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Atenção! Não leia essa história sem antes ler a parte anterior.
Parte 1: Punição.

18NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS

Gêneros: Drama (Tragédia), Suspense.
Contém: Assassinato, Mutilação, Suicídio.

Aviso!
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção.

PÓS-MORTE

“Eu me machuquei hoje, para ver se sinto alguma coisa. Eu me concentro na dor, a única coisa que ainda é real pra mim.” – Trent Reznor.


Tanto sangue, horror e… beleza. Tanta crueldade dissipada em um só canto mundano e inóspito. Vis atitudes, foleadas à virtuosas promessas pessoais, cercadas de, agora cumpridas, prazer. Um prazer quase indescritível. Tanta carne dilacerada e epiderme manchada à uma densidade aquosa. Tanta dor e alegria compartilhando o mesmo pútrido espaço. Tantas memórias, envoltas de atitudes inescrupulosas. Tanta coisa… nenhum sequer arrependimento. Nenhuma parcela mínima de tal sentimento. Isso era algo do qual a sujeita jamais deixaria de pensar, e deleitar-se — caso permanecesse viva por mais longos anos.
Os inúmeros pedaços corporais do homem encontravam-se perfeitamente separados e montados, ao redor do que parecia ser uma enorme piscina sanguínea, transparecendo sua cor vermelha-escura, como o vinho, em um delicioso e prazeroso banquete. A conhecida face misteriosa, após, cautelosamente, retirar em absoluto toda a pele do homem, que agonizou até a morte, cortou seus membros com uma precisão ímpar, como se possuísse, claramente, vastos conhecimentos anatômicos — mas não era o caso; a tal pessoa unicamente utilizou sua ira e sua maldade, moldada em anos, para efetuar seus atos moncosos. Em seguida, com uma calma e paciência sem igual, a mesma montou uma grandiosa figura religiosa com os pedaços. Uma cruz. Sem dúvida, saboreava cada um daqueles excitantes segundos, antes que pudesse ir embora, deixando toda a matança que produzira para trás.
O corpo — ou o que sobrou dele — foi deixado de lado após algumas horas de diversão e aproveitamento. Diziam os historiadores que somente uma cena na história humana parecera tão apavorante, assustadora e… inimaginável: o quarto de Mary Jane Kelly, na periferia de Whitechapel, distrito de Londres, na noite de 9 de novembro de 1888. Seres acabadiços certamente vomitariam sem nenhuma dificuldade; enquanto os doentes mentais enalteceriam tal visual, tornando-o marcante e público — tudo, lógico, no intuito de conseguir atenção e audiência.
Uma atrocidade aos olhares de todos os homens e mulheres que se deparariam com ela; uma obra de arte, rica, fina e perfeita aos olhos de quem a montou.
A pessoa saiu do galpão, delonga. Seus passos pesados e calmos marcavam o terreno terroso exterior, amassando vários flocos de neve esbranquiçados, juntos aos filetes de grama secos e mortos e às rameiras florais que davam seus primeiros indícios de vida — algo belo, florescendo em meio a tanta imundície e feiura. O ente caminhava feliz e realizado, praticamente deixando escapar por seus finos e rosados lábios uma bela melodia assobiante. Dirigia a seu automóvel, estacionado a poucos metros de onde estava; o farto não fazia-se presente, tal como a mente pesada que por anos carregou.
A alabastrina e bela luz do luar incidia sobre seus longos e belos cabelos ruivos, extremamente lisos e charmosos; os filetes demonstravam uma nítida analogia ao ato finalizado há menos de um minuto: escorriam por teu crânio e caíam sobre seus ombros como uma cachoeira vermelha, assemelhando-se a um banho de sangue. Uma minguada brincadeira do destino para aquela que, desde cedo, sempre possuiu o carma de carregar a morte consigo.
