Estamos no período do Natal. Quando o levado Kevin McCallister (Macaulay Culkin), de oito anos de idade, não se comporta na noite anterior a viagem de sua família para Paris, sua mãe Kate (Catherine O’Hara) o faz dormir no sótão e ele deseja que sua família não estivesse em casa. Uma queda da luz durante a noite, o consequente atraso ao acordar pela manhã, a pressa e um pequeno vizinho bisbilhoteiro fazem com que os McCallister partam para o aeroporto sem Kevin, que acorda no começo da tarde e acredita que o seu desejo se tornou realidade. Agora ele é o homem da casa! Sozinho e desajeitado, Kevin será obrigado a resolver seus próprios problemas domésticos, além de lidar com dois ladrões (Joe Pesci e Daniel Stern) que planejam roubar a sua residência.

O time formado para Esqueceram de Mim foi de primeira linha. A produção inicialmente seria da Warner Bros., mas ninguém levava muita fé no projeto, que acabou indo parar nas mãos da 20th Century Fox, onde recebeu um substancial aumento de orçamento, de US$ 14 para US$ 17 milhões. A ideia surgiu de John Hughes, quando dirigiu Macaulay Culkin em Quem Vê Cara Não Vê Coração (1989) e viu o potencial da futura estrela mirim. Famoso pelos clássicos oitentistas Clube dos Cinco (1985) e Curtindo a Vida Adoidado (1986), Hughes roteirizou e produziu o filme. Para a direção, o escolhido foi Chris Columbus, que havia sido roteirista de Gremlins (1984) e Os Gonnies (1985), mas como diretor fazia apenas o seu segundo trabalho. Na trilha sonora, que teve indicações para Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Canção Original (Somewhere in My Memory) no Oscar de 1991, um dos maiores compositores da história do cinema: John Williams. O resultado final foi a maior bilheteria de 1990, com mais de US$ 476 milhões arrecadados, e a transformação de Culkin no ator mirim mais bem pago dos anos 1990.

O enredo extremamente simples é a desculpa perfeita para uma sucessão de sequências divertidíssimas em todos os trechos da narrativa, desde a repentina solidão de Kevin, até suas peripécias para proteger o seu lar. As gags cômicas são exploradas através das inúmeras e inventivas armadilhas que o garoto espalha pela casa para conter os dois ladrões, que são inteiramente enganados pelo pirralho, sofrendo horrores com escadas perigosamente escorregadias, espingardas de chumbinho, maçanetas extremamente quentes, baldes de tinta no rosto, penduricalhos no chão, cordas cortadas e tarântulas assustadoras. Os “bandidos molhados” são dois trapalhões de marca maior, e as interpretações exageradas de Joe Pesci e Daniel Stern são absurdamente hilárias. Além deles, Macaulay Culkin arranca boas gargalhadas com suas caras e bocas.

O universo infantil é devidamente explorado na jornada de Kevin nesses dias em que se vê sozinho, desde o contentamento inicial por poder fazer o que quiser tendo a casa toda para si (pular na cama, usar loção pós-barba, comer todo tipo de porcarias), até a repentina “maturidade” adquirida, quando é obrigado a lavar as próprias roupas e ir fazer compras. Vamos do medo infantil que o faz correr para debaixo da cama ou da coberta ou fechar os olhos enquanto assiste a um filme “proibido”, para a coragem com a qual enfrenta dois bandidos e o peso na consciência que brota dentro da igreja quando descobre que o “assassino da pá” (Roberts Blossom) das histórias que seu irmão mais velho inventa é simplesmente um vizinho idoso que vai ver a sua neta no coral de Natal e se ressente por não falar há anos com o filho – e aqui entra o elemento moral, com a mensagem natalina de reconciliação a servir de pano de fundo para a comédia.

Angels with Filthy Souls, um fictício filme noir em preto e branco, teve uma sequência de cenas especialmente produzidas para o filme e serve como uma incrível metalinguagem (o filme dentro do filme), sendo utilizado repetidas vezes por Kevin, tanto para receber o entregador de pizzas quanto para assustar os dois bandidos trapalhões: “Vou dizer o que vou lhe dar. Vou contar até dez para você tirar esse seu traseiro feio e fedorento da minha casa antes que eu estoure seus miolos. Um, dois… dez! Fique com o troco, seu animal imundo.”

A câmera de Chris Columbus passeando pela casa no começo do filme é precisa na intenção de mostrar toda a extensão da residência, além de apresentar a infinidade de familiares que se amontoam na casa dos McCallister na véspera da viagem. Com a participação de vários membros da família de Columbus no elenco, um ator mirim em ascensão e um elenco adulto muito bem escalado (destaques para o sempre hilário Joe Pesci como um ladrão inteiramente ensandecido e Catherine O’Hara no papel da doce e preocupada mãe), Esqueceram de Mim é um clássico natalino que marcou gerações de espectadores com uma história simples, cativante e divertida.

Esqueceram de Mim ((Home Alone) – EUA, 1990, cor, 103 minutos.
Direção: Chris Columbus. Roteiro: John Hughes. Música: John Williams. Cinematografia: Julio Macat. Edição: Raja Gosnell. Elenco: Macaulay Culkin, Joe Pesci, Daniel Stern, John Heard, Roberts Blossom, Catherine O’Hara, Angela Goethals, Devin Ratray, Gerry Bamman, John Candy e Kieran Culkin.

