Desde muito pequeno, Anselmo se engajava na vida política. O menino levava jeito. Aos quatro anos, comemorava quando seus desenhos animados eram interrompidos pelo horário eleitoral gratuito obrigatório. Quando completou cinco anos, fez a pergunta que assusta e encabula todos os pais:

– De onde vêm os políticos?

Ao completar dez anos, Anselmo disse que queria de presente um título de eleitor. Foram necessárias horas para convencê-lo de que teria que esperar mais. No seu aniversário de onze anos, ao ganhar uma camisa do Vasco, chorou dizendo que queria uma do seu partido político favorito.

Anselmo tinha um bom coração e defendia as necessidades dos amigos. Queria criar propostas de leis para uma melhor convivência na vila onde morava. Criança extraordinária. Com treze anos criou a proposta do “minha gemada, minha vida”, ao ouvir a história de um amigo que ia para a escola sem o café da manhã. Garoto extraordinário, com grande aptidão para a causa dos menos afortunados.

Aos 16 anos, conquistou seu direito de votar e logo foi se encaixando no meio de quem estava por dentro do assunto. Aos 18, filiou-se e foi ser feliz. Foi convidado para o coquetel do seu partido que lançaria um grande nome à Prefeitura. Anselmo não dormiu direito até o grande dia. Ensaiava seus discursos para o caso de ter a oportunidade de conversar com alguém influente. Era necessário mostrar seu potencial. E então, a grande noite chegou. Anselmo parecia estar no paraíso. Todos eram barrigudos e fediam a Whisky. Anselmo até estufou a barriga para se enturmar. Deu suas voltas no salão abarrotado, em busca de alguém para papear. Viu um militante encostado sozinho em um canto, bebendo um gole d’água. Como quem não queria nada, Anselmo foi chegando perto e ao receber um sorriso de canto de boca, estendeu sua mão para que fosse apertada e começou sua conversa.

– Parece que sou o mais jovem aqui. Que estranho. Se aproveitando dessa revolução tecnológica, os jovens bradam por seus direitos e lutam por uma liberdade, por ora até sem sentido. Duelam entre entusiastas de esquerda e defensores da direita, sem sequer analisarem um mapa de toda a ideologia que vem sendo oferecida desde os primórdios da civilização. São guerrilheiros de sites de relacionamentos, que emanam em cada palavra, conceitos antiquados do que é sociedade, seus direitos e deveres.

Pronto, Anselmo disse tudo sem titubear. Estava todo cheio de si. No seu peito não batia um coração, tremulava uma bandeira de partido. A resposta do companheiro levou cerca de um quarto de minuto para começar a sair. Provavelmente ele estaria pensando em algo a altura para dizer. Aquela era a sua primeira interação política. Quando a reposta veio, chegou destruindo anos de amor à vida pública:

– A que horas vão servir os croquetes?

Anselmo descobriu como a vida era cruel e como não se sentia mais em casa estando ali. Mas pelo menos começaram a servir os croquetes logo após. Ao esticar a mão para se servir do seu, teve sua segunda experiência real com a política. Recebeu um tapa na mão e ouviu:

– É só para os líderes do partido.

A cada momento, em cada esquina, morre a política brasileira. Propinas a meio mastro!

Compartilhe

Sobre o Autor

Tiago Soares

Católico, vascaíno, biomédico e pobre. Com relação à escrita, conforme descrição de um nobre amigo meu, sou um poeta que se finge de contista escrevendo crônicas. Ou seja, coisa alguma! Ou, se preferir, qualquer coisa. Do que chamar, eu atendo!

  • No seu aniversário de onze anos, ao ganhar uma camisa do Vasco, chorou dizendo que queria uma do seu partido político favorito.

    Kkkkkkkkkkkkkk Muito bom, meu amigo. Esse humor sardônico é demais. “Propinas a meio mastro!” No Brasil será assim indefinidamente…rs

  • Aragorn II, King of Gondor

    Hahaha… que texto fantástico! Humor incrível… e uma crítica dura. Pobre Anselmo!