pra ver um filme underground em algum festival e em 6 meses elaborar toda a estrutura de um livro. Mas (e aqui eu coloco enfase no mas), eu não consigo imaginar ele não sendo influenciado pela historia do Kaczynski. São ideias muito similares sobre como a tecnologia esta influenciando negativamente o homem moderno.

    Enfim, mais uma vez um ótimo texto. E me fez lembrar de rever o filme. Pois algumas obras me são tão apaixonantes que eu não posso ficar 5 anos sem re-visita-las, rs.

    abraço