A primeira vez que o western teve a sua morte decretada foi logo após o monumental fracasso de O Portal do Paraíso, de Michael Cimino, que levou o estúdio United Artists à falência em 1980. Considerado morto e enterrado por uma década (apesar dos excelentes O Cavaleiro Solitário [1985], de Clint Eastwood e Silverado [1985], de Lawrence Kasdan), o western renasceu das cinzas com Dança com Lobos (1990), de Kevin Costner e Os Imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood. No início dos anos 2000 os mais afoitos tornaram a declarar a sua passagem definitiva para o outro mundo, mas vieram obras como Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) e Bravura Indômita (2010), de Joel e Ethan Coen, Django Livre (2012) e Os Oito Odiados (2015), de Quentin Tarantino, Dívida de Honra (2014), de Tommy Lee Jones, O Regresso (2016), de Alejandro González Iñárritu e o remake de Sete Homens e Um Destino (2016), de Antoine Fuqua, dentre tantas outras.

Por mais que o período histórico que compreende o Velho Oeste esteja limitado a míseros trinta anos da história dos Estados Unidos da América, o fato de ter abarcado um empreendimento de colonização e expansão da fronteira para uma região inóspita, repleta de perigos naturais, ameaça de outros povos, sem a força presente da lei, distante das então nascentes comodidades do mundo moderno, faz com que um western seja capaz de tratar sobre todos os temas que importam ao ser humano: ameaça, tirania, vingança, marcha do progresso, conquista, solidão, redenção, injustiça, o poder da lei… o gênero diz um pouco sobre tudo.

O mais rico dos gêneros cinematográficos, nascido em 1903 com os curtas O Grande Roubo de Trem, de Edwin S. Porter e Kit Carson, de Wallace McCutcheon, dominante em Hollywood por aproximadamente cinquenta anos e influenciador ao redor do mundo, entre outros, do cinema italiano (década de 1960) e japonês (década de 1950), o western possui um imenso leque narrativo capaz de compreender ação, aventura, drama, sobrevivência, terror, suspense, comédia, existencialismo, revisionismo, historicismo… Um western, aliás, não precisa nem mesmo ser ambientado no Velho Oeste: pode ocorrer no Japão Feudal, no sertão do Brasil, nas regiões desérticas da Espanha e nas cidades fronteiriças da América atual.

O western se adaptou e se reinventou. Atualmente tornou-se um gênero de nicho, produzido a conta-gotas, mas invariavelmente com imensa qualidade, realizado, quase sempre, por apaixonados pelo gênero. A Qualquer Custo, um neo-western (termo usado para designar obras que utilizam os elementos tradicionais do gênero, mas sem necessariamente estarem definidas no período histórico e geográfico do Velho Oeste) independente, dirigido pelo escocês David Mackenzie e roteirizado por Taylor Sheridan, é o mais recente exemplo desse espírito camaleônico de um gênero que resiste ao tempo.

Três turnos no Iraque, mas não financiam nossas hipotecas“. A pichação é focalizada nos primeiros instantes do fantástico plano-sequência que abre o filme; enquanto a câmera gira em seu eixo, vemos a pequena cidade do Texas, empobrecida e vazia, um carro que se aproxima ao fundo, uma funcionária que chega nas primeiras horas da manhã para abrir uma agência bancária, e dois bandidos encapuzados que anunciam um assalto. A sequência de aproximadamente um minuto irá situar personagens, paisagem e indicar os sinais do estilo de filme que veremos a seguir. Antes que os créditos comecem a aparecer em tela, veremos ainda um segundo assalto.

Toby Howard (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster) são irmãos. Toby é divorciado, tem dois filhos, é racional, discreto e nunca se envolveu com o crime. Tanner é um ex-presidiário, explosivo e violento, solto da prisão recentemente após cumprir uma pena de dez anos. O meticuloso plano articulado por Toby consiste em roubar quantias irrisórias de várias agências de um único banco, o Texas Midland Bank, por um curto período de tempo. O plano não chamará a atenção do FBI, mas os assaltos dos irmãos logo começarão a ser investigados por Marcus Hamilton (Jeff Bridges), um experiente Texas Ranger a poucos dias da sua aposentadoria, e seu parceiro meio indígena, meio mexicano, Alberto Parker (Gil Birmingham).

Há um motivo muito bem definido para que eles estejam roubando valores pequenos de agências específicas do Texas Midland Bank, mas o roteiro de Taylor Sheridan (também roteirista do excelente Sicario: Terra de Ninguém, de Dennis Villeneuve) não é apressado – e nem a montagem de Jake Roberts, que controla o ritmo com maestria, indo da calmaria à intensidade explosiva com habilidade. De início nem sabemos que ambos são irmãos; somente mais à frente nós descobriremos o quanto suas vidas foram afetadas pela crise econômica e pelos bancos.