Aproximou-se, enfim, do veículo, tocando sua gélida maçaneta de metal e adentrando em seu interior. Ainda recheada por uma cautela admirável, como se não ligasse por alguém notá-la em tal recinto, a pessoa retirou de suas mãos as luvas de couro ensanguentadas, apalpando posteriormente uma pequena caixa de papelão localizada no banco do passageiro; guardou-as em seguida, parecendo, após tudo, não querer, realmente, se livrar delas. Atravancou a porta e acionou o motor do veículo, subsequentemente, retirando de seu bolso direito um pequeno conjunto de chaves. Junto ao ronco, o rádio também ativou-se, este automaticamente, começando a aludir gostosas cifras sonoras que amenizaram a tensão — e a calma, ao mesmo tempo — do atual local. Tocava uma música de agradável melodia, advinda da rádio mais famosa das proximidades.
O veículo acelerou e começou a traçar seu rumo, levando quem o dirigia à sua residência própria. A frequência sonora dos assobios tornou-se cada vez mais alta, em um aspecto agudo, transparecendo cada vez mais a frieza e satisfação perante o assassinato. Tais reverberações acústicas foram suficientes para chamar a atenção de um mendigo bêbado que caminhava pelas proximidades, em busca de um lugar tranquilo e aconchegante onde passaria o resto daquela fria noite de inverno.
A neve proveniente do céu parecia ganhar cada vez mais peso e espaço no ar. Uma forte e perigosa nevasca aproximava-se.
No caminho, o assassinato recobriu tua mente mais uma vez. Deliciou-se novamente com as lembranças, e o tempo gasto durante o percurso pareceu passar muito mais veloz que o normal. Dentro de minutos havia chegado à sua casa, não muito grande, todavia não muito pequena. Uma residência ajeitada e tranquila, capaz de acomodar sem dificuldades uma só pessoa, solitária e reclusa de grande parte da sociedade ao seu redor — vizinhos, parentes ou amigos. Não tinha mais a companhia de ninguém há tempos. Desprovida de amor, carinho e atenção. Desprovida, diriam os mais conhecedores de sua pacata vida, de admiração própria e… humanidade.
Rodopiou a chave, desligando o motor. Retirou-se do interior do veículo, sem se atinar ao desligamento do rádio; os flocos de neve grossos, agora, caíam rápidos e pesados sobre o cume de seu corpo. Caminhou, mais uma vez, lenta e vagarosamente, no momento em direção à entrada residencial, de varanda aberta, sem muros, cercas ou vigilância.
O ranger da porta deu lugar a um tremendo aconchego: luzes amareladas em meio a um ambiente acolhedor e belo. Ambientado rusticamente, como se a moradora vivesse, no mínimo, vinte anos atrás de seu atual tempo. A pessoa dispunha agora de uma garganta recheada de indícios de gripe, um nariz começando a escorrer, e uma vontade iniciante de tosse — tudo isso devido à repentina exposição à nevasca que fez teu corpo passar. Perpetuou seus passos até a sala de estar, afiliando-se ao cômodo ainda com um remanso impressionante. Teus olhos avistaram sua envelhecida Bíblia, herdada do passado, envolta a um mundaréu de velas acesas por si mesma antes de partir rumo à captura de sua presa, e um gigantesco quadro, portador de um belo e bem-feito desenho de uma figura mística religiosa.
Ela aproximou-se ainda mais do painel apolíneo, ajoelhando-se em seguida. Tuas rótulas apoiaram contra o solo perfeccionadoramente limpo, sustentando, assim, todo o seu peso corporal. Doíam, com tal atitude incômoda, mas era um sinal de respeito e sabedoria. Tinha noção de que tal criatura representada estava acima dela — e de qualquer um ser vivente aqui na Terra.
— Está feito. — Disse, tentando desviar seus olhares de seu astral, focando-se no chão sob tua face.
Sua voz parecia um pouco roqueira, recheada de melancolia e cansaço — cansaço esse não do que acabara de fazer, mas sim de continuar vivendo.
— Espero que não seja julgada por isso, meu Senhor. Você sabe que eu não poderia deixá-lo viver — hesitou por um instante, as memórias cruéis nadando junto a seus neurônios — Não depois de tudo que ele fez comigo, durante todos esses anos — suspirou profundamente, agora esboçando um singelo sorriso. — Foi o meu desejo. Minha escolha inevitável. Essa era a minha missão na Terra.
