Pertencente a uma família musical – sua tia e sua avó eram cantoras profissionais, seu pai toca banjo e guitarra e sua mãe atua em teatro musical e corais –, Jane Monheit é de Oakdale, Nova York, na costa leste de Long Island. Ainda no colégio estudou clarinete e teoria musical e atuou em produções teatrais da comunidade local. Aos 17 anos começou formalmente seu treinamento vocal com Peter Eldridge na Manhattan School of Music, graduando-se com honras em 1999. Em 1998, aos 20 anos, ficou em segundo lugar entre vocalistas na prestigiosa Thelonious Monk International Jazz Competition.

Jane Monheit tinha apenas 22 anos de idade em 2000, quando fez o seu impressionante debut como cantora de jazz com o álbum Never Never Land. Na composição da sua extraordinária banda, um sexteto luxuoso com alguns dos mais notáveis músicos de jazz do planeta: o guitarrista Bucky Pizzarelli, o baixista Ron Carter (membro da segunda formação do lendário Miles Davis Quintet entre 1964-1968), os saxofonistas Hank Crawford (diretor musical de Ray Charles) e David “Fathead” Newman, o baterista Lewis Nash e o pianista Kenny Barron. Nos arranjos, Peter Eldridge e David Berkman.

“Just think of lovely things
And your heart will fly on wings
Forever
In never never land”

O repertório de 10 faixas de Never Never Land é nostálgico, uma escolha segura e arriscada em iguais proporções, já que Jane Monheit e seu time de feras reinventam grandes standards da música norte-americana – temas amplamente conhecidos que se tornam parte do repertório básico de jazzistas. Ou seja, o grau de excelência a ser atingido para que o trabalho final seja minimamente bom é elevadíssimo, porque tratam-se de canções que tiveram dezenas de gravações lendárias desde que foram lançadas pela primeira vez. Ao mesmo tempo o álbum reflete muito de como foi formada a alma musical de Monheit, fortemente influenciada por grandes cantoras como Ella Fitzgerald e Joni Mitchell.

Quase todas as canções são do Great American Songbook, o cânone das músicas mais importantes e influentes do jazz do início do século XX. São canções populares, de rádio, de musicais de Broadway, muitas delas usadas em trilhas de filmes clássicos de Hollywood. Never Never Land tem composições de lendas como Buddy Johnson, Duke Ellington e Saul Chaplin que receberam gravações históricas de outras gigantes da música como Sarah Vaughan (“Please Be Kind“), Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Billie Holiday (“Detour Ahead“), Louis Armstrong (“I Got It Bad (And That Ain’t Good)“), Judy Garland (“More Than You Know“), Bing Crosby (“My Foolish Heart“), Tony Bennett, Marvin Gaye e Joni Mitchell (“Twisted“).

“Never let me go,
Love me much too much,
If you let me go
Life would lose its touch.
What would I be without you?
There’s no place for me without you!”

Além dos standards norte-americanos, há espaço para a bossa nova, e Jane Monheit interpreta “Dindi“, composição do maestro soberano Antonio Carlos Jobim e de Aloísio de Oliveira, com a versão em inglês feita pelo letrista Ray Gilbert. Essa música foi um dos grandes sucessos de Tom Jobim nos EUA e recebeu gravações de Ella Fiztgerald, Sarah Vaughan, Wayne Shorter e Frank Sinatra. O arranjo de “My Foolish Heart” também segue uma linha bossa-novista, evidenciando o gosto de Monheit pela música brasileira – o que seria realçado ainda mais no futuro, com participações constantes de Ivan Lins em seus trabalhos, a gravação de um álbum inteiro (Surrender) com forte influência da música brasileira, e versões de inúmeras canções brasileiras, muitas delas cantadas por ela em português.

São os acordes suingantes do piano de Kenny Barron na clássica “Please be Kind” (1938) que preparam o terreno para a introdução da maravilhosa voz de Jane Monheit. Seu timbre agradabilíssimo é de uma beleza fenomenal, e os arranjos vocais feitos pela própria Monheit apresentam uma cantora extremamente confortável em todas as faixas, soando duplamente como uma diva do jazz antiga e moderna. Ainda que esteja acompanhada por um timaço de músicos de primeiro quilate, sua voz soa tão perfeita que não restam dúvidas sobre quem é a estrela principal: basta ouvir com atenção os deliciosos 70 segundos iniciais de “I Got It Bad (e That Is Not Good)“, cantados sem apoio, à capela, para notar a maviosidade interpretativa de Monheit, que adiciona grandes doses de cor e sentimento à sua evidente e apurada técnica.

“Sky, so vast is the sky,
with far away clouds just wandering by
Where do they go?
Oh I don’t know, don’t know”

Never Never Land tem tudo que um grande disco de jazz necessita: improvisações e belíssimos arranjos (atenção para o inebriante solo de sax em “Detour Ahead“), com espaço para deliciosos sabores latinos da bossa nova, e até mesmo toques de blues, e melodias brilhantes e letras delicadas interpretadas com sublimidade por uma voz altamente treinada que ainda assim não coloca a emoção de lado em instante algum – o trabalho vocal de Jane Monheit é elegante, refinado e apaixonante. Dezessete anos atrás a cantora nova-iorquina se lançava para o mundo e gravava de imediato o seu nome como uma das maiores revelações do jazz moderno. No mundo de sonhos da música, Monheit vive o seu próprio sonho. Nas suas palavras:

Gravar com esses músicos foi realmente assustador – e a experiência mais incrível da minha vida. Nunca pensei que algo assim fosse acontecer comigo tão jovem. Eu pensava que estaria cantando em casamentos por toda a minha vida. E isso teria sido legal se eu pudesse ter ganhado a vida cantando. Isso é tudo o que me importa. Nós chamamos o álbum de Never Never Land porque esta é a minha Terra do Nunca. Eu estou no país dos sonhos – e eu sempre quis chegar até aqui.”