O roteiro repleto de nuances de Taylor Sheridan insere os elementos que nos permitirão compreender a motivação dos irmãos aos poucos, sem pressa – a motivação completa para as suas ações ficará clara quando mais da metade do filme já tiver passado, em uma conversa dos irmãos com um advogado –, através de diálogos ricos e inteligentes. Frases marcantes (“Índio não tem pena de caubói. É o contrário.” – Marcus Hamilton) delineiam a história com habilidade, além de inúmeras tiradas dotadas de um humor mordaz e politicamente incorreto, e um passeio por personagens coadjuvantes, pessoas comuns, cujas falas curtas auxiliam a construir e enriquecer a jornada dos protagonistas sem cair no sentimentalismo ou no didatismo.

Duas são as frentes narrativas de A Qualquer Custo. A história de Toby e Tanner é, em certo aspecto, uma jornada expiatória. Ambos cresceram na pobreza, e são conscientes de que dificilmente escaparão desse carma. Estão cometendo crimes, mas a narrativa estabelece suas motivações com elegância: se não justifica o que estão fazendo (e não justifica), faz com que o espectador relacione-se com eles. Já a relação entre os personagens de Bridges e Birmingham é complexa e cativante. Por trás das longas e variadas injúrias raciais disparadas por Hamilton contra Parker, há uma parceria íntima, de respeito mútuo e admiração. O caldeirão cultural que é a região fronteiriça do meio-oeste é brilhantemente construído em cena através da típica relação de parceiros policiais dos dois.

Os desempenhos dos atores de A Qualquer Custo são marcantes e contribuem imensamente para o conjunto da obra. Chris Pine tem, possivelmente, o melhor desempenho da sua carreira. Seu Toby é fatigado, amargurado, convencido de que não há mais o que mudar em sua vida: suas oportunidades ficaram no passado, resta agora uma tentativa desesperada para deixar como legado a possibilidade de um futuro diferente aos filhos. Ben Foster brilha com o seu Tanner raivoso e inconsequente, passando a sensação de ser capaz de explodir e cometer uma atrocidade diante das coisas mais banais, ao mesmo tempo em que mostra-se consciente de que, no fim, dificilmente escapará de um destino amargo e violento. Gil Birmingham tem pouco tempo em tela, mas empresta um aspecto conformista e melancólico magistral ao seu Parker que, por dentro, magoa-se bastante com as ofensas em tom de brincadeira do seu parceiro. E Jeff Bridges é o grande destaque interpretativo, à vontade no papel, com um sotaque carregado e uma voz baixa e lenta. Seu Hamilton é aquela espécie de policial que sabe como os criminosos pensam. Ele não age por impulso; antes, antecipa, é calculista. Suas angústias e seu temor pela aposentadoria iminente, diante do que fazer da vida quando não mais puder continuar trabalhando naquilo que foi o seu trabalho por ela inteira, são mascarados pelos insultos destinados a seu parceiro e por sua artilharia de piadas.

A Qualquer Custo é um passeio por um Estados Unidos interiorano, desolado, quase sem vida. A fotografia de Giles Nuttgens capta um cenário trágico e isolado, por vezes contemplativo e monótono, com pequenas cidades que mais parecem vilarejos fantasmas saídos de algum western clássico. A paisagem árida e quente do Texas transborda pela tela em imagens profundas de uma região empoeirada e esquecida, com suas bombas a sugar o petróleo da terra, parecendo sempre estar vazia – mesmo quando vemos outras pessoas em cena, suas expressões, no mais das vezes, são murchas e desesperançosas. Todos foram afetados de algum modo pela crise. O cenário faz parte da história e auxilia – ele próprio – a contá-la.

Somos como os comanches, irmãozinho. Tomamos o que bem entendemos e temos o Texas inteiro nos nossos calcanhares. Os Senhores das Planícies!“, diz Ben Foster a Chris Pine após o primeiro assalto. Das canções de grandes nomes do country tradicional, como Waylon Jennings, Townes Van Zandt e Ray Wylie Hubbard, passando por novos artistas como Chris Stapleton, até chegar nos temas originais compostos por Nick Caven e Warren Ellis, a trilha sonora de A Qualquer Custo é um espetáculo próprio. “Senhor das Planícies“, com seu arranjo de cordas penetrante – violoncelo em destaque –, e um zumbido perdido ao fundo, é um poderoso tema instrumental que evoca a imensidão do meio-oeste e lança o ouvinte em suas melancólicas paragens, enquanto as canções tradicionais do country estabelecem um sentimento de pertença cultural àquele local. Os temas musicais da dupla são discretos e agradáveis, mantendo-se ocultos ao fundo, ao mesmo tempo em que ajudam a construir o painel perceptivo do que se desenrola na narrativa.

