Sobre o curta

Lembro a primeira vez que coloquei o olho nessa maravilha da animação. Foi na transmissão do Oscar no ano de 2000. Um apresentador disse que veríamos clips com os indicados na categoria curta metragem. E a hora que vi aquelas imagens, nem consegui prestar atenção nos outros. Foram poucos segundos, em uma época que os televisores HD ainda estavam distantes da realidade. Mas foi o bastante para que eu percebesse a obra-prima que estava diante dos meus olhos. Não à toa o filme venceu o Oscar de animação de 1999.

Infelizmente os indicados nessas categorias poucas vezes chegam aos nossos cinemas. Nem todo mundo é a grande Pixar que pode se dar ao luxo de exibir seus curtas antes de seus longas. Hoje em dia até fazem umas compilações com os indicados a Curta Metragem de Animação, Ficção e Não Ficção/Documentário. Não tenho informações se as locadoras (ainda existem?) têm comprado esses filmes em DVD ou Blu-ray. Ou até mesmo se eles têm sido lançados no Brasil.

Como dizia Pirandello, palavras são insuficientes para descrever essa joia. Que é, na minha opinião, a melhor adaptação desse ótimo (e curto) livro de Ernest Hemingway. Foi esse desenho que me fez querer ler a obra original e me fez gostar ainda mais de Santiago e seus sonhos. Até porque tem muito do velho Hemingway nele. Principalmente na juventude viril dando a volta ao mundo.

As vezes fico sonhando com uma adaptação live action. E após ver o curta não é difícil imaginar Anthony Hopkins num filme com a tecnologia de um As Aventuras de Pi.

Mas voltando ao curta em questão… eu não consegui assisti-lo até 2007. Sim, os mais velhos vão lembrar (amargamente) que antes tínhamos de esperar anos pra ver aquele filme ou série que lemos a respeito em alguma revista dos anos 1980/1990. No entanto, com a popularização do download e a chegada do Youtube, pela primeira vez podemos vislumbrar essas pequenas maravilhas. E foi o meu caso com este filme. Que eu indico desde que vi e vou continuar indicando como um triunfo da arte.

E como várias obras têm passado por restaurações, acabei descobrindo que há pouco tempo, um laboratório do Canadá foi responsável por tornar ainda mais belo esse curta e o disponibilizou em seu canal no Youtube.

Só que como lá não tem legendas em PT-BR e uma das ideias centrais dessa coluna é o acesso fácil a estes trabalhos, resolvemos postar ele no recém canal do OVEST la no Vimeo.

Aproveitem e passem adiante.

Sobre o diretor e sua obra

Ele estudou no famoso VGIK (Gerasimov Institute of Cinematography), em Moscou. Que formou cineastas como Andrei Tarkovsky e Alexander Sokurov. Foi também um discípulo do grande animador russo Yuriy Norshteyn, na Escola Avançada de Diretores e Roteiristas, de Moscou.

Depois de fazer seus primeiros filmes na Rússia, foi para o Canadá, onde adaptou a novela O Velho e o Mar (1999), para um curta de animação de 20 minutos. E o primeiro filme animado de grande formato já realizado. Tecnicamente impressionante, o filme foi todo realizado com pinturas a óleo pastel sobre vidro, uma técnica dominada por poucos animadores do mundo.

O estilo de Petrov a partir do final dos anos 1980 em diante pode ser caracterizado como um tipo de realismo romântico. As pessoas, os animais e as paisagens são pintadas e animadas de uma maneira muito realista. Mas elas se movem como se fossem pinturas vivas.

Outra característica marcante de seu trabalho são as já famosas passagens de sonhos. Onde ele tenta retratar pensamentos e sonhos internos de seus personagens. Em O Velho e o Mar, por exemplo, o pescador sonha que ele e o peixe-espada são irmãos e que nadam através do mar e do céu.

Usando as pontas dos dedos em vez de um pincel em diferentes chapas de vidro posicionadas em vários níveis, cada uma coberta com tintas a óleo de secagem lenta, Petrov foi capaz de adicionar profundidade às pinturas. Depois de fotografar cada quadro pintado, que era quatro vezes maior do que uma tela de tamanho A4 normal. Era preciso modificar a pintura, para a próxima moldura e assim por diante. Petrov levou dois anos, de março de 1997 a abril de 1999, para pintar cada um dos quadros. Totalizando mais 29 mil quadros. Isso mesmo que você leu: 29 mil quadros!