“Never Never Land”
Artista: Jane Monheit.
Gênero: Jazz, Vocal.
Duração: 46:15.
Formato: CD.
Ano de lançamento: 2000.
Gravadora: Sear Sound Studios.

Lista de músicas

Número

Título

Compositores

Duração

1 Please Be Kind Sammy Cahn e Saul Chaplin 3:43
2 Detour Ahead Lou Carter, Herb Ellis e John Freigo 6:30
3 More Than You Know Edward Eliscu, Billy Rose e Vincent Youmans 3:04
4 Dindi Antônio Carlos Jobim, Aloísio de Oliveira e Ray Gilbert 4:52
5 Save Your Love for Me Buddy Johnson 5:21
6 Never Let Me Go Ray Evans e Jay Livingston 4:00
7 My Foolish Heart Victor Young e Ned Washington 4:32
8 I Got It Bad (And That Ain’t Good) Duke Ellington e Paul Francis Webster 6:15
9 Twisted Wardell Gray e Annie Ross 4:01
10 Never Never Land Betty Comden, Adolph Green e Jule Styne 3:57
Compartilhe

Sobre o Autor

Rodrigo Oliveira

Católico. Desenvolvedor de eBooks. Um apaixonado por cinema – em especial por western – e literatura. Fã do Surfista Prateado e aficionado pelas obras de Akira Kurosawa, G. K. Chesterton, John Ford, John Wayne e Joseph Ratzinger.

  • Dave Mustaine Rebirth

    Droga,o primeiro post de música do site deveria ser meu…rs. Brincadeira,quem mandou eu enrolar,não é?

    Excelente,meu amigo,muito bom ver você falando sobre música.
    Eu gosto de jazz,é bem agradável aos ouvidos,não é o tipo de música que eu costumo escutar no meu dia á dia,mas é muito bom.

    Curiosamente,existe um álbum do Annihilator,banda de Thrash Metal Progressivo,com esse mesmo nome,mas no caso deles,o Neverland é escrito tudo junto:

    https://uploads.disquscdn.com/images/3e2892a4fb02b96070ddfdd770f5ccf8bf0268b998d9163d015227c45eafb1b3.jpg

    • Valeu. Esse post estava aqui pra finalizar faz tempo. Finalmente consegui…rs Mas a categoria Música provavelmente vai ser preenchida é com mais posts seus…rs

      Quando tava procurando informações técnicas do álbum o google sempre achava esse aí de trash metal.

      • Dave Mustaine Rebirth

        Com certeza será…rs.

        Ah,não é Trash,é Thrash mesmo,vem um H depois do T.

  • Kleber Oliveira

    Caramba, que álbum! Valeu mesmo por nos trazer essa beleza. Estou ouvindo ele nesse momento, exatamente a faixa Dindi, e já estou muito satisfeito. Apesar de adorar Jazz, eu busco muito pouco sobre o estilo além dos clássicos. Além disso, tenho muito mais contato com o Metal, então é ótimo encontrar um contraste como esse. Já estou procurando para passar para o celular, haha.

    Ótima recomendação!

    • Valeu! Conseguiu achar o álbum inteiro aí? Gosto muito da Monheit e pude ir em um show dela aqui no Rio em 2013. Cantou um monte de música brasileira e até arriscou português…rs

      • Kleber Oliveira

        Ouvi apenas nos Youtube. Ainda vou procurar pra baixar.

      • Tem ele completo no Spotify. Tô escutando por aqui! kkkkk

  • Tão jovem… e tão talentosa!!!
    Estou escrevendo esse comentário ao som de Dindi, já que tem letra do Antonio Carlos Jobim. A voz da Jane Monheit é mesmo maravilhosa, hein? Eu não a conhecia, até agora. Jazz é um estilo que agrada muito meus ouvidos, mas não aprecio muito, justamente pelo fato de não saber muito bem por onde começar. Acho que esse é um bom começo, né?
    Ela deu sorte (uma sorte misturada com MUITO talento) em trabalhar com profissionais de ponta nesse seu primeiro disco. Isso com certeza engrandeceu bastante o sucesso das singles.
    Excelente análise, @alordesh:disqus!

    • Valeu, meu amigo. A letra de Dindi é do Aloísio de Oliveira. A melodia que é do maestro soberano.

      Jazz tem muitos lugares por onde começar…rs Bem, você começou por uma voz recente, do novo jazz, que sempre presta tributo às lendas (Diana Krall e Norah Jones são outros exemplo). Se quiser se debruçar no passado, vários dos grandes nomes estão no texto: Miles Davis, Ella Fiztgerald, Sarah Vaughan, Louis Armstrong, Billie Holiday, Duke Ellington… Só gigantes.

      • Vou começar pelos dois primeiros. Miles Davis e Ella Fiztgerald.
        Já abri o spotify aqui, pra escutar algumas canções do Miles.

    • Kleber Oliveira
      • Eu adorei essa primeira música. Escutei ela umas três vezes já! kkkkk