Os temas clássicos do western estão todos à mesa: o velho homem da lei em sua última missão, o crime como retribuição das injustiças, as chegadas repletas de inquietudes nas pequenas cidades, o cassino como a metáfora moderna do antigo saloon – até mesmo com uma quase briga com um legítimo descendente comanche –, os justiceiros que tentam conter os criminosos… há espaço até para um quase duelo em uma varanda, câmera alternando o foco entre os rostos de Chris Pine e Jeff Bridges, estabelecendo um clima de tensão, enquanto o som ruidoso das máquinas de sucção – os moinhos de água do nosso tempo – faz-se ouvir ao fundo.

David Mackenzie conduz A Qualquer Custo como se fosse um diretor de western em Hollywood nos anos 1940 ou 1950. No mais das vezes, sua câmera encontra uma cena, um posicionamento perfeito, um ângulo belo, e nele permanece por um longo tempo, secamente parada, consciente, evitando cortes desnecessários ou transições abruptas – o clássico estilo do cinema norte-americano, tão raro nos dias atuais –, muitas vezes contando as coisas através das imagens, sem que palavras façam-se necessárias. Além disso, ainda investe em longas tomadas em planos gerais das vastas e intermináveis estradas do Texas, adornadas pelos descampados que parecem infinitos, com a câmera subindo lentamente para mostrar a imensidão da paisagem – evocando o estilo de John Ford e o seu modo de captar o Monument Valley.

Sangrento e violento, com perseguições alucinantes, assaltos, tiroteios e sequências de um grafismo impressionante, e ao mesmo tempo calmo, contemplativo e intimista, com tomadas longas e paradas, A Qualquer Custo é um poderoso drama, uma história de redenção (em ambos os lados do enredo) eivada de camadas sutilmente reveladas em diálogos genais e imagens que falam através da disposição de seus elementos. Uma direção impecável, aliada a uma bela fotografia, trilha sonora de qualidade, roteiro inteligente e performances destacadas, produz um poderoso neo-western que é uma pequena obra-prima cinematográfica.

A Qualquer Custo (Hell or High Water) – EUA, 2016, cor, 102 minutos.
Direção: David Mackenzie. Roteiro: Taylor Sheridan. Música: Nick Cave e Warren Ellis. Cinematografia: Giles Nuttgens. Elenco: Jeff Bridges, Chris Pine, Ben Foster, Gil Birmingham, Marin Ireland, Katy Mixon, Dale Dickey, Kevin Rankin, Melanie Papalia, John Paul Howard, Christopher W. Garcia, Margaret Bowman.

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Sobre o Autor

Rodrigo Oliveira

Católico. Desenvolvedor de eBooks. Um apaixonado por cinema – em especial por western – e literatura. Fã do Surfista Prateado e aficionado pelas obras de Akira Kurosawa, G. K. Chesterton, John Ford, John Wayne e Joseph Ratzinger.

  • Comentei nesse post seu lá no GIA, e lembro de ter mencionado sobre como a pichação inicial dita o plot do filme, o que pra muitos deve ter passado despercebido. No mais, esse ótimo filme é o típico exemplo onde não existe um lado certo e um lado errado, pelo menos não da maneira convencional.

    • Sim, e o diálogo no fim entre Chris Pine e Jeff Bridges ilustra muito bem toda a situação da história. É incrível.

  • Humpty Dumpty

    Senti falta de uma citação rápida de ”Os Indomáveis”, por ser um que você geralmente fala quando o assunto é Logan e tal. Mas concordo bastante com tudo.

    Tem uma cena maravilhosa, acho que vai concordar comigo, que é quando os irmãos estão na varanda. Ben sentado, tomando cerveja, enquanto Chris está em pé com o braço apoiado num ”pilar” da casa. A câmera fica ali parada e não tem uma música ao fundo. E então eles se zoam um pouco e o Pine senta ao lado, pega uma cerveja e fica olhando a paisagem, como o Foster. Daí fica nisso por uns segundos, mostrando como é viver em lugares como aquele. As vezes, não se tem muito o que falar e a pessoa fica ali, olhando, sentindo passar uma brisa boa. Cara, essa fotografia ficou maravilhosa.

    Destaco também a cena final, que não teve o embate esperado, mas foi resolvido de forma interessante. Além da cena inicial que começa passar os créditos. Do nada começa o assalto. E daí os nomes envolvidos na produção vão passando até chegar na fazenda, onde a câmera para. Os irmão saem do carro e cada um faz um coisa.