Para fotografar esses quadros, uma câmera especial foi adaptada e um sistema de computador criado apenas para isso. Provavelmente era até então o software mais preciso usado em animações. Com isso, uma câmera IMAX foi montada, com mais outra câmera auxiliar. Depois de todo esse esforço o filme foi altamente aclamado, recebendo o Oscar em Curta Metragem de Animação e o Grande Prêmio no Festival da Academia Internacional de Animação. Petrov manteve uma estreita relação com o estúdio Pascal Blais, no Canadá, que ajudou a financiar O Velho e o Mar (1999), onde ele trabalhou em comerciais.

Depois disso ele retornou para a cidade de Yaroslavl, na Rússia. Para trabalhar em seu último curta, Meu Amor (2006), que foi concluído na primavera de 2006, após três anos de trabalho. Sua estreia foi no Festival Internacional de Animação de Hiroshima, em 27 de agosto, onde ganhou o Prêmio do Público e o Prêmio Internacional Especial do Júri.

Em 18 de março de 2007, Meu Amor (2006) foi lançado oficialmente no Cinema Angelika, em Shibuya (Japão) pelo Studio Ghibli, como o primeiro lançamento da Ghibli Museum Library (lançamentos de teatro e de filmes de animação ocidentais no Japão).

Atualizações…

Em uma entrevista de 2009, Petrov afirmou estar desempregado e que estava vivendo de suas economias.

Em 2010 ele declarou que tinha ideia para um longa metragem usando sua técnica. Mas que não poderia começar pois não tinha conseguido fundos para o projeto.

Em 2014, o diretor fez uma sequência animada de três minutos para os jogos para-olímpicos de Sochi, chamado de Firebird. Em uma entrevista no final do mesmo ano, Petrov confirmou que, se pudesse encontrar financiamento, gostaria de trabalhar em um longa-metragem usando seu estilo de animação. Ele continua trabalhando nesse projeto, mas disse que está passando por grandes dificuldades para tirá-lo do papel.

Acredito que muitas vezes, alguns artistas entendem e respeitam tanto o material de origem, que acabam por serem associados para o resto da vida aquela obra. E não consigo mais imaginar esse grande clássico da literatura sem pensar nessa grande animação e nesse genial diretor.

Espero que gostem dessa incrível metáfora que é a odisseia de Santiago. Onde trabalhamos demais e os tubarões é quem ficam com tudo.


O Velho e o Mar em HD (Legendado) do canal do OVEST no Vimeo.

O Velho e o Mar (The Old Man and the Sea) – Rússia, Japão, Canadá, 1999, cor, 20 minutos.
Direção: Aleksander Petrov. Roteiro: Aleksander Petrov. Música: Normand Roger, Denis L. Chartrand. Fotografia: Sergey Reshetnikov. Elenco: Gordon Pinsent, Kevin Duhaney, Yôji Matsuda e Rentarô Mikuni.

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Sobre o Autor

Cleber Miranda

Jornalista por formação e amante das artes por opção. Gosta ainda de comer, viajar, ler, escutar música, ver filmes, séries… e fazer outras coisas sem as quais não conseguiríamos sobreviver.

  • Excelente texto, Cleber. Muito bem informativo.
    A animação é realmente linda e impressionante. Imagino o grande trabalho que esse diretor teve…

    • cleber

      Muito obrigado.

      Esse diretor realmente é um mestre. É até uma ironia o que vou dizer, mas por ser tão único, acabou de certa maneira se auto-anulando. Já que a técnica que ele desenvolveu, além de extremamente trabalhosa, acaba por ser difícil de conseguir financiamento.

      Não que ele deva cobrar zilhões para fazer um curta desses. Mas imagino que, alem do filho, mais ninguém tenha a capacidade de ajuda-lo. Se uma animação “normal” já leva 4/5 anos pra ficar pronta, mesmo contando com centenas de profissionais trabalhando ao mesmo tempo. Imagina fazer praticamente tudo sozinho?

      Acabei de ter essa ideia, mas acho que o finaciamento coletivo seria uma saida para ele conseguir fazer seu longa.

      Em breve no canal do Ovest postarei outros curtas dele. Que são sim maravilhosos do ponto de vista técnico, mas que nunca esquecem de fazer o mais importante: contar uma historia.

    • Bota trabalho nisso. Anos a fio pintando 29 mil quadros. Poucos possuem tal determinação!

  • “Deus, me ajude a suportar!”

    Primeiramente, parabéns pelo seu excelente primeiro texto, meu amigo Cleber!
    Adorei a forma como conduziu suas palavras, todas bem próximas ao leitor. Li como se estivéssemos em uma real conversa, vendo você falar diretamente para mim, como qualquer jogo fora de papo corriqueiro; mas com um diferencial: essa tal prosa era recheada por um assunto e tanto.