Olhou, enfim, para cima, analisando a figura de Cristo. Sob teus olhares, como sempre imaginou. Todo ser que passa por algo aqui na Terra, há de merecer tais passagens. Acreditava que estávamos aqui por uma razão, seja ela qual fosse — cruel, feliz ou indiferente.
— Você não me ajudou quando precisei, mas eu entendo. Depois de tanto tempo, finalmente entendi — seus olhos esverdeados brilhavam com o auxílio das velas. — E mostrei… mostrei que sei resolver meus problemas sozinha. Não preciso da ajuda de ninguém. Eu não me arrependo, nem um pouco. Faria de novo se fosse preciso.
Por um breve momento, uma singela gota ácida lutou para sair de seu ponto lacrimal, porém foi segurada. Não havia motivos para chorar. Não mais.
— Finalmente estou em paz, Senhor.
A luz ainda emitida sobre o rosto fino e delicado da pessoa misteriosa revelou-a como uma mulher. Uma linda e sedutora jovem, de pele pálida como a neve, magra, portadora de um rosto indescritivelmente perfeito, repleto de pequenas sardas, espalhadas por todas as suas extremidades, que aparentava ter por volta de 19 anos.
Prontamente, a garota levantou-se novamente, erguendo com um certa dificuldade todo seu corpo — foi necessário apoiar uma de suas mãos na quina de uma mesa próxima, acompanhada de um pequeno esforço momentâneo.
Teus novos passos a levaram na direção de seu quarto, d’onde, do interior de seu guarda roupa, retirou seu mais belo — e preferido — vestido: cor-de-creme, repleto de detalhes costurais em alto-relevo. Em seguida, prendeu também seus grandes cabelos vermelhos, para que os mesmos não a atrapalhassem no ato que produziria a seguir. Caminhou, após, de volta para a sala e debruçou-se na mesa de madeira, da qual, no passado, já havia participado de inúmeros almoços na companhia de sua mãe adotiva. Sobre a mesa, jazia-se uma velha maleta, herdada de seu falecido progenitor, na qual guardava uma pequena arma de fogo. A jovem a abriu, friamente, e apalpou o objeto metálico pesado em suas finas e delicadas mãos.
Toda a sua força de antes se esvaiu, e a bela garota autorizou, enfim, que todas as suas lágrimas escorressem pelo rosto, tornando teu edulcorado ornamento em algo recheado de tristeza. Subsequentemente, levantou a arma no rumo de sua testa, segurada ainda pelas duas mãos, e soluçou. Soluços de angustia e melancolia. Desejos de que toda a sua vida tivesse sido diferente. Que não tivesse passado por tudo o que passou, e que não necessitasse fazer o que fez. Desejos de ser, como toda outra garota de sua idade, normal.
Por fim, em meio à nevasca exterior que agora atingira teu ápice, um grandioso e brusco som pôde ser ouvido por toda a vizinhança. Mesclado à sonoridade maldita, a garota abriu, sem dificuldades, um terceiro olho em seu perfeito crânio, agora desmantelado e dilacerado. Toda beleza esvaiu, junto à suas forças e… sua vida.
A noite continuou fria e sombria, e mais sangue foi derramado. Seu lindo e ávido vestido bege agora ganhara uma nova coloração, banhado pela seiva rubra que saía de tua face: uma espécie de vermelho abatido, igualmente chamativo, como seus lindos fios de cabelo.
Uma gigantesca e espiritual mão pôde ser vista do alto, pelo agora espectro da garota suicida. Era hora de prestar contas à sua querida divindade.

Continua…


Observação: Essa é a segunda parte, de um total de três, ambientadas na mesma história. O próximo conto sairá em breve — ou não.

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Sobre o Autor

Victor Dourado

Fissurado por quadrinhos, cinema, games e literatura. Estudante de Matemática e autor nas horas vagas. Posso também ser considerado como um antigo explorador espacial, portador do jipe intergaláctico que fez o Percurso de Kessel em menos de 12 parsecs.