    Cara, David Mackenzie foi incrível, tão qual o elenco e o roteiro de Tyler Sheridan(que fez outro maravilhoso trabalho em Wind River também como diretor). Até penso que o diretor e o roteirista se encaixariam fácil nessa abordagem de Logan. Os mesmos também poderiam ter feito o remake 7 Homens e um Destino.

    SENSACIONAL! 11/10

    Espero que o trio se repita num filme medieval que estava em negociação para Netflix. Queria que A Qualquer Custo já entrasse no catálogo para rever. QUE FILMÃO!

    • Valeu!

      Sim, essa cena é fantástica. E foi uma das coisas que me fez ver esse espírito de Ford, de Hawks, dos grandes do cinema clássico americano, nesse filme do Mackenzie. Esses caras faziam muito esse tipo de cena, que aparentemente não tem ligação direta alguma com a história geral em si, mas que contextualiza com maestria o lugar e a vida daquelas pessoas naquele período tão único. E o Mackenzie investiu bastante nisso. Transporta o espectador para a vida nesse Texas empobrecido pela crise.

      Esse Outlaw King promete mesmo. E o Mackenzie ainda está fazendo mais um neo-western, só que pra TV: Damnation.

  • Estephano

    Muito bom reler seu texto, meu amigo. Lembro-me de ter colocado esse filme entre os melhores do ano passado mesmo sem ter visto muitos dos filmes que saíram no final do ano lá nos cinemas americanos, e hoje, depois de já ter visto vários deles, ainda mantenho o filme entre os melhores.

    A cena inicial desse filme é fantástica, um plano sequencia simples, muito bonito e muito bem executado, acho que aqui o Mackenzie já da seu recado. Acho que um bom western tem que ter por padrão uma ótima fotografia, né?(rs) Esse não foge disso.

    O western já mostrou várias excelentes duplas, Ethan e Martin, Munny e Ned Logan, Butch Cassidy e Sundance Kid, até “duplas forçadas” como “Blonde” e Tuco. Aqui temos não uma, mas duas no mesmo filme, e funciona muito bem, boa parte disso se deve as excelentes atuações do elenco, até mesmo Gil Birmingham que tem menos espaço manda muito bem.
    O roteiro ajuda também, o estilo intimista do western favorece muito a construção de personagem, tentei lembrar algum grande western do cinema que não tenha um personagem “forte” e não lembrei. Você consegue lembrar algum?

    • Valeu. Ele também ficou entre os meus prediletos. Filmaço, e colocou o Mackenzie no radar de diretores a ficar de olho nos próximos trabalhos.

      Um western sem uma boa fotografia não é um western…rs

      É uma ótima questão. A ideia de um “herói”, de um protagonista forte e, invariavelmente, solitário, é inerente ao gênero. Uma marca. Eu até pesquisei aqui em listas dos melhores westerns, puxei pela memória, e entre os clássicos, não lembro de nenhum que não tenha um personagem forte e marcante. Sendo que são vários que têm dois ou até mesmo três ou mais…rs Como Era Uma Vez no Oeste, Onde Começa o Inferno, Sete Homens e Um Destino. Mesmo aqueles que contam histórias de grupo, como Caravana de Bravos, ainda assim possuem personagens fortes. Conseguiu descobrir algum que não tenha?

      • Estephano

        Pensei bastante aqui, e pelo menos nos melhores filmes do gênero que assisti não consegui achar, na verdade eu não lembro em nenhum mesmo. Acho que só nos mais fracos que vai conseguir achar. Você que costuma ver bem mais filmes do gênero do que eu, deve ter visto filmes ruins que tenha essa situação, né?

        Acho que é como eu falei mesmo, como é um gênero intimista, TEM que desenvolver personagem, se não fizer isso já começou errado. Até mesmo nos já recentes clássicos, encontramos isso.

  • Opa, Rodrigo, queria pedir licença aqui, primeiro para elogiar o seu site, que é muito bonito, com otimos textos ( voce escreve melhor que muito cara que eu leio críticas), e também aproveitar que ja estou aqui, pedir desculpas a voce por todas as babaquices que falei contra vc nos ultimos meses. Eu realmente agi como um otario e um estupido. Então venho aqui levantar a bandeira de paz rs

    • Valeu. Beleza, se você realmente se arrepende daquilo tudo que fez (talvez terem feito o mesmo contigo tenha te mostrado as coisas por outro ângulo), vida que segue.

      • Na verdade já tinha me arrependido antes de começarem a me perseguir, apenas me mostrou ainda mais o quando fui babaca. Meu exame de consciência começou bem antes