    Eu acabei de assistir ao curta. Não tenho outra palavra para defini-lo a não ser: impressionante. O roteiro é simples, mas com uma áurea gostosa, dotada de belas palavras e um grande ensinamento ao final: lutamos muito, nos esforçamos, damos praticamente nossas próprias vidas… mas nem por isso o sucesso está garantido.
    O esforço admirável do velho em conseguir o peixe é genial, e demonstra com maestria sua personalidade forte. A pequena pincelada que o curta dá sobre sua história também é soberba; desde sempre, o velho homem sempre foi empenhado, e jamais desistiu de alguma coisa sem, ao final, ser chamado de Campeão.

    Cada take é uma obra prima, realmente; mais do que merecido todo o reconhecimento. Fiquei, desde o primeiro segundo até o último, completamente boquiaberto. Infelizmente o Petrov não anda numa maré de sorte atualmente. Espero que consiga finalizar esse próximo trabalho que tanto deseja.
    E eu gostaria de deixar uma pequena opinião ao final desse meu comentário: eu, diferente de você, não gostaria de ver um live action; sem com Anthony Hopkins (meu ator predileto) interpretando o velho. A magia e a beleza, na minha opinião, estão na riqueza visual da narrativa pintada, mesclada ao roteiro simplista tocante; tirar uma dessas qualidades, poderia, facilmente, deixar a obra um pouco menos prima.

    Muito obrigado por essa recomendação, e, mais uma vez, parabéns pelo belíssimo texto!

    • Se puder, leia o livro. É fenomenal. E ainda é daqueles que se lê em uma tarde ou noite.

  • Estephano

    Sensacional! Isso é uma obra de arte.

    Excelente texto, Cleber. Obrigado por trazer esse vídeo para a gente, e ainda legendado. É um tipo e conteúdo que não se vê facilmente, principalmente em sites aqui no Brasil.

    A técnica desenvolvida pelo Petrov é absurda, o indicado ao Oscar “Com Amor, Van Gogh” tem um estilo parecido desse, embora a técnica tenha diferenças e a equipe de “Com Amor, Van Gohg” seja absurdamente maior se comparado a desse curta, e mesmo assim demorou bastante tempo para sair do papel. O que torna ainda mais absurdo o Petrov ter feito tudo isso praticamente sozinho, e quase vinte anos atrás.

    Eu realmente não entendo como muitos países da Europa não investem tanto no mercado cinematográfico, principalmente por boa parte da Europa ter uma economia forte. Um cara com esse talento nos EUA, ou até mesmo no Reino Unido faria um estrago gigante. É lamentável que talentos assim sejam aproveitados muito superficialmente.

    Falando sobre a história do curta, ele me lembrou muito um trecho de “contos do cargueiro negro” em Watchmen, pelo visto o livro do Ernest Hemingway foi uma das inspirações do Moore. Fora que eu consigo lembrar algumas vezes que vi histórias parecidas com essa, de diversas mídias, mas nenhuma me vem o nome na cabeça agora, a única que lembrei com clareza foi a de Watchmen mesmo. Teve muitas adaptações desse livro?

    • Dave Mustaine Kryptoniano

      A princípio,a luta do velho em busca do peixe me lembrou vagamente de Moby Dick,só que a mensagem lá é outra.

      • Estephano

        Verdade. Parece que histórias de confrontos no mar entre homem e animal não são muito incomuns. rs

  • Dave Mustaine Kryptoniano

    Ótimo texto de estréia Cleber!
    Cara,que animação fantástica,cada frame é lindo,deu um trabalho danado mas tudo valeu a pena no final,o resultado ficou incrível! A trilha sonora também ajuda bastante a criar essa atmosfera melancólica e contemplativa.
    Eu só gostaria que você tivesse escrito um pouco mais sobre a animação em si,sobre a história e suas metáforas.

  • Excelente texto @disqus_Om439oROP23:disqus , e curta espetacular. Esse é um dos meus livros prediletos. Li a primeira vez na adolescência, e outras cinco vezes desde então. Fenomenal a qualidade dessa animação. Simplesmente cada frame dela dá vontade de pegar e fazer um papel de parede ou um quadro…rs Surreal o trabalho que o diretor teve com essa técnica impressionante de pintura sobre o vidro. E mais incrível ainda é ser tão talentoso a esse ponto e não estar tendo oportunidades de criar novas obras do tipo. A frase do livro, com a qual você encerra o texto, realmente define tudo: trabalhamos demais e os tubarões é quem ficam com tudo.