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Sobre o Autor

Rodrigo Oliveira

Católico. Desenvolvedor de eBooks. Um apaixonado por cinema – em especial por western – e literatura. Fã do Surfista Prateado e aficionado pelas obras de Akira Kurosawa, G. K. Chesterton, John Ford, John Wayne e Joseph Ratzinger.

  • Dave Mustaine Kryptoniano

    Excelente crítica,meu amigo. Já vi Esqueceram de Mim umas 1000 vezes,mas é sempre legal kkk aliás,já tem um tempinho que eu vi pela última vez,já to precisando ver pela milionésima primeira vez,rs. Pior que eu realmente não sabia que o filme era dirigido pelo Chris Columbus e escrito/dirigido pelo John Hughes e que a trilha era do John Willans,olha só kkkk Joe Pesci não tem nem o que falar,o cara manda bem em todo papel que faz,seja como irmão e apoio moral de um irmão boxeador,como um gangster violento e ameaçador,como um informante puxa-saco e claro,como um bandido trapalhão.

    Feliz Natal,meu amigo!

    • Valeu, meu amigo. Acho que vou rever o 2 agora. Pois é, passa meio batido, mas montaram um timaço pra esse filme…rs E Joe Pesci é Joe Pesci, como você diz: de gângster violento a bandido trapalhão, não tem um papel em que ele não se destaque…rs

      Feliz Natal!

  • Lutércia

    Sensacional esse filme! A gente assiste inúmeras vzs e se diverte, se emociona e se envolve sempre da mesma forma. Parabéns pela crítica! Sempre que tenho a chance de rever, não perco! Rss
    De fato, um clássico da infância!

    • Como você disse ontem, é um daqueles filmes que tem aquela “magia” de nos fazer rever sempre sem cansar.

  • Ótima crítica, Rodrigo.
    É sem dúvidas um dos melhores filmes pra assistir no Natal. Eu lembro de assistir bastante esse filme quando eu tinha uns 6 anos. Passava no CN.
    Lembro que por onde eu passava me comparavam com o Macaulay Culkin, mas eu nunca me achei parecido com ele kkkkkk
    E para finalizar, feliz Natal (atrasado) para todos!

    • Valeu. Será que não te comparavam por ser uma peste igual a ele no filme? rs Uma pena o Macaulay Culkin ter se perdido completamente depois que cresceu.

      Feliz Natal!

  • Ghostface

    Crítica muito boa, Rodrigo!
    É um filme muito divertido, a última vez que vi foi ano passado quando estava apresentando ele para minha irmã.

    • Valeu. Esse filme era uma febre de locação na época do VHS…rs

      • Ghostface

        Só imagino kkkkkkk.

  • Estephano

    Quase passei batido por essa crítica.
    Muito legal você ter feito crítica desse filme, esse foi um dos filmes que eu mais vi na minha infância, nem lembro quantas vezes pedi para o meu pai alugar esse e o dois. rs
    Na época eu acreditava fortemente que esses dois ladrões eram perigosíssimos e o moleque um gênio inocente, hoje, vejo que não passavam de dois patetas que não tinham a menor chance, sofrendo bully de um molequinho. Kkkk
    A equipe desse filme era muito boa, dificilmente vemos filmes desse tipo com uma equipe desse calibre nos tempos atuais, e acho que vai demorar para voltarmos a ver.

    • valeu. A lembrança que eu tinha também era que os bandidos aterrorizavam o Macaulay Culkin. E revendo pude constatar que só chegam perto disso quando penduram ele na porta…rs Realmente, é um time que dificilmente se formaria para filmes do tipo hoje.

  • Excelente crítica, Rodrigo. Um dos maiores clássicos do natal — e da sessão da tarde! kkkkkk
    Eu JURAVA que esse filme era dirigido pelo Hughes, sério. Mas ele apenas idealizou a ideia. Foi curioso descobrir essas curiosidades. Mas, hein… 17 milhões para produzir, e quase meio bilhão de lucro… por isso a franquia foi tão longeva, e viveu além do Macaulay Culkin.
    Me lembro muito bem de Esqueceram de Mim 3, com o Alex D. Linz. Eu tenho um enorme carinho por esse filme.

    • Valeu, meu amigo. O time que o Hughes montou pra esse filme foi simplesmente incrível. E com esse sucesso absurdo era óbvio que iam extrair até a última gosta. Deu quase meio bilhão de lucro no cinema, mas há de se lembrar também a febre que era em VHS, e que home video dava muito mais dinheiro na época das locadoras do que hoje… então imagine quando deu no fim das contas…rs

      • Então deu MUITO mais dinheiro do que todo mundo esperava (e eu imaginava)… kkkkkkk

  • Herbie: The Love Bug

    Excelente crítica, Rodrigo!
    Assisti esse filme ainda pequeno, então não me lembro de muita coisa. Mas a cena onde ele zoa com os bandidos é inesquecível.

    • Valeu. Esse filme fez muito sucesso. O que deve ter dado de lucro em home video não é brincadeira…rs